segunda-feira, 14 de março de 2016

Tempo de viver

Acabo de ver uma pomba branca. Não toda branca, embaixo ela esconde traços pretos. Mas é linda. Isso me lembra também que parece que acabei de tomar veneno.
Não um veneno que mata, mas um que tortura, que apresenta efeitos bem lentos.
Um tanto complicado assumir isto, mas não sou a única que acabou de tomar veneno. Basta pensar no que tem ocorrido.

O fato é que cada um tem seu destino. Mesmo? Há mistérios demais nisso.

Um dia desses caminhava em linha reta na calçada, em direção ao ponto de onibus que me leva para casa, e me pus a pensar nisso. Porque o meu destino era ir para casa e realizar uma série de tarefas. É o que eu queria? Talvez. Era o meu destino? Meu destino final era ir para casa, mas meu destino de realizações era ir para um outro destino...

Todos tomamos veneno. Vamos cuidar da casa e trabalhar e estudar e perder horas e horas dentro do transporte porque é o nosso destino. O que chamamos de destino é o mais simples veneno que poderíamos ter tomado.

As crianças brincam na rua. Elas gritam e aparentemente se divertem. Será destino? Elas podem apenas esconder a frustração que carregam dentro de si.
Ao menos comigo sempre foi assim. Enquanto por dentro sinto o peito rasgar de angústia e dor, que me fará ter uma crise de choro antes de dormir, quando estou só de fato, durante a luz do dia e da noite de um mundo social, no qual me sinto obrigada a agir como se fosse normal e estivesse feliz.

Normal? Esse estado fugiu de mim há tanto que nem sei se o conheci.

Eu tomei um veneno e agora tenho um problema que não posso compreender. Eu tomei um veneno e nem sei se ele se chamava destino ou se era uma garrafa de veneno apenas cheia de água.

A noite, quando o sono já foi há muito, e não consigo dormir porque tomei uma xícara de café no fim do dia, e não é mais possível me revirar pela cama e bagunçar mais e mais o lençol, eu caminho por um corredor escuro.
Esse corredor é frio, e nele se descobre que se tomou veneno. Porque nele se pode obter respostas, se compreender que todos tomaram veneno.
É nítido apos se caminhar pelo corredor, pois se vê que a angústia está ampliada devido a falta de interesse de todos, uns pelos outros. É um alheamento grande demais, também disfarçado por atitudes interessadas. Diga seu problema, e veja quantas sombras restarão ao lado seu. E o processo é muito mais longo e duro, quando se abre uma ferida, e a expoe, ao claro, a luz, ao mundo, a vida. Guardada, apenas comigo, que sei que tomei veneno, era apenas desconsoladora e incomoda. O grito tentava sair, mas estava aqui.

E agora, com tudo transparecido, que me resta fazer? Preciso de um tratamento, ou de um fim.
Talvez eu so precise de amor e atenção. Talvez eu não queira sentir a dor da solidão que fica depois que todos vão embora (ou que está presente mesmo quando não estou só).

Esse ano já choveu muito. Na cidade, e também no mundo que é a minha alma. Ocorreram alagamentos e infiltrações, dificuldade de se escoar toda a água que esteve caindo.

E agora há uma grande nuvem escura, escondida em algum lugar, talvez preparada para fazer chover, ou que, por fim, escondida, vá embora e não mais volte.
Será?

Não, a chuva tem que existir.

O veneno que tomei era um pouco mais leve, era concentrado de pessimismo, mas sabia também procurar a luz.

E a dose de destino me permitiu encontrar quem não estivesse desinteressado por mim, que não apenas quisesse fazer consumo de energias de alguém que ás vezes nem a tem.

E eu encontrei um grande amor, que pode me ouvir, que pode usar o rasgo do peito pra preencher grande parte com luz, paz, amor. Um amor que apenas me abraça enquanto as lágrimas escorrem pelos seus ombros, em meio a uma grande multidão. Que me beija, me olhando nos olhos, dizendo que tudo ficará bem. Que me dá carinho, me dando forças para mais uma semana. E o veneno que tomei vai saindo aos poucos, me fazendo querer ajudar a quem também o tomou.

Talvez ainda chova nesse período, e em outros, mas eu tenho um amor, e junto com ele, sonhos, que me tiram do grande escuro e vazio que corre dentro de mim, quando o veneno tenta se espalhar.

Meu destino está perto, está chegando, mas não preciso correr, não preciso sequer desembarcar nele, porque de nada vale um destino se não me for sabido por qual linha reta eu quero caminhar -se é por uma linha reta que quero caminhar. Talvez eu possa apenas ser como a pomba branca, que circula com pequenos passos e repentinamente sai voando, que não se importa com veneno enquanto ainda há tempo de viver.


quinta-feira, 3 de março de 2016

Sobre janelas e relógios

Mais um sobre as férias. Última semana. Fora de casa. Passear, fazer tudo passar. Muito bom. E a janela do quarto em que estou, não tem grades, não tem alarme. Não há proteções para nada, não há problema de algo novo chegar, ou se algo velho sair. Para quem relaciona férias com renovação, perfeito.

Essa janela tem uma vista linda para o mundo. Uma vista do natural, em que se vê o sol, muitas árvores, os pássaros tantos que passam, a noite e a chuva que cai. Uma vista de quem reflete, que pensa em tudo que acontece.

Uma porta para a liberdade representa essa janela. Por ela eu posso fugir para outros lugares, e eles serão como eu desejo, pois eu os construí.

Por outro lado, não há proteções. Não pode então essa janela trazer mal estar?

Eis o valor contraditório da liberdade.

A liberdade é tão cheia e grandiosa que se torna vazia de sentido. Ela desprotege, pode nos fazer buscar o que não fora procurado.

Mas ainda assim, é muito boa a sensação de saber que a minha janela está desprotegida, e me permite ganhar o mundo, tê-lo a minha frente sem impasses.

E essa tal liberdade tem lá suas semelhanças com a cura. Ela cura e descura ao mesmo tempo.

Mas também depende, já que a descura pode ser a cura. Sabe-se lá. A gente nunca sabe certas coisas.

A cura às vezes pode não ser sarar de algo. Pode ser um nível menor, tipo a sensação de liberdade. Ou pode ainda ser o aprisionamento a algo. Depende do curado.

A minha cura eu ainda não conheço. Não sei se a conhecerei, se terei uma, se preciso, se quero. São tantos níveis que cura é bobagem.

Bobagem, mas não quando se tem a ilusão. Você tem uma janela para o mundo e acha que venceu, tem forças, energia e é o suficiente para seguir. Você está livre e é capaz de viver tudo o que quer e como bem entender. Bobagem.

Suas energias podem ser limitadas pela sua concomitante falta de energia. Alegria pela tristeza. Satisfação com sensação de falta de realização. E por aí vai. É como uma onda que carrega tudo, parece tudo resolver, mas que na verdade foi ínfima para o tamanho do mar, que já existia e nada era capaz de extinguir a sua força.

É vontade de morrer, é choro, é deitar e nada querer fazer, nada conseguir mover, mesmo quando se deseja, se é consciente de que é capaz.

Apenas só não depende da gente, não é do nosso controle. Controle de quem, então? Duma boba janela?

Essa semana eu perdí meu relógio. Guardei e não acho mais. Tristeza por perdê-lo devido o seu valor material. De resto, nunca gostei de um, exceto pela sua frequente funcionalidade.

No meu quarto tem um relógio na parede. Ele fica sempre parado. Meio dia, meia noite, tanto faz. Prefiro uma data completa. E vivida. Mais bobagens.

O tempo passa, o espaço passa, eu passo, todos passam. Que importa? A janela está lá, e o meu relógio também, em algum lugar que não no meu pulso.

Eu abrí a janela por muitas vezes, para sentir o ar e o gosto que tem a vida. Mas também já quis abrir os pulsos e ver se era essa a saída.

É tudo bobagem, não há resolução ou cura.

Mas está tudo lá, e o mar está calmo.
Às vezes os pingos de chuva o agita, mas ele não se importa. Deixa tudo passar. Ele acha que tem o controle, que tem liberdade, que tem proteção.

Iludido mar.