quarta-feira, 4 de julho de 2018

Carta aos meus "amigos"

Vocês não entenderiam.
Porque eu já tentei falar. E não foi uma só vez.
E foi nisso, de confiar, e achar que poderia me comunicar, é que fui silenciada.
Agora, é difícil sobreviver, quando sinto cada parte que me compõe ganhar travas. Não é só a garganta que fecha, meu corpo também perde movimentos, os olhos pesam, o meu coração vira um grande buraco negro e à minha mente vem os piores pensamentos possíveis.
Paralisada, sem reação, olhando para baixo, ou para o nada, eu deixo de me reconhecer em mim, eu me perco de mim.
É por isso que não dá mais.
Eu preciso ir. Eu não quero mais estar aqui. Com vocês.
Não quero mais me sentir de fora, não ouvida, nem ouvir desinteressada. Não posso estar com quem não me entende e com quem não entendo. Não quero desolhares, e nem olhares. Não posso sentir que a minha existência é forçada em um lugar, mas não é bem vinda, é esquecida, é simplesmente simbólica. Não posso mais não pensar em mim. Nem me magoar, e magoar vocês. Não quero. Não posso. Ficar nesse ir e vir, nesse meio termo, machuca mais do que cortar de vez. Me deixem. Porque eu já fui.
Sem tentativas de reconciliações. Ou questionamentos.

- Diário.

domingo, 17 de junho de 2018

O dia seria mais estranho
Se não soubesse que está feliz.
Assim vive a menina risonha,
Que todo o tempo se confunde com o ar.

E sente seus pés sairem do chão.
Mas não sabe se são mesmo eles,
Sua cabeça,
Ela mesma

Ou se todo o mundo.

Vai ver nada aconteceu
Nem saiu do lugar
Ninguém se moveu
Em nenhuma direção.

Estivemos por aí
A toa, na boa
Presos sem saber
Imersos e sem solução

Suspeitando disso tudo,
Mesmo continuando
Sem muito entender,
A menina que sonha

Voa

Em direção ao céu.

Porque disseram que pra cima
O universo é assim, sem fim
E o infinito é o que procura
Abraçar

Podendo, enfim, flutuar
Na imensidão de vida
Pronta pra preencher
De paz

Cada espaço do seu coração

De menina boba e feliz
Que se sente estranha
Mesmo que se conheça
Desde que pousou, faceira,

No mundo.

domingo, 15 de abril de 2018


Mesmo se não puderem mais me ouvir,
O céu eu vou contemplar.

O céu não me deixa esquecer
Que tenho parte
Na imensidão do mundo.

O céu toca gentilmente a minha alma
E me faz ver
Todas as coisas boas que há em mim - 
E ao meu redor.

Olho ao longe
E ao alto
Quando me silenciam
Ou me silencio

Só através do céu
Tenho a certeza de que 
Ainda que eu não venha a ter um lugar ao qual pertencer
Eu existo.

Assim, posso sentir
A minha própria existência
Infinitamente finita
Finitamente infinita

E quando me sinto ao chão,
Sem forças para ser,
Volto o olhar para o céu

Pra onde posso voar
Fazer casa
Jamais me sentir só
Sem lugar

O céu está em todo lugar.

Faça sol
Faça chuva
Façam lua e estrelas
Façam nuvens de algodão

Quando me fizerem desacreditar
Ou desacreditada

Sentarei
E sentirei

Até que possa
Valer a pena
Até que possa
Me sentir plena

Outra vez.

Até que possa ser de novo
E estar

E quando não me entenderem
Não me ouvirem
Não me verem
Me julgarem

Insensivelmente 
Tocarem a delicadeza da minha alma

O céu voltarei a contemplar

Só pra me fazer lembrar
De mim mesma
Das coisas boas
E do amor.

Porque só o céu
Com sua vastidão
E onipresença

Me deixa bem

E conectada
Aos que entendo
Puramente como amor

E são firmamento,
Base e sustentação -
Assim como o céu

E estão sempre permitindo, 
De modo tão singelo, que

Eu possa genuinamente ser.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Existencial


Talvez
Eu não seja daqui.
Talvez
Eu não devesse estar aqui.
Não gosto de quase nada
E nem sei se gostam
Do que gosto, de mim

Devo ser
Desinteressada
E desinteressante

Às vezes
Eu queria que me entendessem
Ou que, ao menos, não me entendessem mal
Porque isso me faz sentir muitas coisas
Ainda mais que o normal

Queria achar um lugarzinho pra mim
Em que pudesse me sentir como sou
Que me fizesse sentido
Sem perder

Nem sempre sei
Se no dia a dia
Nesse monte de coisa e gente
Comigo estou

Às vezes bate um estranhamento
E quando me vejo sozinha
O silêncio
Tem mais barulho do que era de se esperar

E onde é que estou?

Aqui? Estou?
Estou se sou?

Sinto tanto
Que já nem me sinto

Sinto muito.

E que seja possível continuar sentindo
As coisas
O tempo
As pessoas

E eu mesma
Como sou

Porque sou.

Estou! Achei!
Na pontinha do meu coração.
Só não sei se deveria estar

Neste mundo

Porque talvez
Eu não seja daqui.

Mas sorrio, acreditando
E espero que sem me machucar
Que deve haver algum lugar pra mim
Em algum lugar

Num abraço, num coração
No presente, na vida.
O mundo é grande

E eu quero sentir e ser gente também.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Podada


Quando chega o final da semana, as pessoas costumam comemorar o fato de a semana ter terminado. Eu, não sei. Sinto um enorme vazio.
Aconteceu, é verdade, ao longo da semana, um bocado de coisas, mas o que é que pra mim ficou?

Sem saber como lidar com a velocidade do tempo e seus acontecimentos, eu me afogo num mar de confusão. Que me leva, pra bem longe, do mar que visitei semana passada. Nesse, sim, eu não molharia só os pés, e nadaria com vida.

Eu me desacostumei ao mundo, a forma que lhe deram. Eu esquecí do transito, da multidão, das superficialidades, da multitarefa. Eu, por um tempo, me desliguei e sintonizei meu rádio no que simplesmente sou.

E agora, que voltei, não há natureza, não há sorriso meu que possa disfarçar o meu estresse, a minha ansiedade. E é assim que de tanto já me sentir atropelada por tudo, sinto vontade de me jogar.
A calma do que sou se perdeu, deu lugar a uma plantinha descuidada e podada. Desvastada. Por vida que esqueceu que é.

Tendo que me preocupar com todos os lembretes, vozes e situações que surgem a mente, com o modo como me comporto e com o que digo, vou vendo a vida passar, deslumbrada. Me encanto pelo desencantar de tudo o que poderia ser mais belo, se pudesse não ser forçado. Deixo uma dor no peito e o coração acelerado, saltado, desgastado me paralisarem. E vou deixando ainda mais de estar... Com uma presença que só se faz desinteressadamente contemplativa, mas não afetada.

Tento deixar as coisas simples me levarem, pra bem longe. Pra quem sabe inspiradas com elas, eu me contente e reencontre tudo o de bom que há em mim, e que não se faz só de invisibilidade, de quem não é, de quem sente que não pode ser.

Segunda foi a chuva, que me fez acreditar que a tudo lavaria e levaria. Terça, preferí dormir do que deixar tudo desabar. Quarta, eu amei todo o som que sou capaz de produzir. Quinta, eu ví o sol nascer e tentei acreditar que é possível compreender e fazer parte do todo. E sexta, eu me obriguei a escrever e não jogar fora, como já faço há três semanas, por não me encontrar sequer aqui. Mas a verdade é que na sexta, eu quero poder acreditar que a vida pode ser diferente, que a vida pode ser sentida. Eu me sento num banco e, olhando para bem longe, me pergunto: o que é que eu estou fazendo aqui? Eu estou aqui?

Se tem uma coisa que não posso deixar passar, são as coisas que sinto. E eu sinto. A sensibilidade viva. A flor da pele.

Queria deixar tudo, me isolar, sentir o tempo, refletir. Simplesmente, poder respirar. Encontrar a leveza do meu ser. Sentir que posso, sim, existir, em troca de sentir esse vazio no coração.

E na sexta, sem nada entender, chego em casa, acendo a luz do quarto, e tiro a menininha aflita que chorava no canto escuro, dizendo: pode vir, eu também sou você, vai ficar tudo bem, na segunda a gente tenta de novo viver.

Ainda que a gente venha a se sentir só num monte de gente.
Ou, quem sabe, preferindo ficar só.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Manifesto

O que é compartilhar? Foi o que minha vó perguntou dia desses, assistindo televisão. 
Essa é também a pergunta que eu tenho feito a mim mesmo, nas últimas semanas.

Deixei todo o mato crescer ao meu redor, numa tentativa de buscar, dentro de mim, qualquer sinal de tudo aquilo que sempre fui.

O problema, no entanto, é que não há paredes de pedra, e o que eu sou é o tempo inteiro atingido por tudo o que o mundo é. Eu me perco de mim, eu entro em desespero, eu deixo de aceitar o que sou.

Um problema: medo. 
Medo de não agradar, medo de sonhar, medo de existir. 
Medo de decididamente seguir com o que quero da minha vida.

Foram tempos confusos, apenas navegando num mar de um grande nada. O medo foi dominando, e qual é o sentido que sentir tem? Nenhum, não quando se luta contra o que se é. Quando a tempestade cai em alto mar, o navio se desregula, foge dos trilhos, emocionalmente.

Uma palavra: manifesto.
É momento de ser pontual, de mostrar e compreender pro que é que se veio.
Porque eu não preciso me afligir a cada vez que entro em contato com o mundo, eu também componho o que vem a se chamar universo.
É se desapegar de vínculo inconsistente, sem sentido sentir, para abraçar todas as outras coisas, como a essência da vida.

Muito longe de ser arrogância, se trata de unir forças e assumir o que posso ser.
Porque não preciso que me aceitem ou me incluam, eu finalmente, em silêncio e solitude, me inclui e me aceitei nessa vida. E eu sei que só assim tudo acontece. Porque do contrário, tudo se desfaz no vento.

Ou cai ao chão, como inúmeras folhas.

Folhas que também voam, folhas que captam luz e realizam trocas.

Posso ser folha? Folha vou ser.

É quase meio certo que a realidade não vai mudar, mas como um pontinho do cosmo, eu posso simplesmente me colocar no meu lugar, de nem menos, nem mais: natureza, existência.

E nesse momento, de singela coragem, eu corro, na mais alta emoção possível, em direção ao mar, e salto, sem medo de sentir a plenitude de quem sou, do momento que sou, aqui, agora.

E eu não posso, também, de forma alguma, fingir que nada se passou. 
Se passaram dez anos, e é estranha essa distância física de alguém cujo amor eu sinto tão próximo de mim, batendo no meu peito. 
A falta vai sempre existir, mas seguindo tudo o que você me ensinou, todo o amor que você me deu, e a estrela que você hoje é no céu, eu só sei que eu devo fazer exatamente o que me parece agora: acreditar e transcender. Ser-equilíbrio.

Sem óculos, vejo tudo pequeno e embaçado. Com óculos, vejo a imensidão do mundo, de sonhos, de vida.
Mas que neste infinito eu não fique imersa e sufocada. Toda essa vastidão vai construir ou desmoronar? Só eu quem posso escrever. E eu não quero me expor, quero me expressar. Não quero me desorientar, quero me sensibilizar. Não quero me tornar visível, nem invisível, quero estar consciente da minha existência. Quero agir com carinho com a vida, essa coisa tão frágil e delicada que é.

Esse é o manifesto, a história de como entendí que a história tem a versão que eu contribuí para ser. 
Não será simples, mas será o cultivo do que realmente importa. Depois de correr e pular, a água estará gelada, e a correnteza pode me levar. Mas tendo o meu propósito, eu não corro o risco de me afogar. E assim, minha cabeça surge ao mar, recuperando o fôlego, observando ao redor. Eu abro os olhos, sorrio, e volto a nadar.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Palavras sobre a autenticidade

Quando é possível encontrar um momento de parar, de fugir de qualquer coisa de se chame rotina, é que posso, em silêncio, ousar me perguntar: o que é a realidade? A realidade já existe, os outros criam, inventamos todos juntos, ou posso escolher a minha?

Agora um pouco mais longe de tudo, para não dizer todos, me encontro a sós com minha subjetividade. E no meu íntimo, não preciso de palavras ou imagens  que digam o que é real. Porque ele, por si só, é real. É certo que a partir de uma forma de ver particular, mas que bom.

Singular. É o mínimo que cabe a mim enquanto vivo.
Como eu poderia agir no mundo de outra forma que não fosse buscando o que sou?

Eu aprendi, mesmo, que muito da vida tem a ver com escolhas. E é assim que sigo, sempre escolhendo o que quero fazer, com quem quero estar. Preocupada muito em como poderia afetar aos outros, vou frequentemente deixando coisas, e me deixando.
O que fazer, então, quando chega um ponto em que é preciso escolher entre ser você e ser o que os outros querem? Como estar para os outros quando não estou pra mim, não sou a única coisa que acredito ter de fato, que é a essência de quem sou?

Isso tudo aqui não se trata de desapegar, de buscar o minimalismo, de revoltas. Trata-se, simplesmente, do limite da despersonalização.
Porque eu cansei de não sentir, cansei de não me sentir, cansei de não sentir o mundo. Ou de sentí-lo fora da realidade.

O que é real? É o que existe, e eu existo. É a verdade, aquilo que posso sentir. E eu sinto, basta estar em contato com o que realmente importa.
E no modo como as coisas tem estado, eu não vejo realidade alguma, e muito menos ilusão. 
Por que tenho deixado a alienação me conduzir?
O que estou fazendo? 

Eu sei, mesmo, que muitas coisas dependem menos de mim do que gostaria, principalmente em termos de mudança, no mundo. Mas e o que está ao meu alcance, o que é da minha alçada, o que posso fazer?

Me lembro bem, de uma das minhas caminhadas, de ter visto uma árvore com os troncos todos amarrados. Hoje vejo como ela representa o modo como me sinto, presa ao insensível, sem poder estar com o significativo.

Posso até fazer parte de um inteiro, todo relacionado. Mas eu tenho um mundo também dentro de mim, que existe não por existir, mas para completar o mundo de fora.
Esse mundo meu, por vezes grita, por não suportar, não entender, não expressar. E reclama a mim, que poderia mudar. Esse mundo se mostra sem se mostrar, expõe sem expor, expressa sem expressar, porque só é legítimo aquilo que todos veem, o que é público, o que interage.

Quando eu olho para um teto branco, ele não é só vazio ou alvo, por ele percorre, como na tela de um filme, mil e umas cenas. Porque a vida não acontece só fora, ela vive, e muito mais, internamente, sim.

Fazer acontecer é agir no mundo, que é menos estar em um espetáculo, e mais estar de acordo com nosso propósito.
Melhor um tempo, pra gente se entender e ficar bem com a gente, do que sair por aí, mundo afora, inabalável.

Porque eu prefiro, mesmo, viver com genuinidade, do que nem viver. Ou viver sem vida. Por que o que somos sem o que somos? O que é realidade?

Pra mim, o agora. 
Ser pleno, de verdade.
Preferindo a solitude, que a solidão.
E uma incontrolável vontade de ser, de viver a verdade de quem sou.

Condição atual: voando por sentir todo o amor, toda a magia que há.
Esperando que a queda não seja arriscada demais.

Mas que eu fique à vontade em outros bancos, porque como meu amor me mostrou, todos os bancos são sábios se houver uma grande sábia nele (ou quem sabe um sabiá, cantando bem feliz).