sábado, 23 de janeiro de 2016

Direções

Metrô. Sentada. Pós reunião. Pós almoço. Voltando para casa. Tranquilidade.

O que mais queria sentir se já tinha toda a calma das águas de um oceano, que oscila entre o vai e volta, do fundo à beira da praia?

Uma vida cheia de idas e vindas é o que hoje me contenta. Da casa a faculdade. Da tristeza a alegria. Do bom ao ruim. Do alegre ao triste. Do parado à agitação.

Às vezes o mar fica agitado. Mas se antes estava tranquilo, tudo volta ao normal. Ao vai e vem.

O meu barco, que era apenas silêncio de repente se agitou. Duas irmãs, muito parecidas, quase gêmeas, idosas, entraram pela porta próxima ao lugar em que eu estava. Uma encontrou lugar para sentar, outra não. Imediatamente, oferecí meu lugar.

Já que um quarto do meu dia é sempre no transporte, estou acostumada a certas reações. O lugar seria aceito e eu ficaria em pé, contente por ter dado o meu lugar. Mas o mar estava agitado.

E agitado, desafiou sua tranquilidade. A senhorinha, muito fofa, disse: não, muito obrigada, mas eu não sento de costas para a direção que o metrô está indo.

Sorrimos todos. Ela, a irmã, e um outro senhor que estava próximo. Eu realmente achei a resposta muito engraçada. Surpreendente, inesperada, imprevisível. A irmã apenas complementou: é, ela passa mal se senta assim, de costas, contrária à direção correta.

Alguém ofereceu o lugar, ao ouvir tudo. E eu fiquei contente.

Mas o mar continuava agitado. Como assim eu estava de costas ao correto? Como eu poderia estar contra a direção e não perceber, não me sentir mal?

Embora ainda com certa tranquilidade e estabilidade anterior, agora eu refletia sobre isso.

Isso explica porque certas coisas ocorrem. Às vezes estou contra a direção. Estou de costas para o necessário. E não me dou conta.

Finalmente você percebeu!, deve ter gritado a vida para mim. Não é a primeira vez que ela tenta me mostrar isso.

Ano passado. Primeira semana de aula. Pós semana de recepção. Quinta. Lugar desconhecido. Fome. Busca pelo local. Duas amigas, que ainda não conhecia tão bem.

Começamos seguindo algumas pessoas, que também iam almoçar, mas num dado momento, conversando, não vimos que não os seguíamos mais. Estávamos numa rua longa, enorme, que não parecia levar a lugar algum. E a fome berrando conosco, sobre como estávamos erradas no caminho.

Mas uma delas se recusava a voltar. Não, eu não posso voltar de onde vim. Isso vai contra o que eu acredito. Eu nunca volto, mesmo estando errada. Eu sigo até achar o que quero.

Não estava tão errada, amiga. Na frente encontramos dois moços, retornamos e encontramos.

Veja bem. A senhorinha não quer estar contra a direção. A amiga não quer olhar para trás.

E eu?

Não sabia o quanto isso era importante. Que a direção faz diferença, a sua forma. Na direção errada, posso não chegar no que quero. Mas olhar para trás? É estar contra também, contra a minha direção.

Significa que estou de costas pro que quero, preciso, desejo, verbos.

Mas e se de costas for um querer, precisar, desejar, infinitivos maior?

Aí é saber até que limites vão os princípios e as ações.

E disso, eu ainda não sei.

Mas a vida está alertando. Eu vou e volto, e você ainda não sabe. Você tem que saber!

Sim, eu tenho. Mas o meu não ter é maior.

Limitar é muito chato. Ainda bem que esse trem é aberto. Mesmo de costas, você vê a curva, vê o movimento, sabe para onde está indo.

Mar, agite-se o quanto quiser. Hoje sou tranquilidade. Sei achar o ritmo do vai e vem mesmo com as ondas mais fortes surgindo.




domingo, 17 de janeiro de 2016

Luz

A única certeza é a morte. Não. Morrer ainda é viver. A única certeza, para mim, é que há uma luz poderosa. Uma luz que a tudo pode preencher. Uma luz repleta de apenas amor. E paz. Uma luz pura, simples.

Desde pequena, eu sinto isso. Sinto que acreditar e buscar isso poderia ser uma solução para o que sinto. Não estava tão certa, mas não tão errada. Muito mais próxima do que é a solução.

A luz se representa em gente, em emoção. Se transforma em concreto.

E eu sabia que era o que precisava fazer também com minha vida: torná-la concreta.

Mas o primeiro passo sempre é acreditar.

E eu acreditei na luz. Mesmo nos momentos mais difíceis. Luz.

No momento mais escuro de minha vida, quando sentia algo arder em meu peito, um silencio tomar conta das minhas horas, o fazer nada roubando minhas energias, quando achei que tudo acabaria aqui, assim e agora... A luz apareceu. A morte se tornou vida. A dor se tornou paz.

E aos poucos vou tomando forças e voltando ao mundo e encontrando meu lugar. Vou me dando vida novamente. Há uns seis anos...

E o tempo há de correr mais.

Tendo luz, a gente senta e espera. Uma hora acontece. Pior era esperar no escuro.

Eu tenho fé. E não duvido que existe aquilo que se chama Deus. E nada me tira esta certeza. É forte, é inabalável. Incondicional.

E eu sempre vou a casa de Deus. A casa dele se chama céu. Mas por aqui, é a igreja.

Um outro dia, enquanto montava os equipamentos e arrumava o som para cantar, algo me veio. Apenas desenrolava um cabo e o ligava, enquanto olhava para os bancos, para o altar, para os santos, para as pessoas que chegavam. E algo eu ví.

Essa casa é mais do que estruturas. É uma estrutura viva. Um organismo. Tem histórias que viveu, e dentro transborda de emoção quando tudo começa. Pessoas são necessárias para saciar e preencher ali, preencher de emoções, de pedidos e agradecimentos. De falas, de cantos, de movimentos.

A maior criação de Deus foram os humanos.

Há quem diga que os humanos são deus. Mas não precisamos afirmar dessa forma. Na verdade, humanos, unidos, em busca de amor, de paz, da luz, são capazes de corporificar ali aquilo que se pode chamar Deus.

Deus é mais.

E aos poucos, vou entendendo. Principalmente lendo sua palavra e participando de uma vida verdadeiramente religiosa. Vou entendendo certos anseios e angústias que tenho com relação ao mundo.

Na verdade, desde sempre apenas busco a luz. E vivo a luz. Não quero saber de patifarias, de coisas banais e triviais, "do mundo". Só quero viver, tendo amor e paz, esperar tudo passar, e encontrar a luz. A sensação de eterno. E quero fazer isso pensando, sentindo, e amando. Humanos e natureza.

Escrevo e acho tão clichê. Talvez porque já saiba disso há muito e não tenha percebido.

E a busca por tal luz me tem feito perceber que busco também o perdão. Eu preciso me perdoar.

Tanto mal me fiz querendo pertencer ao que não posso pertencer. Reclamo de solidão, silêncio e tristeza. Mas eu sou a solidão. Eu sou o silêncio. E eu sou feliz.

A tristeza faz parte. Falta de entendimento. Um dia a gente entende, põe sentido nisso.

Só quero renunciar certas coisas, e seguir naturalmente. Seguir acreditando. Buscando.

Luz que sempre me cegou e agora me ajuda a enxergar. Luz que me fez morrer para me dar a vida.

Luz poderosa da qual sou totalmente dependente, porque fujo da escuridão.

Luz, preencha-me!

domingo, 3 de janeiro de 2016

Por que tão paradoxal?

Nas férias, o meu descanso vem de outras formas. Vem de limpezas e organizações. Parecem limpar tudo. E com as limpezas, algumas coisas vão clareando e vindo a tona. Algumas ideias, pensamentos, opiniões. A deste ano me mostrou como é importante ter contato com parentes de mais idade, mais distantes e com uma história de vida totalmente diferente.

Me refiro a ida à casa da minha bisavó, que mora com tio-avôs. Parecem ter uma história tão difícil, mas ao mesmo tempo parecem viver da sua forma.

Viver por quase cem anos. Ter uma doença mental não tratada corretamente, e se sentir discriminado no dia a dia. Ser solteiro por toda a vida. São as realidades observadas naquela casa, e muitas outras difíceis não deixaram de passar por ali.

Mas o que encanta é que mesmo com realidades tão complicadas, todos vivem felizes, de alguma forma que possa ser felicidade. Uma felicidade do tipo que a gente se adapta a ter, e que com o tempo se percebe que não seria possível tê-la se não estivesse em tal realidade.

Essa ideia também foi influenciada por um livro que acabei de ler e por uma conversa que tive com uma amiga no começo da madrugada.

Em um texto anteriormente escrito, falava sobre meu desejo de ser normal e igual aos outros, relacionando tal ideia com alcance de felicidade. Mas após isso tudo, volto a pensar em tudo.

Atualmente, ou um atualmente que começou há uns três anos, tenho me sentido velha. Tido uma vida de velha. E isso tem mexido um tanto comigo, pois me sinto triste, porque não queria que fosse bem assim. No entanto, ao mesmo tempo, me sinto bem assim e não consigo ser de outra forma.

Por que tão paradoxal?

Realmente me entender facilitaria demais a vida.

Após uma noite sem dormir, consigo compreender muitas coisas, embora tenha medo de descobrir que elas não são bem assim com o tempo.

De toda forma, suponho ter compreendido que de fato, meu problema é comigo mesma. Eu quem não consigo me aceitar, não a vida ou a sociedade ou o mundo. Eu sou feliz, mas em meus pensamentos não me permito ser! Não permito que minhas emoções se entreguem. Como posso eu mesma ser minha maior inimiga, trapaceira?

Simples. Apenas nunca fui. Nunca me permití ser. O eu não permitiu o próprio eu.

Não há muitas palavras a serem gastas após um dia tão feliz e pleno. Um dia com a família, com o amor da sua vida, com Deus. Um dia normal, mas de descanso, de tranquilidade. Diferente. Um dia. Um dia que finalmente existiu, porque eu o permitir existir!

Sei que terei recaídas com o tempo, me conheço, e tenho tantos outros conflitos. O da perda, o das emoções. Mas também sei que sou humana, e só o que quero é me permitir.

Andar tranquilamente. Cantarolar. Sorrir. Falar sozinha. Não tentar compreender o que as pessoas pensam e se pensam a meu respeito a todo instante. Abraçar as pessoas em meio a multidão e onde bem quiser. Dizer coisas sinceras, profundas. Derramar lágrimas.

Eu só quero ser eu! Porque eu sei quem eu sou. Alguns fatos me fizeram amadurecer um pouco cedo, talvez, mas isso não deve me tirar a vida. Devo aceitar os fatos como são, mesmo que não tenha realizado algumas coisas como desejei. Ou posso fazê-las, mas de maneiras diferentes. Ou posso usar isso a meu favor. Ou posso fazer tudo de uma vez.

Ou posso apenas tentar.

Voltei a minha antiga máxima, então? "Querer não é poder, é tentar"?

É a vida. Nos volta para onde temos que estar, para onde de alguma forma parecíamos acertar. Mas nos deixa com nossos erros, dificuldades, complicações. Com a tal da nossa cruz. E essa mesma cruz, que trouxe dor, tristeza, sofrimento, recusa da vida, é aquela que no fim é capaz de trazer felicidade. Que linda confusão é a vida!

Quero viver. Não sei se posso, se ainda posso. Mas vou tentar!

Lá no fundo, sei que não quero tentar. Posso? Talvez não... Vou tentar!

Simplesmente paradoxal. Por que tão paradoxal?