sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Mudanças

Caminho na beirada da calçada, me equilibrando. Me imagino caminhando nos trilhos e o trem simplesmente vindo e passando sobre tudo o que sou.

Não consigo mais assistir aos filmes, porque eles são sempre a mesma coisa, uma mesma coisa que eu já sei, e não quero saber. Talvez como a história da minha vida.

Eu vou mudar de casa, de endereço. de bairro, de cidade. E o quanto tudo vai mudar? Toda a minha história continua a mesma, intacta. E de vez em quando, eu posso guardá-la em caixas e sacos, e levá-la para outros ares.

Os pés, já nem sinto mais. E a minha bagagem emocional é muito maior do que tudo o que tenho para carregar.
Essa marcação espacial tem mexido com tudo. E eu, sou um guarda chuva molhado, num temporal, cujas percepções e sensações são como as gotas da chuva de um grande temporal, que pelo guarda chuva vão pingando e pingando. Mas o temporal pode, às vezes, ser devastador, ainda mais em uma subida, em que a água vai contra você, e você pode se molhar ainda mais.

Dizem que a chuva, quando molha, é pra lavar tudo. E eu espero mesmo que depois fique aquele tempinho bom. Mas acontece que as poças de água também ficam, e elas demoram pra sumir, o que me preocupa. Toda essa desregulação emocional cansa demais. E eu só quero paz. Um silencinho interno e externo bem bom.

No momento, não o encontro. Só uma grande bagunça. Uma grande confusão. Mas eu espero encontrar, numa próxima esquina, ou no próximo abraço seu e no seu lindo par de olhos quando te ver de novo, todo conforto e paz que tenho em algum lugar dentro de mim.

Inquietações. Toda a segurança, todo o comum ficando mais longe. Mudanças pra algumas coisas boas, mas desconhecidas. Difícil. As histórias ficam, bem como suas marcas, mas quando foi que eu disse estar pronta pra me distanciar ainda mais desse lugar onde cresci? Desse lugar em que compartilhei tantos momentos que guardo com a pessoa mais importante da minha vida?

É, mãe, você se foi, e a cada ano vou tendo que me desprender. Mas já guardei, mais uma vez, pra levar, um monte de coisas que me lembrem você. Não só aquela blusinha preta surrada sua que eu uso quase todos os dias, mas também o frasco do seu perfume, o saco das suas cinzas que joguei no mar, as suas fotos mais bonitas, e histórias.... Sem saber que tenho que aceitar, que não vou perder o que já perdí, mas que não perdí porque vou sempre amar e ter comigo.

Entrou um cisco no meu olho. E esse vai demorar sair, e correm lágrimas e mais lágrimas, mais do que a água da chuva corre.

Fecho os olhos e me imagino em seus braços, meu amor. As coisas às vezes são difíceis, mas a gente vai junto, de mãos dadas, em silêncio, adaptando tudo. Não há distancia que supere nosso amor. Eu acredito, e fim. E vamos bem juntinhos, seja como for.

Na estação Liberdade, muitos e muitos e muitos pássaros voam. Que será que isso quer dizer?
Não sei exatamente, mas às vezes eu ando e busco mexer os braços como se pudesse levantar vôo. Vai que acontece. Mas a liberdade é tão traçoeirinha quanto a felicidade, e é preciso estar atento para os poucos segundos em que elas vão passar pela gente.

Eu já nem sei mais, se toda essa confusão sou eu, se vem de fora, ou se dá na mesma. É tudo muito rápido, não sou capaz de acompanhar, e bum. Assim como esse texto muda de direção, dispersa e associa, sem saber pra onde vai, se é que tinha planos de chegar a algum lugar.

Pra falar a verdade, esses últimos dias foram mais difíceis. Muita ansiedade e tristeza, tudo misturado, num bolo só, com pequenas alegrias e novas esperanças. Mas eu me senti muito só, e simplesmente incapaz de me achar boa o suficiente e achar as coisas boas em qualquer medida.
O choro ia explodindo, e eu só não queria existir. Mas essa não é uma opção, nunca é.

Correta ou imaturamente, queria sumir. Quem sabe fugir para o nada? Para bem longe de toda esta cultura do provisório? É, mas não é uma opção. Nunca é. Será? Eu também não sei.

Eu só me sinto dando voltas até parar e sentir que continuo rodando. E tudo vai girando pra mim, ainda que tudo esteja no mesmo lugar. Ou não.

Mas vou, pensando no equilíbrio como a melhor solução.

Os cômodos vão ficando vazios e repletos de eco. Bem como dentro de mim, que as mesmas questões, pensamentos, emoções e conversas vão acontecendo, repetidamente.

E lá longe, numa caixinha bem pequenininha, que poderia ser esquecida na mudança, uma voz ecoa: não tenho medo de morrer, tenho medo mesmo é de viver.

E é.

Desde garotinha eu tive esse medo, e por isso me trancava sozinha e quietinha, apenas escrevendo todos os meus devaneios. Com o passar do tempo, a gente vai tendo que sair, e o lagarto vira borboleta (mais ou menos isso né?) e todas essas coisas. Mas quem é que disse que a gente quis ou aprendeu a lidar? Aconteceu, aconteceu. E agora vou sendo ser humano mais em crise que o mundo, embora vá girando no mesmo padrão.

Quem sabe esse medo não pudesse cessar aos poucos se eu fosse com você?
E quem sabe toda essa chuva não se transformasse numa lindo espetáculo de chuva de folhas?

Eu não sei. Cansada, vou simplesmente dormir. E vou sempre seguindo assim, sem nunca saber lidar...
E quem sabe uma mudança não surja e torne a vida um jardim ainda mais vívido, após tantos desafios, inseguranças e adaptações?

(Perdoem a confusão, tudo isso foi uma multidão de coisas, uma imensidão que acontece aqui, em mim.)

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A primavera chegou


Era dia, e eu só decidí ir até a natureza. Com o sol que nasce, indo e vindo, alternando com o vento gostoso que bate na nuca. E todas as árvores, flores e insetos que fazem seu movimento ali. O que fiz foi me juntar a tudo isso, só pra encontrar um cantinho de paz no meu peito também.

Se eu pudesse, eu seria um pássaro. Cantor, e que voa o mais longe que pode. 

Mas eu não sou, e talvez nem nunca venha a ser.

E foi assim, que eu fiquei admirando as borboletas que voavam, tão faceiras, por ali.
Então, pequenas esperanças pousaram bem perto de mim. Em forma de borboleta. Uma borboleta muito leve, que voava muito, e muito rápido. E que decidiu pousar em mim. Várias vezes. 

Será que eu poderia ser uma borboleta? Afinal, eu ainda assim poderia voar.

A essa borboleta, que se tornou uma amiga especial no dia em que decidí estudar na natureza, falta uma parte da asa. Ela perdeu em algum momento, de alguma forma. E eu disse que ela estava ferida. Estava mesmo?

Ela, eu não sei. Mas eu estou. Ferida por mim mesma. Que muitas vezes, simplesmente não respeito quem sou e até onde posso, devo, quero ou preciso ir.
E o corpo, psicossomatiza. Ele se destrói, como eu costumo fazer com todo o bem que tenho em mim. Autoimune.

Remédio. Acordar e tomar. Seguir.
Quem sabe com mais energia, com mais vida, mais alegre?

Na semana anterior, eu caminhava feliz, sorrindo e cantando, pegando flores e admirando o que quer que fosse pequeno e simples. Onde posso encontrar o belo. E a minha grande emoção era, na verdade, por estar viva. Ter sobrevivido. Chegado até aqui. Não ter desistido. Persistido. Exatamente há um ano atrás, eu me sentia totalmente sem saída e sufocada por tudo e todos ao meu redor. E não suportando, chorando, e passando pelos mesmos lugares, eu tinha pensamentos e desejos seguidos de como dar um fim nisso tudo. Que sou eu mesma. Que estou aqui.

Na volta dessa caminhada, eu olhei acima do telhado do corredor, e admirei as árvores que só se pode ver olhando para bem alto. Se eu pudesse, seria um pássaro (ou quem sabe uma borboleta?) só para poder ver esse espetáculo bem de perto. Para olhar as coisas mais de alto. Poder ser pequena, mas contemplar a imensidão das coisas. 

E é nesse mesmo corredor que está o banco sábio. Em que acabo gastando muitas horas do meu dia. Vendo passar tantas coisas, tanta gente, tantas pessoas. E eu, quando é que vou ter minha chance de passar?

Esse incômodo que cresce, que vem em forma de vazio, que angustia é disso. Necessidade de fazer algo que faça a diferença. Já que existo, o que é que eu posso fazer?

É uma alegria muito grande, ver as realizações, se sentir útil, colher as coisas boas. 

Por isso, eu roubei uma flor de primavera seca e uma que acabou de cair. 
Porque algumas coisas precisam secar para outras ainda melhores poderem florescer.

Ainda bem que a primavera chegou, pra florir não só o mundo, mas também o que há dentro de nós, e deixar irradiar as coisas boas que a gente esconde dos outros, e da gente mesmo. 
E quem sabe ela também não faça o favor de preencher com flores, das mais coloridas e alegres, todo o espaço que a ansiedade costuma encontrar e me dominar? Seria ótimo, e eu não precisaria, no caminho, sozinha, parar para eu mesma me abraçar.

Quero mais é fazer em mim um jardim de dentes de leão. E poder passear, sorrindo e achando graça na vida, muitas e muitas vezes ao dia.

Sabe o que é toda essa bobeira de insegurança? É o que já não cabe mais em mim. 
Por que é que sou assim? Pra que tanto medo? 
Encara a vida, faz dela sua também, uma parte sua, que já deveria ser, já que está aqui.
Não precisa evitar, fugir, chorar. Fica aqui. Pode ser quietinha, na sua. Mas fica.

É, eu sei. Eu aprendí a ficar. Precisei de uns anos pra me convencerem e me convencer, mas eu entendí partir cedo seria pouco, pra quem gosta de sentir demais. E eu fiquei. To ficando. Bem. Dou um sorriso pra quem me vê. Um sorriso pra vida. 

Bom mesmo é olhar pela janela. Tudo se move. Eu me movo. Uns chamam de paralaxe. Eu, de viver. E eu vejo o dia se transformando em noite. Uma noite danada de tranquila. Um cansaçozinho de um dia cheio, mas bonito. Floriu, floriu. E a lua bem sob a minha cabeça. Logo eu, toda meio lunática. 

Mas eu também gosto do sol. Que surge e vai embora tão grande, tão lindo, tão brilhante, mas escondido. Como é que pode, essa estrela, iluminar todo um mundo, mas se esconder, ficar tão na dele, e tudo bem? Talvez seja só isso... Ficar aqui, quietinha, fazer umas coisinhas boas por aí e tudo bem. 

Perto da minha casa, limparam um terreno. Nele, tinha muita sujeira e lixo. Mas tinha também muitas flores, folhas e dentes de leão. Quem sabe a gente não precise dar um fim em tudo, mas procurar ver o que há de melhor e cultivar?

E assim eu encontrei a minha missão: inspirar, seja como for. Ser luz, propagar amor. Gerar felicidade.

Ainda bem que a primavera chegou. É tempo de primavera, pro reflorescimento acontecer. De onde a gente vive, das pessoas próximas. Ou pelo menos da gente mesmo. Fazer florescer fora, e principalmente aqui dentro. Que floresça sempre aqui dentro, e faça transbordar até o mundo inteiro fora contagiar e florescer também. Não como um projeto de grandeza, mas quietinha, só mais alguém por aí afora vivendo. Eu, aqui.

E que a primavera chegue, mas não seja só mais uma estação que a gente vê passar. Que seja uma estação que a gente faça parar. Ou que a gente pare nela. Ou, ainda, que a gente siga nela e com ela. Pra florir. Flor. Rir. Ir. 

Já fui, porque eu quero flores-ser também, no meu próprio jardim. Ser dente de leão, sopro na vida. E voar, voar, como aquela borboleta, que um dia pousou e voou. Essa quero ser eu na vida: pouso e voô. Bem feliz.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Como você vai?

Se fosse possível representar em um filme o que acontece dentro de mim, seria um filme em preto em branco, em um quarto vazio e escuro, com uma garotinha sentada em um canto da parede, silenciosa, fechada, cabisbaixa. E seu único desejo, de tão frágil, é poder tornar-se pequenina, pra mais do que se esconder, poder sumir.

Como você vai?
Eu diria que não vou, se de algum modo não estivesse simplesmente indo. Como quem não quer ir, mas simplesmente vai. Porque é melhor. Ou a famosa resiliência. Resistência. Existência.

São dias difíceis, é certo. E a gente não quer existir. Não quer sair de casa, não quer fazer nada. Não quer sequer respirar. No entanto, sabe, ah se sabe, que se ficar só, é pior. A existência vai atormentar.

Julga tudo o que faz, tudo o que pensa e sente. Seu aspecto e aparência. Não vê sentido em nada do que tenta lhe estimular. Nada mais parece afetar. Não consegue sentir nada. E nem pensar. A mente, voa longe. Mas para o nada, para o vazio. No meio de tanta gente, de conhecidos, sozinha, sentada, olho longe. Nada.

Às vezes a natureza é capaz de trazer alguma ligação. Os pássaros que passam voando e cantando, o sol que toca as árvores, pequenos insetos passeando entre as plantas. E o meu coração perdido, entre uma canção melancólica e uma folha em branco. E só fica a contínua sensação de crise, pessimismo, negativo. Vazio. Simplesmente nada.

E esse nada, é tão cheio, tão carregado, que eu me sinto oscilar entre meu ser nem estar aqui e estar até demais. Como se eu me procurasse e ao mesmo tempo me sentisse como um fardo pesado demais pra carregar.

Me sinto banal, ridícula.

Uma perda de tempo. De um tempo que corre e eu nem vejo passar. Porque estou indiferente, a tudo. Desinteressada. 
Essa confusão é tanta, que a cabeça dói. Me sinto tonta. E eu sinto sono. Só queria dormir. Pra toda a eternidade.

Parece que falta aquela pontinha de esperança. Eu deixei de acreditar no bem?

Nada me anima, e eu quero fugir, esconder, sumir, chorar. Não sinto vontade de me mover. De andar, ou de falar. Parece que nem mesmo os cacos quebrados eu tenho para juntar.

Desvio das pessoas, para não esbarrar nelas. Quase que num sentido de não incomodá-las, num desejo de passar despercebida. 

Às vezes, a menininha se levanta do chão, anda em círculos no quarto. Ela sente medo e angústia. Não quer que os medos e fraquezas a dominem, toda essa estranha fragilidade e amargura. E ela às vezes até grita, erguendo os braços e correndo, mas parece que não pode ser ouvida. 

Até consegue escapar, em alguns momentos. Sorri e tenta interagir por aí. As pessoas perguntam: como você vai? E essa pergunta não encontra resposta, em lugar nenhum. E a menininha logo volta, dominada por essa falta de presença. E mil respirações pesadas e profundas. Falta o ar para preencher o peito ou o peito está cheio demais?

A menininha continua, no quarto escuro e vazio.

E então, fora, apenas me sento, em silêncio, e olha para o nada.

Tento dar um tempo. Em um lugar mais afastado. Até que de longe, muito longe, um dente de leão.

Uma nova missão, um sentido: buscá-lo.

Capturo-o, e retiro dele algumas sujeiras e bichinhos. Vou caminhando.

Como você vai?

Passeando, sem muito rumo. 
E vou tirando pequenas folhinhas brancas do dente de leão e vou assoprando, vendo elas voarem. Isso me faz, de algum modo, sorrir. 
Eu poderia achar que o sopro fazia voar, para bem longe, todos os meus sonhos, toda a paz que eu gostaria de ter. Mas talvez seja um sopro que leva toda essa coisa ruim, e traz, em troca, um pouco mais de amor. Pra uma vida mais leve. Uma vida que possa ser sentida como um sopro, ou vários deles, bem delicadamente.

Talvez não tão rapidamente. Se nem as pequenas partes do dente de leão podem voar tão rapidamente para tão longe, por que eu conseguiria encontrar equilíbrio tão rapidamente?

Encosto a cabeça no apoio da janela do metrô. Deita, deita. Já já passa. 
Fecha o olho, ou olha pra longe. Como você vai, Elo?

Vou, vou. 
Só vou. Só voo.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Relatos de um coração descontrolado

Tenho regras que nunca vou viver. É o que penso, enquanto viro em uma rua, pensando em completar tarefas chatas mais rapidamente pra depois ter todo o tempo do mundo pra descansar e fazer todas as coisas legais que planejei. E que tempo é esse que eu não ví? Só ví passarem um monte de lapsos de memórias e de tarefas, ao longo de todo o dia.

Caminhando pelas ruas e sentindo coisas, vou olhando ao redor e não consigo acreditar que sou desse tempo, que sou desse mundo, que sou dessa vida. Sou?

Me sinto perturbada, louca, fora do normal. Muitas coisas tem se passado pela minha mente. Coisas demais. Todos estes pensamentos tem drenado, roubado, sugado todas as minhas energias. Não pareço suportar. Nada. Nem o mundo aqui de dentro. E menos ainda o de fora. Parece que são coisas demais, para uma pessoa só. Para pouco tempo. Pra um único corpo. Pra uma cabeça só.

O meu corpo só tem cedido. Tem se entregado, pouco a pouco. Feito, tomado, domado e dominado. Pelo estresse. E quem é que aguenta, sabe lidar?

Eu choro, meu coração descontrola, me faltar o ar, o corpo dói. 
Coração, estômago, tontura, mal estar. 

Me desespero. Sustos. Pânico.
Lágrimas. E o olhar longe, ultrapassando a janela, o trem, a viagem.

Aparelho e fios captam as batidas do meu coração, mas meus pés já seguem o mesmo ritmo desordenado há tempos. E com isso tudo, eu mesma posso sentir meu coração bater muito forte, quase saltando pra fora da pele, rasgando tudo. 

Talvez meu coração exploda por ser demais?

Paralisa. Tudo paralisa. Menos a cabeça. A cabeça vem, eu me vejo presa dentro dela, tudo em torno dela. Tento me organizar, me acalmar, relaxar, tudo em vão. Vejo novamente o descompasso dentro-fora.

Paraliso. 
Já era. Vou cair.
Crises. Culpa. Cobrança.
Choro e choro. Não consigo dormir.

No meio de tudo isso, um momento bom. A música. Eu e meu violão. Canto. O céu e a lua linda, enorme. Cercada de pessoas queridas. Me sinto infinita. Me sinto plena. Posso me encontrar. Posso sonhar novamente. Não preciso de mais nada.
Fico agitada, atenta, alerta. Muito feliz. Tudo parece no lugar, harmônico, em equilíbrio. Sei quem sou, onde estou, para onde vou. 

É como me sinto quando vejo as árvores, e as abraço, um abraço longo. Ou quando o vento entra por debaixo da roupa e sol toca a minha pele, me aquecendo, me enchendo de vida. 

Eu vou e volto, vejo a vida passar, como as paisagens passam na janela do trem.

Ando muito confusa, me perguntando sobre o que realmente importa. Entro em crise. Me sinto desamparada. O que realmente importa?

Há coisas boas aqui, mas o conflito se mantém, porque minha cabeça permanece aérea, porque sou de outros ares, de outros ventos, de alturas que não permitem que os pés toquem o chão, mas que fazem com que a alma voe.

Como solucionar este conflito? Posso solucioná-lo? O conflito da minha existência?

Eu me sinto como aqueles bichinhos que voam desesperadamente, impacientemente, sobre as luzes, no calor.

Quero abraçar o mundo. Não dá. É grande demais. E eu me sinto pequenininha.
É muito difícil não desmoronar. Eu quero abraçar o mundo. Eu envolvo nele e ele me envolve. E assim vou. Vou e volto.

Tudo bem. Me sinto ótima. Fôlego. Tudo certo. Motivação e emoção.
E então o cansaço, o desânimo, a fuga.

O coração.
A frieza de todo o resto.

As pessoas olham fixamente para o aparelho e os fios. Querem saber como bate meu coração? Acham que não estou bem? Depende do referencial, e desse jeito eu me pergunto se eu tenho algum.

Poucos me notam. Os que notam, é desinteressadamente, procurando o que não vão encontrar. Mais um alguém. Ou ficam em choque, porque talvez suspeitem que não sou normal, que não sou daqui.

A dor aguda que sinto ao tirar os fios é a mesma que percorre todo o meu corpo. Eu corro, mas sinto o chão puxando e segurando os meus pés.

O mundo me assusta. Me encolho e retraio. Os olhos se entregam. Queria me esconder.

Me sinto como uma joaninha que faz de tudo para se segurar na ponta da folha de uma palmeira, enquanto o vento vem, com todas as forças.

Me sinto de um jeito em que não me sinto. 
É bom, porque tudo parece um pouco mais calmo aqui dentro. Mas é desesperador.

Não me sinto aqui. Alguém pode me amparar para eu me sentir aqui?

Deito. Não quero nada.
Queria um colo, um carinho, um abraço. Me sentir envolvida. Pra saber que eu estou aqui.

Pra saber que estou aqui sem ressentimento. Sem ódio.

Pra saber que estou aqui. Que existo. Que estou viva.

Todos os meus pedaços, que me fazem alguém, estão espalhados, dentro de mim, por aí afora, como a paina que se espalha por todo o chão da praça. Sento em um banco afastado da multidão. Recolho algumas flores e folhas.

E eu acabo sentada na plataforma, escrevendo ou lendo, vendo os trens e as pessoas passarem. Em algum momento eu me levanto, tomo um café. E vou e volto novamente. Quem sabe mais eu, como de vez em quando posso sentir tão integralmente. 

Mas sabendo que, independentemente de como o coração bate ou de que universo sou, a única regra que preciso pra seguir a vida bem é inspirar paz e expirar amor. 

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Pass(e)ar

Não gosto de dias em que o tempo está assim, confuso. Fresco, escuro, frio, nublado. Me faz sentir a frieza em mim, não só na externalidade e aparência do meu corpo. Não sinto o frio tocar delicadamente a minha pele. Sinto a frieza e insensibilidade tocar a minha alma, o mais profundo do meu ser. O interno, a minha intimidade. Não gosto. Sinto medo, insegurança, irritabilidade. Tédio, ausência de vontade de viver.

Sentada, agora, olhando pela janela do ônibus que me leva para novos ares, sinto rapidamente a luz perturbar meus olhos, que se esforçam para se manterem abertos. Mas eles logo cedem, e ficam só semiabertos, domados por essa frieza.

Me sinto calada e vazia. Ví pessoas se juntarem, aglomerarem, conversarem e rirem. Muitas vozes e movimentos. Diferentes mundos e preocupações. Onde eu estava? Sentada, distante, silenciosa. Pensando sem pensar. Olhando para o horizonte para olhar pra dentro de mim. E é com nada que me deparo. Onde estou? Onde está quem eu sou? Me sinto pequena, frágil, perdí o universo que me constitui. Vejo, então, fugindo daquela multidão, passando e atravessando a sala uma formiguinha, que é como me sinto nesse mundo, nesse dia.

Quem me dera poder contar as estrelas do céu! Ou contar às multidões o que se passa em mim. Verdade, verdade. Mas passa, passa.

Caminhei pela natureza. Também sem encontrar algo dentro de mim que pudesse expressar o que é que há. Me definí então pelo som dos pássaros, que voavam em bando logo pela manhã. Deixei aquele único som preencher tudo em mim. Depois, me sentei no bom, velho e sábio banco, e deixei todo o silêncio me invadir. Ao menos por cinco minutos. Sem pensar. Calma. Um respiro.
Nesses dias assim, tudo parece estar parado. O universo às vezes estaciona, é? E quem é que disse que os desvairados estavam prontos para pousar na lua?

Essa sensação de falta de brilho e energia na vida é percebida quando olho para dentro de mim e não encontro meus artifícios e artimanhas, o que tenho de maior e mais puro, que mantenho desde pequena e temo perder. É a esperança, o bem, o amor. A vontade de olhar para cima, de continuar respirando, de existir.

Nâo encontrar nada disso é desesperador. E vou me sentindo diminuir, sufocar, afogar, perder. Esvair e ceder. Desfalecer, alcançar as ruínas, chegar a ares insuportáveis de viver.
Mas passeio novamente, tento encontrar essa beleza por aí. Afinal, o que são todas as flores e folhas que coletei, os abraços e sorrisos que troquei? E todos os olhos que observei e o longe na estrada que percorrí?

Calma, lembra que no final do dia de ontem o céu, embora começasse a escurecer, tinha rastros, um grande traço vermelho. E como era belo! Portanto, se te faltar coragem, lembra do que já foi bom, resgasta essa velha força em você, de você para você. Ou por aí.

Parte de tudo isso é do estranhamento de não mais me lembrar como é não me sentir cansada. E de não me perder no meio de tantas realizações. Por que quem foi que disse que a felicidade é só boa? Bobeira. Passageira.

Caminho. Passo por debaixo das árvores, vejo as mesmas flores que roubei mais cedo. Silêncio, somente eu caminhando por ali. E sequer vejo pra onde essa estrada vai. Mas sigo, porque o importante é persistir, mesmo sem nada. Uma hora a estrada chega a algum lugar.

Lembro dos seus olhos, seu sono pela manhã, seu cheiro. Suas mão tocando as minhas, e o seu abraço que é meu aconchego. E o toque do seu beijo. Sorrio. Um pouco de luz me preenche. Ando mais um pouco, ando me equilibrando pela beirada da calçada, bobinha, mais leve.

Nessa semana, tudo o que eu mais queria era um dente de leão, pra pegar, assoprar, fazer voar para bem longe. Voar para longe com os pássaros. E quem sabe me levar. Ou ao menos fazer espalhar um pouco da esperança que guardei em mim pelo universo.

Não achei nenhum dente de leão. As flores ainda estão muito amarelas, ou os avisto de muito longe, de modo que não posso alcançá-los. Mais perto do meu destino, vejo novamente muitos, e sou incapaz de pegá-los.

O caminho que percorrí nessa estrada foi importante. Não posso me culpar por isso e nem esquecer, arrancando isso de mim. Aceitar. Aconteceu, passou. E tudo bem. Eu passei também, por várias coisas, momentos, pessoas, lugares. Travessias e passagens. Tudo passageiro. Pois bem, e o que não é?

Esse infinito é finito tanto quanto o finito infinito é. A estrada que não vejo o fim é uma passagem que leva a algum lugar, e passa. Não há nada que não passe.

Inclusive esse dia. É só mais um dia que passa, como uma semana que passa, um ano que passa, um milênio que passa. Como uma hora que passa, uma minuto que passa, um segundo que voa.

Eu quero passar nessa vida agora, pra voar bem alto sem temer um dia sequer.

Passou? Passou, já voei já por essa estrada que passa, passa, e só não passa mais que o que já passou. Porque a vida é no aqui e agora, e eu não tenho medo de sonhar. Cada vez mais forte. Longe desse pequeno espaço que o mundo nos fornece. Voando. Lá no alto. No universo.

Até pousar e tocar a lua.

E pass(e)ar novamente.

Lembrando sempre que na vida tudo passa e nada passa. Assim como a felicidade, bobalhona que é.
Tudo passa e nada passa. Assim como o amor, que simplesmente existe. Simplesmente é. Força maior.

E ao final do dia, estico o braço o máximo possível acima do mato, puxo um dente de leão. Assopro. Voa de uma vez. Fecho os olhos. Lágrimas.


Voa num sopro de um segundo. Tal qual a felicidade. Que passa e passa, passa tantas vezes que até marca e fica.  

sábado, 26 de agosto de 2017

Repercussões

Tem dias que você acorda super bem, feliz e disposta, ainda que com sono, e tudo parece que acontece para nos levar ao contrário disso. Nos sentimos super em sintonia com o dia, mas não é como ele se sente conosco. E assim, o que vai ocorrendo te leva a não saber lidar, a trazer burburinhos no peito. Confuso, estranho. Não é exatamente deixar de estar bem, é mais um não estar. Não estar consigo, por estar com tudo, menos com você mesmo.

Por falar em mim mesma, eu costumava dizer que queria ser para sempre criança. E a vida me deu muitas surpresas. Muitas mesmo. Boas e ruins. Acho que no fim, só me acostumei de ter que crescer. É. Foi. Eu também costumava dizer que não estava pronta para crescer, me sentir adulta. Surpresas novamente. É engraçado quando a gente para e vê que parece que tudo só aconteceu, quando na verdade a gente fez parte de tudo. E viveu. E tudo se transformou. E novamente, depois de tudo, parece que tudo bem.

Essa semana foi meu aniversário. E qual é o sentido de se desejar tantas coisas a alguém? Não há. No fim, tudo acontece. É só deixar e ver. O que posso dizer para mim mesma? Que pude sorrir, me sentir feliz, amada, confortada, apoiada. Todos os abraços, gestos e palavras. Me fizeram sentir amada. Muito carinho. Me deu forças e confiança para simplesmente seguir. Acompanhar isso aí que se chama de vida.

Conversando e tocando qualquer coisa no violão, na cabeça começam a ressurgir ideias descontroladamente. Ressurgem da tarde, caminhando pelo shopping. Dos últimos três dias. Tortura. Todos aqueles lugares, luzes, cheiros e comidas, e eu passando por isso, isso passando por mim, em forma de vulto. Falando e as palavras todas trocadas, ou simplesmente sem sentido. Escrevendo, e as palavras parecendo erradas. Eu esquecendo exatamente do que acabei de ouvir, ou dizer, ou de que lugar estou. Sorriso forçado. Estranhamentos. Sobrecarregou. Não dá mais. A cara fecha, a boca fecha. Até os sentidos paralisam. Quer fugir e permanecer. Não quer estar, mas tem que continuar, mesmo sem já sequer estar.

E todas aquelas pessoas falando cada vez mais, e alto e mais alto, rindo muito e muito alto, cujas vozes e sons parecem estar na minha cabeça, e não exatamente entrando pelos meus ouvidos. Todas aquelas pessoas andando, assim como eu, mas eu não conseguia. Não conseguia andar como que naturalmente, era como se puxasse meu corpo para o movimento, e os passos não eram calculados, e então eu esbarrava em pessoas ou precisava brecar bruscamente já muito em cima delas ou, ainda, eu parava muito antes de estar perto de alguém, no meio do caminho, e assim atrapalhava muita gente. Não conseguia procurar o que precisava. Sentia minha cabeça rodar. Meu mundo girar. Tontura. Precisei sentar em bancos várias vezes, para recuperar algum fôlego, para poder seguir.

Eu esperava, apesar de tudo, que fosse um momento relaxante. Passeando sozinha, em um lugar diferente, sem nada que pertence a minha rotina. No ônibus, tudo estava maravilhoso. O vento entrava pela janela e eu lia um livro. Calma, já havia feito grande parte do planejado para o dia. Equilíbrio. Mas meu limite parece ser tênue. Demasiado desgaste. E por um momento, as coisas se perdem, como se só não desse mais. Um dia, essa rápida sobrecarga por estimulação poderia deixar de existir. Mas não vai. Acho que faz mesmo parte de mim. De quem eu sou. Das coisas boas que eu tenho. Mas das ruins também.

Quando saí, sentí o vento tocar minha pele. Olhei para longe e, atrás das árvores, ví o sol do fim de tarde. Sua cor meio amarela, meio alaranjada, ao tocarem meus olhos, aos poucos foram aliviando todo o mal estar de não estar. Suportando. E foi assim que os pensamentos passaram a correr pela minha cabeça, quase na velocidade da luz. É a mesma sensação de acordar várias vezes assustada, com medo de perder a hora, se revirando na cama. Passam todos muito rápido, sem dar chance e vez ao anterior, ou ao próximo. Se perdem, se sobrepõem, estão todos aqui, e nenhum está aqui. E eu, como é que estou?

Ansiosa. As unhas roídas, a pele ao redor das unhas todas feridas. As memórias de criança também não deixam de surgir, juntamente a todos os pensamentos. Querendo entender porque estou assim, como foi que me tornei assim. Revisito não só as lembranças, mas também meus escritos. Cadernos ao lado. Fone de ouvido, música alta. O corpo lentamente se movimenta, apreciando a música. A caneta pousa rapidamente sobre o caderno. Seu diário, uma penseira. Muitas páginas. Reflexões. Repercussões de mim mesma.

Que é que posso dizer de mim? 

Que essa inconstância é a mesma, equilibradamente mais desequilibrada. Saí de um grande nada, angustiante, que envolvia um imenso vazio e envolvia toda essa imensidão de coisas, insuportável, com pensamentos suicidas e melancólicos mais constantes que toda essa inconstância. Sem saber quem eu era, se é que era alguém, se é que existia, sem ter a menor perspectiva ou crença de possibilidade de um futuro, me tornei isso que agora sou. 

Alguém que nada queria definir ou limitar, agora já sabe melhor o que há para fazer. Pode se conhecer, conversar, passear. Às vezes se tira até para dançar. Gosta de se sentir como se sente, se ver como se vê. E o mesmo para o mundo: nada melhor do que sentar no velho banco sábio e observar. Observar as pessoas que vem de todas as direções. E o céu, as árvores, os pássaros. Observa até mesmo a lua, incrível e infinitamente cada vez mais bela. Disseram que não é possível tocá-la, mas quem é que sabe?

E por gostar disso tudo, foi querendo até demais. Fazer, observar, pensar, sentir. Tudo em demasia. Buscando o intenso. Demais. Intensamente. Sendo e estando no mundo, e sendo dominada pela vontade de ser e estar nele. Devorada por todas as sensações e percepções. Sabotagem.

Para quem estava no abismo e queria pular da beira do precipício, voltar atrás e sair correndo, para o oposto, ilimitadamente, o risco há de ser lançado também. Lançado com as redes que me puxou de todo o vazio que eu era, e pescou todo o bem e amor com que me preenchí. Puxou de mim todo esse bem e todo esse amor, impulsionado para o mundo. E foi assim que dentro de mim se tornou tão universo quanto o universo. E se tornou novamente abismo, perigo.

Ou você se esqueceu que há males no vazio, mas há males também no abundante?

E essa é a psicodelia do meu dia a dia. A minha energia frutífera paralela a minha estafa lamentável.
Como é que faz pra superar a dicotomia que é meu ser?

Escrevendo, vou me acalmando. Todo o sentimento de loucura se esvai. Desaparece, desfalece. As ideias se perdem. O texto se perde. O sentido se perde. Ainda sinto tudo rodar. Zumbidos no ouvido. Olhos que não suportam luz. Mas o oceano do meu peito, ainda meio atormentado, já parece permitir que o barco levante as âncoras e ice as velas. Para a viagem. Do mundo para as profundezas do meu ser, o que é real? O que já não é real? Algo assim.

Alívio. Leve novamente. Assim é bom.
O sol bate. Estou comigo.
A viagem vale a pena.
A vida é incrível.

E logo cai a noite.

Tem problemas, naturalmente.
Mas jamais haverá perfeição perfeita. É preciso aceitar.

Voa, voa.

Dentro desse quarto. Deita, repousa a cabeça no travesseiro. A travessia é longa. É preciso descanso, para não ser levada difusamente, pela insensatez, para a exaustão.

Dou risada de tudo. Melhor. Fecho os olhos, tudo ainda roda. Tudo fica branco. O barco navega. Pelo universo. Para o universo.

sábado, 19 de agosto de 2017

Resiliência

E lá estava eu. Cantando, com meu violão. Em um palco. Pequeno, coisa boba. Poucas pessoas. E a oportunidade de se sentir espalhando pelo mundo. Transbordando. Olho para o nada, sinto o sol entrando, bem no meio de tudo. E posso olhar para as árvores, pelas janelas. E assim eu evito olhares, e mais uma vez me volto para dentro de mim.

E eu me perguntava novamente, porque estava agindo assim. Porque estava vivendo novamente assim. Não que houvesse descoberto naquele momento, na verdade já sabia há muito tempo. Mas a verdade era crua demais para ser dita. Para mim mesma. 

A verdade? Me fechei dentro de mim.
Se quis ou não quis, precisei ou não precisei, não quero ser passarinho preso em uma gaiola, quero poder voar e cantar livre. Não quero morrer na gaiola, presa dentro de mim. É cantando, voando e vendo o mundo que eu preciso seguir.

Mas quente ou frio, cheio ou lotado, eu me guardei aqui. Bem quietinha. Sem vontade de olhar para nada nem ninguém. Apenas estando comigo mesma.
Com o tempo, os olhos pesaram. E fui ouvindo os passos de todos, inclusive o meu. Fui me perturbando, estando com pessoas sem estar com ninguém. Nem mesmo comigo. 
E a solidão, aos poucos, foi batendo. Solidão no meio de um monte de gente. Solidão de quem não se importaria nada de estar só, consigo mesma. Mas solidão de quem tem medo de estar só.

E foi assim que fui vendo pessoas indo para uma direção, enquanto as placas e setas indicavam outra. E eu achei melhor seguir as placas.

Certa ou não, a seta indicou a minha própria confusão. E eu quis me aproximar. Me aproximar sem tocar, sem entrar contato. Apenas sentar ao lado. Indiferentemente. Observando, rindo. Notando a imperfeição que eu me tornei.

Imperfeição cheia de marcas, ainda que a mesma pequena garota de sempre. Que se sentava na beira da cama, e ficava lendo e cantando. A mesma garota que quando o metrô entrava no túnel escuro ouvia aquele barulho quase que de modo ensurdecedor, e se imaginava indo para o espaço, para um mundo totalmente diferente do que vive. A garota que ainda hoje não sabe diferenciar flores de plástico das naturais porque, no fim, em ambas há naturalidade, e modificações.

E sentada, comigo mesma, só deixo o tempo passar. O tempo que tem um tempo diferente daquele que dizem que o tempo é. Esse é meu novo vício: o passar do tempo.
Não porque não importa onde eu esteja e quanto tempo passe, mas porque no lugar que eu estou, excessivamente me protegendo e evitando todo o resto, não faz tanta diferença. A distinção mesmo vem do bom e do ruim. E meu peito está repleto de flores, e espirais.

Folheio as folhas brancas do caderno. Repetidas vezes. Por um longo tempo. Vejo que ainda há muito para se viver.
E como vou fazer? Sem mim?
Ou melhor, estou comigo, e até demais.
Preciso me libertar. Sair daqui.
Preciso encarar tudo o que a vida preparou para mim. E ela preparou, a minha existência.

Onde foi que pousei meu helicóptero quando me tranquei nessa ilha?
Preciso dele, para voar para longe, para fora de mim. Porque, e ainda bem, o mundo é maior que eu, e eu quero fazer parte dele. Eu quero agir. Quero transformar. Quero existir. Quero participar.
Vou voar bem alto, mais alto que os pássaros, passeando sobre as nuvens, e planejando tudo.
Olhando para longe, contemplando a vida e tudo o mais, eu solto meu riso, e com ele vou surgindo.

Se fosse fácil....
O peito dói. As tarefas despencam. Me sinto só. Desmorono. Não consigo dormir.
Mas sigo. Firme. Só vou. Pra onde precisar ir. Para quem precisar de mim. Pro que eu precisar fazer. Com quem eu sou.
Quais são os meus limites? Eu os conheço? Eu os respeito? Ou apenas sigo cegamente? Cuido de mim?
Resiliência. É sempre meu próximo passo. Aguento firme.

O meu limite sou eu mesma. O que sei de mim, o quanto posso suportar de mim, e o quanto me prendo. Dessa vez, o meu silêncio não foi de paz. Eu pude ouvir meus gritos de silêncio, juntamente com as lembranças das noites anteriores, e todos os pensamentos que saíam em fuga da minha cabeça. E eu deitada olhando para o teto. Calma, mas passivamente. Sem conseguir lutar contra essa força minha mesma que se apropriou de mim. Uma doença autoimune.

E ouvindo uma música, escrevendo tudo isso aqui, posso sentir as luzes mais forte, o corpo se arrepiar por inteiro. Não posso dizer que é o meu retorno, pois os olhos ainda pesam, o olho ainda dói, a ansiedade me percorre toda. Mas também não é o meu fim. É só cansaço, e medo do todo, das tantas coisas. Vou ficar bem.

Calma, digo para mim mesma. Respira. Não precisa chorar. Não mais uma vez. Vai ficar tudo bem, você vai ver. Tudo isso passa, menos você. Você fica. Não tenha medo, não se esconda dentro de você. Venha, se sente neste banco. Olhe ao seu redor, existe mais. E ainda bem!
Pode chorar, não precisa ter vergonha, se estão olhando, se vão saber, ou se você está desamparada. Você também não está. Há tanto amor no mundo, e em você. Deixa as lágrimas escorrerem, com tudo o que você guardou aí dentro.... Inclusive você.

Queria saber se teria sido mais fácil se eu tivesse feito diferente, se eu fosse diferente. Sem ter me fechado, teria sido menos duro do que foi, ou ao menos pareceu ser? Distorcí tudo para o muito pior? Poderia ter aproveitado mais? Mais intensamente e verdadeiramente? Mais do que viví, aqui, dentro de mim? Ou foi assim e é tudo que importa?

Não queria ter acordado em tantas noites, sonhando, sufocada, desesperada, lembrando, pensando, sentindo, ansiosa, chorando. Não queria ter pensado tanto em tudo que tem para fazer, ou para falar. Só queria que o resultado final fosse tão bom quanto foi. Sem o nervoso e desgaste.

A verdade, mesmo, é que esse frio me tornou nostálgica demais. E negativa demais. Que isso passe e voe rápido e pra bem longe, como os dentes de leão.

Uma tarde no parque fez com o grande amor da minha vida refez a minha paz. Junto com os livros que lí, os filmes que assistí, as conversas que ouví. Com os abraços e sorrisos que troquei.
Eu sou mesmo assim. Meio trancada, meio fechada, e eu gosto de ser assim. Só não completamente.

Pelo menos uma vez no dia, eu gosto de sair e olhar para o céu. Desde que te perdí, mãe, eu olho ainda mais para o céu e para o nada. E como aprendí ouvindo em uma conversa de almoço nessa semana, eu não devo focar na morte, mas nas coisas boas que fez a vida enquanto a vida foi. Mais lágrimas. E o coração se acalma, límpido.

O céu se assemelha à minha alma, e por isso eu o contemplo. Às vezes branco, vazio. Melancólico, chuvoso. Às vezes alaranjado e roxeado. Sinuoso. E tudo termina em céu azul, repleto, completo, intenso, vivo, com ou sem nuvens brancas.

Fecho os olhos, e me imagino rodando, rodando e rodando. Até ficar tonta e cair. Caio sorrindo, feliz, e levanto. Sigo a vida, parando e procurando em toda esquina uma indicação de caminho certo e uma flor para agradecer. E sento, mais uma vez, para olhar para o nada, para trocar umas poucas palavras com alguém, lembrar do que tenho para fazer e do que me faz bem, e simplesmente seguir. Aprendendo e crescendo.
E quem diria, que do momento que poderia chamar de pior, eu sorriria para a vida e veria o encanto da dor, a esperança do amor e a beleza da paz?