quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Ano novo?

Chega uma das datas mais esperadas a partir do meio do ano. As pessoas se sentem cansadas, apenas querem achar qualquer forma de dizer que estão renovando tudo. Não que eu me exclua disso, realmente também faço parte do ritual do ano novo. Mas não gostaria de fazer.

Se tem uma data que, ao longo do tempo que viví até agora tenho certa raiva, mágoa ou seja lá como posso chamar, é o final do ano. Com o natal, eu ainda posso lidar. Mas com o ano novo? Não, não dá.

Não é bem um não gosto, mas é um não sei conviver com isso. Quando eu era mais nova e ia para a praia, era tão legal. Agora, não. Nessa época, meus familiares estão desanimados, nada querem fazer. E eu, queria fazer algo que não posso.

Queria fugir para longe, viajar, como qualquer outra pessoa. Ir à praia... Como eu precisava ver o mar! Ficar sozinha, apenas pensando, em como tudo já foi belo e, de alguma forma, trazer boas energias que me permitam ver como no futuro tudo também será incrível. 

Mas é um sozinho, que como qualquer outro, precisa de pessoas.

Não que eu não as tenha, só tenho poucas demais. E que esquecem que estou aqui, de algumas formas como todos esquecem que estamos aqui. Não sei explicar, só sinto uma dor, uma tristeza, incômoda, latente. Só queria que me proporcionassem o infinito, o eterno.

E no ano novo, o que eu queria, era ver como isso está sendo concretizado. Só que não está. O que ficou ainda mais claro depois que o mar partiu. Depois que minha mãe partiu. E o mar levou as cinzas.

O mar me atrai de diversas maneiras. Me acalma, me alegra, me traz o infinito. Quando nele estou, ele me abraça, e nada mais importa. Mas ele também conhece a minha maior dor, a da perda do grande e primeiro amor de qualquer vida. 

E talvez por isso ele preencha tudo. Porque ele conhece o todo. Ele se interessou de fato.

Mas nossa relação cessou há tempos. Não nos vemos.
E eu queria ter visto este grande amigo, mas não será neste ano que acabou.

Não ligo para os fogos. Não ligo que é um novo ano. Nem acredito nessa ideia de ano. Dias são dias e tanto faz. Eles só servem para viver, e acontecer. Pouco importa se mudamos de ano ou não. Mas se é pra ser um rito, tudo bem, vamos passar por ele. Vamos aproveitar o momento, chamando novas energias.

O despertador de hoje cedo, que avisava o momento de olhar as comidas no forno, não para de tocar na minha cabeça. E ela dói.

É uma explicação. Um aviso. 
Conforme vão passando os tais anos, e vou de certa forma ficando mais velha, e amadurecendo, e compreendendo melhor as coisas, posso perceber, ou ao menos tentar, ver que o ano novo ainda não é novo para mim.

Não estou na praia. Mas estou em casa, com as pessoas que dão a vida por mim todos os dias, e de alguma forma tento retribuir. Eles não comemoram nada, Mas porque não precisam. Eles já estão preenchidos, todos os dias. Se preenchidos pela união que há, acima de tudo, aqui.

E o despertador tocando na minha cabeça incessantemente me faz perceber. Porque volta a hoje mais cedo, quando nos reunimos a mesa e estivemos juntos, felizes.

Isso sim é ano novo. Ano novo é rotina. Mas é perceber aquilo que é diferente, ou que pode ser diferente.

Façam suas apostas. 

Eu fiz algumas. Mesmo sem esperanças, eu tento.

Mas hoje não haverá nada de especial no ano novo. Eu ao menos não espero, para não passar mais um ano chorando.

Esse ano o único mar em que quero entrar quando der meia noite é o mar da esperança, de uma nova tentativa. Que as sete ondas puladas sejam as sete tarefas simples e cotidianas que tenho que cumprir ainda no dia de hoje.

A vida nova que preciso é simples. É o cotidiano, é viver como todos fazem todos os dias, todos os anos.

Eu ainda não aprendí. Sou viajante de primeira viagem.

Vim de um mar turbulento, embora amigo.

Fui pescada por engano e estou aqui.

Mas se estou aqui, que seja para valer.

Não quero ser diferente. Quero viver como todos os outros, quero me sentir um mais um no meio da multidão, como sou sentida, mas um mais um que se encaixe ali. Que seja visto como um alguém que se encaixa e que veja que se encaixa. 

Chega de angústia, de arrependimento, de tristeza.

Dessa vez meu remédio não vai me derrubar, não vai trazer minhas perturbações à tona (não que precise dele para). Hoje tomei outro remédio. O das boas lembranças e do amor que tenho pelo mar.

E se nada der certo, que eu me jogue no mar e as ondas me levem.

domingo, 27 de dezembro de 2015

O dia que não existiu

Um dia pode, esporadicamente, não existir. Céus esvaziam, ruas esvaziam, a vida esvazia. Tudo parece se passar de repente um filme em preto e branco, reproduzido em câmera lenta. E você, quem se torna você? Torna-se pouco, ou quase nada. Afinal, o dia sequer existe.

Isso me acontece uma série de vezes, mas só me dou conta depois de um tempo que já se passou. É até difícil acreditar, mas simplesmente é. São as dificuldades da vida urbana trazendo uma novidade. As grandes tecnologias chegando e nos envolvendo, e então... Chega as lojas o dia que não existiu.

Acho que as vezes só gostaria que as coisas todas fossem um pouco mais normais. Não tivesse que viajar tanto para fazer certas coisas. E nem sei se queria fazer certas coisas, por mais que as ame. A sociedade nos enche de confusão, e vai embora. Nos deixa um dia que não existe. 

Nessas correrias todas da rotina, de viajar durante quatro horas por dia num transporte público, dormir cinco horas, ter três aulas por dia, ler em média cinco a sete textos de no mínimo cinquenta páginas por semana... Quem é que se encontra? Quem é que vê de fato um dia existindo? Eu não vejo. Só vejo estresse. Ansiedade. Desgaste emocional.

E então quero planejar uma vida nova para o próximo ano. Vida nova a cada dia. Mas cade o dia? Ele nem existe. Eu não existo.

Com toda essa loucura, só o que se passa pela minha cabeça é o nada. Não conheço nada a respeito do que as pessoas falam: lugares, pessoas, filmes, séries, livros, piadas. Nada de nada. Não conheço nada a respeito de mim: não sei definir qual a minha personalidade e limites. Não sei quais são meus sonhos ou metas próximas. Nada sei.

Por isso me pergunto se é só um dia que não existiu, ou se são anos. Uma vida construída até agora completamente confusa. E baseada em um certo vazio.

No entanto, por mais que me force a fazer parte de um mundo, é tudo muito difícil. Não sei. Não sei pertencer a isto também. Não sei se quero. E para este último não sei, eu sei: não!

Eu quero uma coisa diferente. Só a natureza, a paz, o amor. As coisas do meu jeito, envolvidas de um jeito estranho. Eu quero sorrisos, gargalhadas soltas. Quero lágrimas correndo, demonstrando toda a emoção que é de fato a vida. Quero uma vida baseada em perceber e sentir.

Quero olhares não evitados. Quero abraços.

Mas são tão difíceis...

Até o que quero não consigo alcançar. É uma barreira intransponível. Que bloqueia naturalmente, automaticamente. Por que?

Deve ser porque o dia em que percebí isso tudo não existe. O dia não existe porque eu não existo.

E então, nas férias, a gente percebe que os dias não existem somente na correria e padrão de vida indesejáveis. Eles também não existem quando estou fazendo sozinha ou supostamente tentando fazer as coisas que gosto.

O que se passa? As minhas memórias fugiram nos últimos dois anos. Pouco me lembro do que quero lembrar. Pouco me concentro no livro que quero ler e nas palavras que quero escrever. Acho que minhas energias foram sugadas por dias que sequer existiram.

Tristeza. Desejo de domingo perfeito perdido.

E então? Será que o dia não existe ou será que eu não os deixo existir? Será que os dias estão em uma imensa batalha com meu eu pela existência? Será que eu não existo?

Os dias são eu.

Bela conclusão para quem escreve no domingo que anoitece, último domingo do ano.

Mas eu não me deixo ser. Um eu que não sou eu, mas um eu que eu não sei quem é. Se talvez nos apresentássemos, se eu soubesse quem é, poderia ser mais simples. Quem será este eu? Será aqui um corpo que escreve ou uma parte menos sombria e existente deste eu? Ou será aquela outra parte a existente, e este que escreve nada mais que confusão? 

Talvez devêssemos falar sobre o que é realidade. Talvez para esse suposto outro eu os dias existam.

Eu também quero que os dias existam para mim. Algum outro eu perdido pode me abraçar? 

Digo, ensinar.

Eus que tem dias existentes, manifestem-se, eu também quero existir. E ter um dia existente. E uma vida existente.

(Nesse instante, qualquer-coisa-eu aqui dentro rompe com tal negativismo e vai mostrando cenas deste domingo que se passou, tirando o preto e branco de tais e mostrando que um ponto aqui e ali... Existiu.)

Que os eus iniciem os julgamentos.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Um mundo chamado música

Vagava por aí. Já havia passado das 21 horas, sem dúvidas. Mas não queria saber. Só estava cansada, sem querer parar. Sabia lá eu o quanto já havia andado. Mas queria andar, ir para o mais longe que pudesse. Aquilo tudo havia mexido comigo. E eu só saí, sem o menor desejo de algum dia voltar. Não dava para suportar. Havia sido uma perda enorme.
Perder a si mesmo, assim, de repente – ou talvez nem tanto – é doloroso demais. De uma dor que nunca cessará. Tentava entender tudo há um ano, mas não estava preparada. Só achava que tudo ficaria bem. Por isso ficara sempre distante, tão na minha. E não só por isso, porque também essa tal fase cheia de mudanças nos deixa muito estranhos.
Haviam sido feitos tantos planos, sobre como faria com minha vida quando tudo melhorasse. E nada melhorou. Só piorou. Eu, agora, nada podia suportar. Não quero morar com ninguém. Não quero viver.
E por isso saí. Porque precisava de um tempo. Precisava respirar, tentar colocar alguma coisa no lugar. Então, só vou caminhando. Talvez só precise de um novo lugar. De algo novo.
Devia estar no centro da cidade. Terça-feira, somente barzinhos e casas de show poderiam estar abertos. Seria ideal, se eu não fosse nova demais e não estivesse sem dinheiro algum. E o pior é que já estava começando a sentir fome. Parei em frente a uma casa de show. Bandas muito boas tocavam.
Estava muito frio, e eu só de bermuda, camiseta e tênis. Havia andado muito, estava cansada. Cansada e com fome. Mas agora, nada eu poderia fazer. Apenas me sentei próxima a uma parede, fechei os olhos e dormí.
De repente, muitas vozes e risadas. Sentí que pararam um pouco, como se estivessem próximas. Mas eu estava muito cansada, não tinha condições de abrir os olhos. Aos poucos, conseguia decifrar o que tentavam dizer. Perguntavam-me se eu estava só, se estava bem e se precisava de algo. Eu apenas disse que sim, me ajudaram a levantar e me levaram com eles. Deram-me água e qualquer coisa para comer, e aos poucos pude abrir de fato os olhos e compreender quem me ajudava. Era o pessoal de duas bandas que haviam tocado naquela noite. Especificamente e verdadeiramente, apenas um estava muito preocupado sobre quem era a garota tão nova e sem nada que vagava por aí. Embora mais de dez anos mais velho que eu, era muito simpático. E conforme fui melhorando, tive condições de dizer tudo.
Na verdade, dizer tudo, para mim, era um enorme problema, tendo em vista que eu não gosto de falar. Não que não goste de falar, eu gosto e quero falar, mas não dá. As palavras sempre exigem que saiam rasgando. O moço compreendera tal dificuldade, e apenas disse que poderia dormir em seu apartamento, que depois tentaríamos conversar melhor e quem sabe eu poderia ser ajudada.
Apenas chegamos e me deitei no sofá na sala e dormí. Um grande problema por ser um desconhecido, mas eu sentia alguma confiança, como se já nos conhecêssemos antes. E o corpo doía, a cabeça doía. E eu só queria dormir, pois ainda demorara um tempo até chegarmos a seu apartamento, já que ele saíra para comer e beber com seus colegas de banda.
Fora uma noite turbulenta. Tive pesadelos, e sonhos tortuosos, daqueles cheios de cenas repetitivas, que nos levam ao desespero e agonia. Como chegamos quase às três da manhã, logo depois amanhecera. E eu não conseguia mais dormir. O Sol sempre me encantava, e o que eu fazia era admirá-lo. Ou me cegar com ele. O Sol me cega todas as vezes que tento te encontrar. É o que me vem à cabeça sempre que o sol me cega, meu eu.
Muito tempo depois ele acordara, o baixista. Eu ficara sentada no sofá, lendo algum ou outro livro que encontrara ali e me despertara curiosidade. Ele se assustara, por um tempo se esquecera de que eu estava ali. Fora para a cozinha tomar café e eu, da sala, só comecei a falar. Disse tudo o que precisava. Não suportava também guardar. Tudo, aqui, era demais.
Ele me sugerira procurar outros tipos de ajuda. Psicológica. Não. Eu resisto. Isso toda a minha família sugerira também. Mas algo aqui dizia que não era o que precisava. Precisava de algo novo. De uma vida nova.
O baixista tentava entender como podia. Na verdade, era fácil perceber que ele estava mais perdido que eu, mas que se esforçava para ajudar. Talvez ele só tenha ajudado naquela noite porque sabia que era melhor do que deixar uma garota na rua. De resto, nada mais ele sabia o que fazer. Como ele tinha uma vida a seguir, apenas me sugeriu que o acompanhasse, por um tempo, e quem sabe isso me ajudasse.
Eu gostara. Afinal, aventuras de banda são muito legais. E música, bem... É tudo. Música alivia, acalma e cura. Também tocava, podia falar a mesma língua que ele. Ao que via, já iniciaríamos muito bem. Ele tinha que passar o dia no estúdio, para a gravação de um novo disco da banda. Ainda estavam na fase de composições. Acompanharia desde o início.
Ficara num canto, quieta. Tímida. Era um novo lugar, um clima diferente. Pessoas que me olhavam sem compreender. Essa última parte, em nada me surpreendia, eu também não me compreendia.
Passaram cinco horas, e nada haviam conseguido ainda. Estavam discutindo, nem eu aguentava mais. Repentinamente, inconscientemente, cantarolei uma melodia que havia vindo para a letra que buscavam. Todos pararam bruscamente, assustados. Trouxeram-me instrumentos, papéis e lápis. Pouco tempo depois, eu era a nova ajudante da maior gravadora do país. Que tipo de ajudante? Uma faz-tudo. Ajudava nas composições, trazendo letras ou melodias, trabalhava na parte técnica das gravações. E, se algum roadie faltava, lá estava eu. Até integrante de bandas menos famosas, se precisasse, a faz-tudo já estava pronta para ajudar.
E, aos poucos, um novo mundo me abraçava. Um mundo com que havia sonhado desde pequena. Um mundo chamado música. E mesmo que eu ainda estivesse perdida para mim mesma, eu já era capaz de sorrir. Era capaz de me encantar e sentir. Capaz de me emocionar.
No entanto, era um trabalho que consumia. À noite, nos shows. De madrugada, manhã e tardes, estúdio. E como se pode supor, ganhava pouco por isso. Talvez eu sequer desejasse ganhar, era música e me bastava. Mas não havia reconhecimento. Havia exploração, emocional desgastado. O baixista, que se tornara meu melhor amigo e companheiro de composições, achava aquilo tudo injusto. Ele queria me ajudar, achava que eu merecia mais. Que o que fazia ali, deveria ir além de reconhecimento. Com ele, aos poucos, eu gravava vídeos para colocar na Internet, e fazia amizades com fãs de sua banda e outras bandas que eu sempre ajudava. O que o baixista desejava mesmo era que eu tivesse meu próprio projeto. Achava que o meu talento merecia isto.
O produtor discordava. Não queria mais nada de mim. Apenas que eu fosse uma figura secundária ali. E dizia, incessantemente, que eu até poderia ter um talento para a música, mas eu não tinha a imagem. Uma triste história que se repete, para tantos musicistas frustrados que são vistos também vagando por aí quando já passou nas 21 horas. De toda forma, eu continuava ali. Nada tinha a perder.
No ano seguinte, ocorreram as clássicas premiações de melhores do ano. E a banda eleita como a melhor sempre tocava. A banda do meu baixista e melhor amigo fora a escolhida e, ele, insano como era, recebera o prêmio com sua banda e me chamara para cantar com ela. Disse que aquele prêmio também era meu, ou talvez até mais meu que deles, já que estava sempre ali, para tudo o que precisasse. Era uma briga comprada, com o produtor e também com o vocalista, que nunca gostara de mim.
Mesmo assim, aceitei. Porque queria cantar e tocar. Era o que amava fazer – e ainda amo. É o que envolve a minha alma, que encontra o que se pode suspeitar que está perdido, que se encontra o novo. E que se unem as duas coisas, o novo e o velho. O eu e o não eu.
Eu já sabia que dali em diante o clima se complicaria. O baixista também estava com um projeto solo, mais um evento problema. Sabia que meus dias, nessa história de música, estavam contados.
Com tantas confusões, fui mandada embora. Ou não. Já não lembro. Porque eu também já queria partir. Havia sido só uma experiência, mais uma que não dera certo. Já estava acostumada a ter tantas assim. Havia me perdido e não havia me encontrado. De onde havia vindo apenas ia voltar.
Ia voltar caminhando. Mas dessa vez muito cedo. Ia caminhar com o sol. Rumo ao que tinha antes: nada. Nada tinha, nada tive e acho que nada terei. Algumas pessoas surgem para isso, para preencher e somar, na vida de outras, as que de verdade... São.
Caminhava sem nada compreender. Sem saber o que fazer e sem saber como imaginar como serão os próximos anos, se estes existirão. Quem é que disse que é sempre possível a gente se achar? Perda é perda. E não há busca pela felicidade. Apenas a vivência de um conjunto de momentos que, como um todo, a gente chama de satisfação plena. Felicidade.
Felicidade é caminhar assim, com o Sol. É só nesse momento único que ousaria dizer que me encontrei.
Caminho. Todo dia. Desde que nascí.
E também canto. Seja como for.
Sobre qualquer outra afirmação, história ou experiência contada: imaginações vividas com sentimentos de confiança e grande verdade. Escapismo. Sonhos não realizados, e assim condensados. Não realizados, embora vividos de alguma forma. Depois, abandonados. Para abraçar o que se resistiu.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Gerações

Acredito e defendo que em uma história cabe duas, ou até três.  Uma leva a outra, ou nunca existiu só. Ainda mais por se referir a uma história envolvendo gerações diferentes. É sobre, então, minha avó e eu.
Às vezes me parece que essas experiências são melhores e de fato vividas por mim quando relembro, ou penso a respeito. Apenas nestes momentos de ressignificação é que percebo como algo de fato tem valor.
E me bastou o cenário de sempre: um vagão de trem, sua janela e humanos. Um cenário tão simples, mas que gera tantas vivências. Os humanos são necessários pelo pequeno fato de, em meio a tantas pessoas ali, tão próximas e indiferentes umas as outras, acabamos por nos voltar para nós mesmos. E com isto, vivencio experiências que já se passaram, agora com a alma.
Há quem diga que as lembranças são algo totalmente recriado por nós, que nada tem a ver com a realidade. Discordo. Realidade? O que é a realidade? É aquilo em que acredito viver. E eu acredito viver mais de passado do que de qualquer outro tempo que possa existir.
O sol, por sua vez, invade as janelas do trem. Seus raios vão ao encontro direto dos olhos daqueles que se voltam para dentro de si e se permitem sentir. Eles nos cega, nos cega todas as vezes que tentamos encontrar algo. Mas é uma cegueira paradoxal: é a cegueira que permite ver além do que é visto superficialmente, corriqueiramente, corridamente.
A lembrança dessa experiência se iniciou quando caminhava para a Estação de metrô. Fora algo repentino, surpreendente, mas que envolveu, preencheu. E caminhou junto comigo na passarela, aguardou o trem, e embarcamos em uma incrível viagem de imagens e pensamentos.
Recordei-me apenas de algo que havia ocorrido na noite anterior. Tão simbólico. Sempre na semana auxilio minha avó a preparar a comida. Descanso um pouco ao chegar da aula, converso com ela, com meu avô, e também com os bichinhos dessa casa (que tem mais vida que certos humanos por aí!) sobre uma série de coisas triviais, e partimos para a cozinha. Ela me dá os legumes e panelas. Eu pego a faca e a tábua. Um grande processo se inicia.
Preparo tudo ali, sentada na velha mesa da cozinha, palco de tantas histórias. Brigas, fofocas, risadas, cantorias. É quase um altar, um lugar preferido. E ali, enquanto vou descascando e picando tudo, minha avó procura ficar sempre por perto, em umas das cozinhas, a que eu me encontro ou a outra, que contém o fogão, ou na lavanderia, sempre arrumando alguma coisa necessária e fora do lugar.
E enquanto estou sentada nestes preparos, ela sempre passa, vendo se não preciso de algo. Uma experiência de, sabe-se lá quanto, talvez de quase uma vida inteira de sessenta e nove anos, realmente precisa estar por perto, instruindo, aconselhando e apoiando uma experiência tão misera, de cinco anos distribuídos em poucos eventos.
Neste vai e vem de legumes e de avó, perto da velha mesa, que serve como a um diário, uma série de conversas ocorrem. Elas são, primeiramente, uma continuidade daquilo que se iniciou com a minha chegada em casa, conversas sobre parentes, clientes, vizinhos, ligações, contas, que são muitas vezes interrompidas por frases como “nossa, você uma prática e uma velocidade para cortar os legumes, assim como tem para lavar a louça” e “eu prefiro cortar assim, a cubinhos tão pequeninhos”.
Mas o que de fato me encanta nessas ocorrências de cozinha é a vida que esses assuntos vão ganhando. Ações tão pequenas, como preparar legumes e comentar sobre as formas de preparo que cada uma tem, permitem, abrem espaço, para algo maior, como a expressão de ideias, sentimentos e ponto de vista. Permitem que duas gerações, tão diferentes e por vezes com tantas dificuldades de comunicação, se encontrem e conversem muito bem.
Refiro-me a isto também pelo simples fato de que, embora vivamos juntas há sempre uma grande barreira. As diferenças de tempo e espaço em que cada uma viveu são grandes responsáveis por tal distanciamento, e outros fatores, que talvez sejam explicitados, ou não. Ela, nasceu na década de quarenta, no interior de São Paulo, sem os pais, cresceu trabalhando e criando a si própria. Eu, nascí na década de noventa, na grande São Paulo, com todo amor e cuidado de uma avó. Não sei se sou capaz de explicitar isto tão bem, mas é um cuidado muitas vezes mais físico, externo, material, que deixa enfraquecido o cuidado mental, afetivo, psicológico.
Perceber a grandiosidade deste evento me foi também crucial para a manutenção de papéis, os quais são muitas vezes enfraquecidos e destruídos por conflitos de ideias. Sempre ocorre uma briga por conta do namoro, ou por algo tão diferente, como um passarinho capturado, que caíra de uma árvore e fora trazido para casa por ela, e depois devolvido por mim. Estes momentos na cozinha me permitem, então, reconhecer o valor de uma relação entre pessoas tão diferentes, por pertencerem a épocas distintas, mas tão iguais por pertencerem a uma mesma família, envolvida por valores genéticos e ambientais.
Há quem defenda que nada de oportuno ou equivalente pode ser retirado de duas gerações distintas, mas tais pessoas não tiveram a oportunidade de vivenciar a experiência da cozinha, ou aqui denominado por mim de 276 em ação. É realmente belo observar como um evento às vezes tão banal e cotidiano, como os preparos da comida na cozinha pode ter algo maior por trás, ou melhor, como pode abrir espaço para algo crucial, que mantém essa estrutura viva, que mantém os papéis em uma família ou em uma sociedade como o são.
Na cozinha, em meio a tantas conversas banais ou trocas de frases de função conativa, repentinamente, algo parece ocorrer e surgem assuntos que permitem a exposição sem nenhuma preocupação com o conteúdo do que é dito. Fala-se sobre o que se acha do mundo, da vida, da religião, da politica, da cultura, do amor. Fala-se da perda, da dor, da morte. Fala-se de tanto. E tudo depois permanece bem. Não há brigas, não há mudanças, não há choros, nem risadas, nem afastamento, nem aproximação. Acontece ali, e passa.
Passa mesmo. Mas, repentinamente, o sol pode te surpreender. Pode te voltar a noite anterior. Te fazer pensar no vivido incessantemente. E de uma maneira surpreendente. Quem diria que haveria por trás disso algo tão lindo? Será por isso que as relações se mantêm? Ou será que nada tem a ver? Provavelmente, um evento tão profundo que se permite passar despercebido é um dos principais mantenedores das relações humanas, que permite o encontro de relações, a tolerância de diferenças, o amor entre as diferenças gerações. E quando há conflitos, o evento não pode ser concretizado.
Agora sei por que há, em casa, tanto afeto, mesmo com tantas dificuldades, problemas, perdas e frustrações. Porque por trás disso tudo há, também facilidades, resoluções, ganhos, felicidade. Há a reunião de ideias, de papéis diferentes, que de alguma forma tem similaridades e se permitem unir.
É o que ocorre também em um simples vagão de trem. Os opostos, sempre tão iguais, fazem suas manutenções, ao estarem tão unidos e por fim se distanciarem, e refletirem sobre experiências, experiências estas tão pessoais e individuais, mas que contribuem para a permanência de uma sociedade, uma cultura, seus papéis e personagens.
E sol também permanece. Para nos cegar. Para realizar a cegueira paradoxal. Para unir tantas gerações, para mostrar o que há nelas. O sol conhece a todas. Por isso sua cegueira é paradoxal.