sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A curva por onde preciso passar

Os grandes heróis já nos diziam como ser bom, ser justo, pode ser custoso. É um desejo forte que me contamina, e luto para assim viver.

Mas nem sempre dá para suportar. Mesmo o bom. Nos cobra, possui. Nos rouba, nos toma. Faz doer. Faz faltarem energias, não dá pra dar conta de tudo. É um viver que parece tomar o viver.

E o que fazer?

Vejo uma cidade caótica. Pessoas para todos os lados, muitos transportes, e muito cansaço. As pessoas já não se olham, já não se importam, já não querem estar. Elas são, mas não estão. Enfim.

É por isso que eu gosto do metrô. Quando não dá mais, eu apenas espero, seguro e controlo, até o momento em que posso estar. Só. No meio da multidão, posso me abandonar de tudo e todos, posso me despedaçar, fazer sem me importar. Pois vão olhar e não vão falar, se aproximar, ajudar.

Então apenas sento em um canto, abaixo a cabeça e deixo as lágrimas rolarem. Deixo o peso do mundo correr, escorrer, sair. Não preciso guardar isso tudo, mas também não preciso que saibam que assim o fiz.

Às vezes insatisfeita, encosto em outro canto, em pé, olho para a janela, e me deixo novamente desmanchar. O que me acontece?

Vejo uma multidão, os meus dito iguais. Aqueles que gostaria de ajudar e abraçar. Eles também já não aguentam mais, e querem ir para casa. Passo por eles rapidamente. Vejo vultos na multidão, os olhos correm por todos, e de nada sei mais. Quando tudo corre, sinto o tempo verdadeiramente passar, em ao menos uma vez no dia, na vida.

A janela do metrô me ajuda a ver. Ouvir. Sentir. Há tantos barulhos na cidade. Carros, buzinas, murmúrios, gritos, risadas, vozes, luzes.

Há tanto barulho na cidade, mas há também tanto barulho no meu coração. Ele transborda e quer explodir. Ele pertence a um corpo, a uma mente, a uma alma, a um ser, a alguém que já não aguenta mais.

O caos não me pertence. E eu quero morrer. Como quis tantas vezes e em tantos anos. Nos maus dias, é tudo o que desejo. Um desejo ambivalente. Assustador, amedrontador, fatal. Perfeito, solucionador, prazeroso. O que me acontece?

Mais ambivalências. Não suporto todo os peso, e meus olhos bem sabem. Eles tem todo esse peso neles. Mas quero ser. Ser o bem. O bem a quem.

Eu sou feita de pessoas.

Como tudo tem desabado, não quero mais ser.

Apago a luz. Quero dormir infinitamente. Não consigo dormir.

Acordo com o sol. Sinto novas esperanças, o peito enche novamente e podemos fazer muito, fazer o correto, o justo, o bem.

Me falta entneder que não faz mal. Se é como quero ser. Há uma curva que atrapalha.

O cansaço traz a paz, mesmo com a falta que você me faz. Eu me preencho de fazer e, bem... Tá tudo bem.

Uma aula que nada compreendo, e que nem quero estar. Mas que espero me levar a algum lugar.

Lá longe escuto os pássaros, alegres entre a natureza, e um sol, uma luminosidade, preenchendo os olhos. É a esperança que tenho de que este mal, essa raiva, este ódio que tem me preenchido vai passar, porque ele não é meu.

Eu só quero o bem e o amor. Viver de bem, e a paz. E um dia encontrar você. A morte e o cansaço já tanto faz. E eu passo pela tempestade como o metrô pela multidão. Passa, passa. Já passei, já passou. Vai passar.