terça-feira, 21 de novembro de 2017

Mais sobre dentes de leão (ou quem sabe de mim mesma)

Dia desses, minha vó me contou que quando eu era pequena, no caminho para a escola, eu gostava de pegar flores e levar para as professoras. Eu colhia a Taraxacum, a florzinha amarela que dá em todo lugar, que ao final se torna o famoso dente de leão, que a gente assopra, e voa, dando mais flores por aì, às vezes pra bem longe. 

Pensando bem, humanos são como dentes de leão. Empesteiam por todo lugar, são florzinhas, que se fazem jardim na vida um do outro, e podem ser soprados e voar, às vezes pra bem longe, às vezes mais de perto. Mas são belos, e sempre trazem novas florzinhas.

E, é claro, dentes de leão são diferentes entre si. Alguns voam mais rápido, outros sequer voam ao serem soprados. Alguns se espalham, outro caem nos pés, no chão.

Alguns, a gente só avista de longe. Outros, a gente quer se aproximar, quem sabe mesmo soprar e fazer voar. Aquela sensação boa de se ter.

E pensando mais, eu também sou um dente de leão? Pois é, de alguma forma não estou de fora de nada disso.

Engraçado mesmo, é que às vezes a gente mesmo se faz soprar e voar, pra qualquer direção, em disparada, dispersa. Deixa qualquer ventinho fazer a gente levantar voo, ou a chuva nos molhar até não dar mais. Quando a gente se dá conta, vê que perdeu o controle, que não dá pra parar, mas quer parar e não sabe o que fazer.

Buscar calmaria entre outros dentes de leão? Fugir de todos eles? Ceder e deixar murchar? Manter-se ali, mesmo sem aguentar? Ir descansar? Parar ali mesmo?

Ultimamente, eu bem tenho preferido o meu cantinho. Mais reservada, aquele dente de leão sozinho, longe, tentando me proteger. De mim, de todo o resto. Meio em vão, meio que melhor. Na verdade, buscando algum tipo de cuidado.

Na verdade, eu gosto de chocolate meio amargo, e procuro sempre um meio termo pras coisas. A intensidade costuma me ganhar, mas-meio-tento-que.

Aquela coisa confusa, que passa sem passar, tipo um sol de fim de tarde, também chuvosa, com um arco iris para os que param para refletir. 

Cansada, esgotada, eu encosto a cabeça no banco do onibus, parado no transito, e me deixo dormir. Diferentes músicas que tocam em minha mente, o tempo inteiro, não me deixam. E depois, eu sei que teria que enfrentar a chuva lá fora. Mas com calma, sem pressa, devagar. Buscando desacelerar. 

Abro o guarda chuva, embora nessa abertura, mesmo que sendo pra me proteger, eu acabe me molhando. E vou. No fim, saio toda molhada. É uma coisa bem do que é a vida mesmo. Não importa o quanto se tente fugir, ou acabar encarando demais, a vida está simplesmente lá. Às vezes para ser vivida intensamente, com um milhão de tarefas ou pessoas. Às vezes mais calma, embora também intensa, para se deitar na grama e olhar o topo das árvores, ou sentar em um banco, em silêncio, ler um bom livro, cantar músicas melodiosas. 

Eu prefiro uma mistura de tudo. E por isso, às vezes sinto que... Nada. Como os dentes de leão, que em um momento são singulares e, noutro segundo, com um ligeiro sopro, se torna várias partes soltas. 

É, e a chuva me molhou. Protegí a cabeça, mas os pés se molharam. E o que seria da cabeça sem os pés? Dizem que a gente sai na chuva pra se molhar, mas nem sempre, nem mesmo eu que não gosto de guarda chuva penso isso. Às vezes a gente até tenta não se molhar muito, mas vai molhar, ou não. E pode até ser bom, aquela história de lavar tudo, é verdade, embora a gente possa vir a preferir estar sentado na cama, olhando pela janela a chuva cair lá fora. 

Em casa, sem energia, sem luz. Eu queria desacelerar, mas eu também tinha muito a fazer. No que velas podem me ajudar, se já me desfiz mais do que cera derretida? 

Quando eu era pequena, eu tinha muito medo do escuro. Tinha medo de não ver, medo do que não poderia ver, medo de estar só. Imagino os dentes de leão que tem medo de voar. E agora, nesse estado de sei lá o que, eu ainda encontro isso em mim. Mas eu também penso no quanto estar em um quarto escuro, livre de qualquer estímulo, pode ser maravilhoso, quando eu só preciso dessaturar, quando há em mim mais do mundo do que de mim, um novelo embolado que só, mais do que eu possa aguentar.

E de novo, eu me pergunto: por que vou sem freio? Por que me levo até o limite? Temos que encarar tudo? Viver assim?

Mais calma, eu só penso no dente de leão que sou, em um campo verde aberto, que espera ser apanhado pelo sopro mais leve, que faça voar como que de braços abertos, sentindo o ar, e todo espaço, com um sorriso singelo e terno. Não sempre assim, às vezes criancinhas esperançosas podem querer colher, também sorridentes e singelas. Mas o importante é lembrar que é possível voar e semear mais longe, um pouco de amor e bondade (ou quem sabe esperança) por aí, e um pouco de calmaria e completude aqui.

Só quem sabe num próximo voo eu me deixe um lembrete, uma carta, um e-mail, seja lá o que for, desde que diga: cuide-se; para lembrar de não me esquecer.

domingo, 19 de novembro de 2017

Julio
Era um bem-te-vi
Bem sensivel

Todo curioso
Passeava
Por todo o corredor

Saltitava
Aqui e acolá
Até subia nos bancos

Olhava
Pra todos
Por todos

Com um interesse todo desinteressado

O que Julio
Nao sabia
É que quando o vi

Bem-te-vi.

sábado, 11 de novembro de 2017

A vida
Nem sempre pode ser suportada
Impossível ser vivida

Uma sensação de não caber em mim
Misturada com pleno vazio
É o que hoje sou

Não estranhe se caminho devagar
Se passo em silêncio
Se evito olhares
Se estou ausente:

Também estou assim pra mim.

Turbulência
Pane no meu sistema
Me sinto correndo dentro de mim
Tentando fugir
Desse lugar que estou

E no meio de todo o silêncio
Posso ouvir meus gritos
Que fazem eco no meu peito
E na minha mente

Tente ter cuidado comigo
Porque eu mesma não tenho

Também sou sensível
Também caio
Também gosto de ser ouvida

Se sorrio o tempo inteiro
É porque sou assim

Mas não significa que estou sempre bem
Que sou forte
Que não posso desmoronar

E por isso agora estou em silêncio
Olhando para o longe
E me perdendo aqui dentro

Não quero ser notada
Mas existo também
Se não for assim
Eu mesma ponho um fim pra mim

Afinal, dentes de leão às vezes gostam de simplesmente estar
Antes de voarem num único sopro

Talvez
Não seja a vida
A questão
Pode ser
A compreensão

Qual é a intenção de toda a intensidade?
O correto e o bem também demandam demais

E pra que
Se pra ninguém importa?

E se no fim
Não estou em lugar algum?

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Sobre crises existenciais e outros envolvimentos

O mundo não é o conto de fadas que sonhei, vivo sonhando, achando que vivo ou que posso viver. Mais uma das duras afirmações que digo para mim mesma, enquanto vou cambaleando e desmoronando, segurando as lágrimas. Remoendo eventos e preocupada em produzir, resolver tarefas, dar o meu melhor e estar presente e ajudando as pessoas, eu me levo ao limite. 

Chegar ao limite, que eu me refiro mais a uma estafa mental e emocional, do que física, embora ambas estejam presentes, é como as cenas daqueles desenhos, em que personagens entravam em uma canoa, em um pequeno barco e desciam o rio, mas não esperavam que ao final dele houvesse uma queda d'agua. É como sair correndo e cair de um precipício. É estar na janela do ônibus e ver o espaço entre ele e o caminhão se fechando e deixando de existir, como se fossem bater. É como atravessar uma rua correndo e o carro frear com você parado bem na frente dele, num dia de chuva, com todas as luzes e buzinas da noite. É como nadar, mas por um momento se afogar, engolir água, perder a respiração, ser incapaz de abrir os olhos. É como simplesmente não conseguir subir uma rua, para mais uma aula, com o horário apertado e corrido, sentindo as pernas cedendo, as lágrimas surgindo nos olhos, a respiração ofegante e o coração angustiado, como se fosse sofrer um apagão, e sendo incapaz de me sentir viva, existindo de verdade. Não encontrar paz dentro de si, não encontrar a si mesmo, é pior do que encontrar fantasmas ou encarar monstros, é não enxergar uma luz no fim do túnel, um caminho para seguir, porque não há sequer estrada.

Há um inferno angustiante dentro de mim. Deixo a música tocando e vejo, fora, o céu mais magnífico. Deito a cabeça no banco, o ônibus sobe a estrada e as árvores vão passando. Fecho os olhos, e o sol vai entrando. Lembro das luzes da antiga casa, que fui apagando uma a uma, e fui me deixando no escuro. Parecia o anoitecer que trazia o vazio, para dele criar novas esperanças. Mas na verdade, era só eu levando meu emocional mais e mais ao limite. Como agora, que tenho sentido uma enorme vertigem. Tontura, tudo roda, a visão quer apagar. E giro, giro, em torno de mim mesma. De quem?

Às vezes, a frieza e insensibilidade que vejo ao meu redor, nas pessoas durante o dia a dia, nas coisas, nas tarefas a serem realizadas que não trazem sentido ou motivação, no modo de viver do dia a dia. Por que é que tudo precisa ser tão rápido sem haver tempo para parar e processar? E de que adianta ser tanta coisa e em tanto tempo e tão veloz se não marca, simplesmente passa? Onde está a intensidade das coisas? Onde está o simples, o belo, o puro, o natural?
Bem, costuma estar aqui, dentro de mim. 
Pois é, eu sei que deveria ser suficiente, para manter, mas eu convivo num mundo, com uma humanidade. Há relações, compartilhamentos. Há influências, marcas, interferências. 

E assim, eu me encontro em uma profunda solidão. No meio de um monte de gente, na ausência do meu eu, que já não consegue mais gritar, e meu corpo grita de extremidade a extremidade, desesperadamente, procurando-o. Não é exatamente uma solidão de sentir só, mas de se sentir vazio, ausente, fraco, fragilizado, vulnerável, desamparado. Porque às vezes, não é que falta um ombro amigo, mas falta um significado. 
Num próximo encontro de corredor ou de ônibus, vão me dizer que posso seguir e construir vivendo todo o sentido que eu quiser. Mas eu posso mesmo? Na próxima sala que eu entrar, vão me lembrar de algo que precisa ser feito, vão me dar uma nova tarefa, e a minha lista vai aumentando, sem que eu seja capaz de fazê-la com qualidade: vou seguindo, completamente multitarefa, desfocada, correndo pra terminar no prazo. E vão dizer: você faz muita coisa, você sempre diz estar sobrecarregada, você dá conta de tudo. E olha só, eu havia seguido antes toda a ideia de "siga a vida sem medo e realize mais". 

Respeito? Autocuidado? Passo a maior parte do tempo pensando, em coisas e pessoas, e a outra parte do tempo... Também. E eu nunca encontro uma forma de estar bem encontrada, de encontrar um nivelamento entre o fora e o dentro, entre o que sou e o mundo.
Tempo. Preciso de mais tempo. Para processar, entender tudo em cada detalhe, pra entender tudo de um jeito mais complexo e completo. Mas se você atrasar, esperar, diminuir o passo... O relógio corre. O trem não espera. Ou melhor, o ônibus passa e você o assiste indo embora pela passarela. O ônibus é a vida, e a passageira tem tanto medo e preocupação de não perder o próximo ônibus que ela esquece as bagagens, esquece as passagens. Esquece a própria passageira. E paralisa. Ciclo vicioso de um ônibus que nem é circular.

Segundo um e-mail que recebí, estou em um local chamado "área de sombra", cujas árvores e prédios altos interferem na chegada do sinal da rede. Ah, tá, agora entendí. Tem um monte de coisas que me impedem de enxergar o sentido, o que realmente importa ou sei lá, são simplesmente barreiras que não me permitem ser quem eu sou. Quem as trouxe, se o universo, os outros, eu mesma, tanto faz. 
Me guardei em uma caixinha, fechada e escura, para ninguém ver nem ouvir. Nem mesmo eu. Mas eu sei, eu acredito, que é uma caixinha daquelas em que se dá corda, se levanta a tampa e pronto, a bailarina dança enquanto a música toca. 

E logo eu que sempre gostei de um paradoxo, não ia perder a vez. Foi caminhando pelo mato, após encontrar algo como um jardim de dentes de leão, com que há tanto tempo sonho, que eu pensei sobre envolvimento, palavra que explica bem mais coisas que a dicotomia superficial e profundo. Às vezes, a gente se envolve em tantas coisas, tarefas e preocupações, que a gente esquece do crucial, que é se envolver na gente e com a gente mesmo. Parece até uma grande bobeira, mas eu não sei quando foi que me abracei, me apeguei e me defendí, não me deixei levar. Quando foi que me envolví comigo mesma? Na primeira chance que surge, eu me deixo levar pelo que têm a dizer. Eu me desprezo, me ignoro, me esqueço, me apago. Me risco do desenho da vida.
Estou em um local chamado área de sombra para mim mesma. Sempre me fechei, para os outros e para mim. Na caixinha, me escondí. Porque, não sei. Talvez medo da vida, de encontrar demais a beleza dela, mas de me perder do simples, me tornando individualista e voltada demais para mim, esquecendo o que é altruísmo e a contemplação da vida.

Acho que eu só preciso de sossego. Paz, quietude, calma, tranquilidade, repouso. E aconchego: me aninhar em mim, ficar bem, fazer do meu corpo lar para meu eu, ao invés de uma velha caixa. É chegar a outro limite, que não é risco, é não é aprisionamento; é compreensão, definição. Elucidação, expressão.
Vou debilitada, um pouco melhor. Preferindo ir um pouco mais fechada e só, mas muito mais presente e plenamente. Não vou evitando as multidões, mas vou tentando compreendê-las melhor. E pensar demais, nunca será demais para mim. É como sentir sem saber colocar em palavras. Faz parte de mim. Afinal, a gente sempre fica um pouco na área de sombra, o sol ou a chuva às vezes são meio fortes e sentar embaixo da árvore é sempre bom.
Repito interruptamente para ir com calma, sem me exceder. A gente pode não ter tempo, porque ele passa rápido demais, mas a gente tem que ir tempo ao tempo. É preciso, no mínimo, se recompor, encontrar forças, simplesmente ficar bem. "E tá tudo bem", repassou a amiga a sabedoria que aprendeu. Tá tudo bem. Mesmo que venha a próxima onda. Eu só não quero ser arrastada, porque não sei se conseguiria respirar e nadar. Simplesmente poderia me afogar e afundar. E aí, não tá tudo bem. A bailarina quer sair da caixa e dançar. A passageira arrumou as malas para entrar no ônibus e viajar. E a vida vai, vai. Respirando. 

Respira mesmo. É a crise existencial que me envolve para me lembrar que eu existo sim, e posso me acalmar, porque só se desequilibra quem se envolve e se empenha na caminhada pela corda bamba da existência do viver. E tá tudo bem.
Cada passo
Descompasso
Sinto meu peito aberto e exposto
A todo esse frio.

Gelo
Vazio
Insensivel
Os olhos pesam: não vou suportar.

Estou no limite
A vida perdeu o sentido
Só há desanimo
E a perda de mim mesma.

Me sinto só.
A caminhada parece cada vez maior
Preciso chegar ao destino final
Preciso chegar ao meu fim.

Não suporto a dor
Nem o desprezo do mundo
Sobre as minhas emoções

Perdi a vida
Da minha própria vida
Não há energia
Não há sentido

Sinto meus pés cederem
Junto ao peso dos olhos
Que se transformam
Em lagrimas:

Vou cair.

Agora
Estou em algum lugar
Que não é meu lugar
Não é lugar nenhum

Não é nessa sala
Não é no mundo
Não é no universo
Não é dentro de mim.

Me perdi
E não estou aqui
Existindo
Perdi minha própria existência.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Mudanças

Caminho na beirada da calçada, me equilibrando. Me imagino caminhando nos trilhos e o trem simplesmente vindo e passando sobre tudo o que sou.

Não consigo mais assistir aos filmes, porque eles são sempre a mesma coisa, uma mesma coisa que eu já sei, e não quero saber. Talvez como a história da minha vida.

Eu vou mudar de casa, de endereço. de bairro, de cidade. E o quanto tudo vai mudar? Toda a minha história continua a mesma, intacta. E de vez em quando, eu posso guardá-la em caixas e sacos, e levá-la para outros ares.

Os pés, já nem sinto mais. E a minha bagagem emocional é muito maior do que tudo o que tenho para carregar.
Essa marcação espacial tem mexido com tudo. E eu, sou um guarda chuva molhado, num temporal, cujas percepções e sensações são como as gotas da chuva de um grande temporal, que pelo guarda chuva vão pingando e pingando. Mas o temporal pode, às vezes, ser devastador, ainda mais em uma subida, em que a água vai contra você, e você pode se molhar ainda mais.

Dizem que a chuva, quando molha, é pra lavar tudo. E eu espero mesmo que depois fique aquele tempinho bom. Mas acontece que as poças de água também ficam, e elas demoram pra sumir, o que me preocupa. Toda essa desregulação emocional cansa demais. E eu só quero paz. Um silencinho interno e externo bem bom.

No momento, não o encontro. Só uma grande bagunça. Uma grande confusão. Mas eu espero encontrar, numa próxima esquina, ou no próximo abraço seu e no seu lindo par de olhos quando te ver de novo, todo conforto e paz que tenho em algum lugar dentro de mim.

Inquietações. Toda a segurança, todo o comum ficando mais longe. Mudanças pra algumas coisas boas, mas desconhecidas. Difícil. As histórias ficam, bem como suas marcas, mas quando foi que eu disse estar pronta pra me distanciar ainda mais desse lugar onde cresci? Desse lugar em que compartilhei tantos momentos que guardo com a pessoa mais importante da minha vida?

É, mãe, você se foi, e a cada ano vou tendo que me desprender. Mas já guardei, mais uma vez, pra levar, um monte de coisas que me lembrem você. Não só aquela blusinha preta surrada sua que eu uso quase todos os dias, mas também o frasco do seu perfume, o saco das suas cinzas que joguei no mar, as suas fotos mais bonitas, e histórias.... Sem saber que tenho que aceitar, que não vou perder o que já perdí, mas que não perdí porque vou sempre amar e ter comigo.

Entrou um cisco no meu olho. E esse vai demorar sair, e correm lágrimas e mais lágrimas, mais do que a água da chuva corre.

Fecho os olhos e me imagino em seus braços, meu amor. As coisas às vezes são difíceis, mas a gente vai junto, de mãos dadas, em silêncio, adaptando tudo. Não há distancia que supere nosso amor. Eu acredito, e fim. E vamos bem juntinhos, seja como for.

Na estação Liberdade, muitos e muitos e muitos pássaros voam. Que será que isso quer dizer?
Não sei exatamente, mas às vezes eu ando e busco mexer os braços como se pudesse levantar vôo. Vai que acontece. Mas a liberdade é tão traçoeirinha quanto a felicidade, e é preciso estar atento para os poucos segundos em que elas vão passar pela gente.

Eu já nem sei mais, se toda essa confusão sou eu, se vem de fora, ou se dá na mesma. É tudo muito rápido, não sou capaz de acompanhar, e bum. Assim como esse texto muda de direção, dispersa e associa, sem saber pra onde vai, se é que tinha planos de chegar a algum lugar.

Pra falar a verdade, esses últimos dias foram mais difíceis. Muita ansiedade e tristeza, tudo misturado, num bolo só, com pequenas alegrias e novas esperanças. Mas eu me senti muito só, e simplesmente incapaz de me achar boa o suficiente e achar as coisas boas em qualquer medida.
O choro ia explodindo, e eu só não queria existir. Mas essa não é uma opção, nunca é.

Correta ou imaturamente, queria sumir. Quem sabe fugir para o nada? Para bem longe de toda esta cultura do provisório? É, mas não é uma opção. Nunca é. Será? Eu também não sei.

Eu só me sinto dando voltas até parar e sentir que continuo rodando. E tudo vai girando pra mim, ainda que tudo esteja no mesmo lugar. Ou não.

Mas vou, pensando no equilíbrio como a melhor solução.

Os cômodos vão ficando vazios e repletos de eco. Bem como dentro de mim, que as mesmas questões, pensamentos, emoções e conversas vão acontecendo, repetidamente.

E lá longe, numa caixinha bem pequenininha, que poderia ser esquecida na mudança, uma voz ecoa: não tenho medo de morrer, tenho medo mesmo é de viver.

E é.

Desde garotinha eu tive esse medo, e por isso me trancava sozinha e quietinha, apenas escrevendo todos os meus devaneios. Com o passar do tempo, a gente vai tendo que sair, e o lagarto vira borboleta (mais ou menos isso né?) e todas essas coisas. Mas quem é que disse que a gente quis ou aprendeu a lidar? Aconteceu, aconteceu. E agora vou sendo ser humano mais em crise que o mundo, embora vá girando no mesmo padrão.

Quem sabe esse medo não pudesse cessar aos poucos se eu fosse com você?
E quem sabe toda essa chuva não se transformasse numa lindo espetáculo de chuva de folhas?

Eu não sei. Cansada, vou simplesmente dormir. E vou sempre seguindo assim, sem nunca saber lidar...
E quem sabe uma mudança não surja e torne a vida um jardim ainda mais vívido, após tantos desafios, inseguranças e adaptações?

(Perdoem a confusão, tudo isso foi uma multidão de coisas, uma imensidão que acontece aqui, em mim.)

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A primavera chegou


Era dia, e eu só decidí ir até a natureza. Com o sol que nasce, indo e vindo, alternando com o vento gostoso que bate na nuca. E todas as árvores, flores e insetos que fazem seu movimento ali. O que fiz foi me juntar a tudo isso, só pra encontrar um cantinho de paz no meu peito também.

Se eu pudesse, eu seria um pássaro. Cantor, e que voa o mais longe que pode. 

Mas eu não sou, e talvez nem nunca venha a ser.

E foi assim, que eu fiquei admirando as borboletas que voavam, tão faceiras, por ali.
Então, pequenas esperanças pousaram bem perto de mim. Em forma de borboleta. Uma borboleta muito leve, que voava muito, e muito rápido. E que decidiu pousar em mim. Várias vezes. 

Será que eu poderia ser uma borboleta? Afinal, eu ainda assim poderia voar.

A essa borboleta, que se tornou uma amiga especial no dia em que decidí estudar na natureza, falta uma parte da asa. Ela perdeu em algum momento, de alguma forma. E eu disse que ela estava ferida. Estava mesmo?

Ela, eu não sei. Mas eu estou. Ferida por mim mesma. Que muitas vezes, simplesmente não respeito quem sou e até onde posso, devo, quero ou preciso ir.
E o corpo, psicossomatiza. Ele se destrói, como eu costumo fazer com todo o bem que tenho em mim. Autoimune.

Remédio. Acordar e tomar. Seguir.
Quem sabe com mais energia, com mais vida, mais alegre?

Na semana anterior, eu caminhava feliz, sorrindo e cantando, pegando flores e admirando o que quer que fosse pequeno e simples. Onde posso encontrar o belo. E a minha grande emoção era, na verdade, por estar viva. Ter sobrevivido. Chegado até aqui. Não ter desistido. Persistido. Exatamente há um ano atrás, eu me sentia totalmente sem saída e sufocada por tudo e todos ao meu redor. E não suportando, chorando, e passando pelos mesmos lugares, eu tinha pensamentos e desejos seguidos de como dar um fim nisso tudo. Que sou eu mesma. Que estou aqui.

Na volta dessa caminhada, eu olhei acima do telhado do corredor, e admirei as árvores que só se pode ver olhando para bem alto. Se eu pudesse, seria um pássaro (ou quem sabe uma borboleta?) só para poder ver esse espetáculo bem de perto. Para olhar as coisas mais de alto. Poder ser pequena, mas contemplar a imensidão das coisas. 

E é nesse mesmo corredor que está o banco sábio. Em que acabo gastando muitas horas do meu dia. Vendo passar tantas coisas, tanta gente, tantas pessoas. E eu, quando é que vou ter minha chance de passar?

Esse incômodo que cresce, que vem em forma de vazio, que angustia é disso. Necessidade de fazer algo que faça a diferença. Já que existo, o que é que eu posso fazer?

É uma alegria muito grande, ver as realizações, se sentir útil, colher as coisas boas. 

Por isso, eu roubei uma flor de primavera seca e uma que acabou de cair. 
Porque algumas coisas precisam secar para outras ainda melhores poderem florescer.

Ainda bem que a primavera chegou, pra florir não só o mundo, mas também o que há dentro de nós, e deixar irradiar as coisas boas que a gente esconde dos outros, e da gente mesmo. 
E quem sabe ela também não faça o favor de preencher com flores, das mais coloridas e alegres, todo o espaço que a ansiedade costuma encontrar e me dominar? Seria ótimo, e eu não precisaria, no caminho, sozinha, parar para eu mesma me abraçar.

Quero mais é fazer em mim um jardim de dentes de leão. E poder passear, sorrindo e achando graça na vida, muitas e muitas vezes ao dia.

Sabe o que é toda essa bobeira de insegurança? É o que já não cabe mais em mim. 
Por que é que sou assim? Pra que tanto medo? 
Encara a vida, faz dela sua também, uma parte sua, que já deveria ser, já que está aqui.
Não precisa evitar, fugir, chorar. Fica aqui. Pode ser quietinha, na sua. Mas fica.

É, eu sei. Eu aprendí a ficar. Precisei de uns anos pra me convencerem e me convencer, mas eu entendí partir cedo seria pouco, pra quem gosta de sentir demais. E eu fiquei. To ficando. Bem. Dou um sorriso pra quem me vê. Um sorriso pra vida. 

Bom mesmo é olhar pela janela. Tudo se move. Eu me movo. Uns chamam de paralaxe. Eu, de viver. E eu vejo o dia se transformando em noite. Uma noite danada de tranquila. Um cansaçozinho de um dia cheio, mas bonito. Floriu, floriu. E a lua bem sob a minha cabeça. Logo eu, toda meio lunática. 

Mas eu também gosto do sol. Que surge e vai embora tão grande, tão lindo, tão brilhante, mas escondido. Como é que pode, essa estrela, iluminar todo um mundo, mas se esconder, ficar tão na dele, e tudo bem? Talvez seja só isso... Ficar aqui, quietinha, fazer umas coisinhas boas por aí e tudo bem. 

Perto da minha casa, limparam um terreno. Nele, tinha muita sujeira e lixo. Mas tinha também muitas flores, folhas e dentes de leão. Quem sabe a gente não precise dar um fim em tudo, mas procurar ver o que há de melhor e cultivar?

E assim eu encontrei a minha missão: inspirar, seja como for. Ser luz, propagar amor. Gerar felicidade.

Ainda bem que a primavera chegou. É tempo de primavera, pro reflorescimento acontecer. De onde a gente vive, das pessoas próximas. Ou pelo menos da gente mesmo. Fazer florescer fora, e principalmente aqui dentro. Que floresça sempre aqui dentro, e faça transbordar até o mundo inteiro fora contagiar e florescer também. Não como um projeto de grandeza, mas quietinha, só mais alguém por aí afora vivendo. Eu, aqui.

E que a primavera chegue, mas não seja só mais uma estação que a gente vê passar. Que seja uma estação que a gente faça parar. Ou que a gente pare nela. Ou, ainda, que a gente siga nela e com ela. Pra florir. Flor. Rir. Ir. 

Já fui, porque eu quero flores-ser também, no meu próprio jardim. Ser dente de leão, sopro na vida. E voar, voar, como aquela borboleta, que um dia pousou e voou. Essa quero ser eu na vida: pouso e voô. Bem feliz.