sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Sobre como nascer à espera da morte

Difícil é acordar em um novo dia
E perceber que o pior passou.
Você dorme esperando a morte
E acorda após ver o sol se por.

Difícil é cantar uma triste melodia
Esperando a sua hora dar
E acordar vendo um lindo dia
Da janela do seu lar.

Você sempre acha que entende da vida
Até ela te surpreender -
Quando pensa ter encontrado a solução para o fim
Você ganha, na verdade, um novo amanhecer.

Confuso - Peças que a vida prega.
O diferente, o misterioso, o natural
É hoje o que te move.
Simples, sentimental.

Fácil seria se tivesse percebido antes
Que não há nada de errado em você,
Que este mundo simplesmente não é igual ao seu.
E que você jamais vai viver se o mundo a você não pertencer

Fácil seria se aceitasse que aquele é o fim.
Quando é o fim? Este não há.
Só acaba quando nada mais se sente.
Mas quem protege o seu mundo sempre encontra a paz.

- 2010/1/2 (?)

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Sobre todas as coisas que há em mim (ou um adeus que é mais um até logo, banco sábio)


Eu queria poder escrever mais. Ensaio, invento, produzo palavras e frases na minha mente. Mas não sei porque tanto se perde, e nunca chega até aqui. Andei pensando muito nisso, nessas diferenças entre o interno e o externo, o quanto são verdadeiras, reais, o quanto fazem sentido para mim. Parece ser, então, esse o verdadeiro conflito da minha vida.

Eu fico realmente triste quando dou um grande mergulho interno e vejo tanta beleza aqui. Não como se não houvesse beleza fora, no mundo, mas como deixar transbordá-la? Como deixar que se manifeste? Sinto como se faltasse expressar, botar tudo pra fora, meus sentimentos, pensamentos, ações, escritas, canções, melodias, amor, beleza, quase tudo.

Andei mesmo pensando sobre qual o sentido da vida. O amor foi uma resposta maior. Me contemplou. Mas basta sentí-lo? Como torná-lo potência? Como o amor pode ser uma forma de viver, pensar e agir?
Eu também não sei. Vai ver é uma coisa meio que como a felicidade. Se resumem a momentos. Como a vida.

Na verdade, acho que a grande maioria das coisas estão se acabando, e posso ver melhor. Posso ir com calma. Posso ver dentro de mim.

A mudança me afetou mesmo bastante. Mas. Com todo o semestre e coisas ditas por aí. Fui me deixando afetar, me tornando negligente a mim mesma.

É por isso que teno pensado bastante e acho que até já disse: o que realmente importa?

Porque se a gente não tem um cuidado, a gente passa todo o tempo pensando, se preocupando, buscando mais coisa, a gente não olha pra gente, pras nossas coisas, pro que realmente importa. A gente vai deixando de aproveitar o que tem, e ainda pra perder o sentido.

É tão horrível, todo o vazio, toda essa perdição. A gente vai deixando de saber... Até quem a gente é.

É certo que ninguém sabe dessas coisas exatamente. Mas ter uma noção nunca vai mal pra ninguém. Por exemplo, sei de várias coisas que não sou, e fico louca da vida quando alguém me vem com isso. Uma das poucas supostas certezas era saber quem não era! Já é tão difícil saber quem sou, e me consolo sabendo quem não sou, e alguém vem e mistura tudo isso, tornando minhas poucas certezas em incertezas! Mas andando por aí, a gente também vai abraçando umas coisas que é.

E agora, pensando, tenho que olhar mais pra fora ou pra dentro? Quem sabe igualmente? Falta, então, um equilíbrio? Por que é que às vezes fico olhando pro negativo, e não olho para o positivo? Será que um punhado de positivo não pode afetar por aí e trazer mais positivo? O que realmente importa?

É como ia dizendo, as coisas vão mesmo se ajeitando e acontecendo, mas não dá pra só ir se acostumando, aceitando e ficando... Nem sempre dá só pra ir largando, abrindo mão de tudo, me levando ao vazio.

Um vazio até cai bem, mas meio que momentaneamente. Como agora, no banco sábio, a natureza, o silêncio, a simplicidade. A paz e o amor.

Tem, mesmo, coisas com que só me acostumo, deixo pra trás, e levo tudo tão a sério. Nada pode ser um sopro delicado a espera de que na verdade seja um?

Só é meio difícil também. Os conflitos, como o interno e o externo. Saio do silêncio, vou pra multidão, pro barulho, pra um milhão de acontecimentos. Hiperestimulação. Coisas que nem sei porque que são assim, porque não decidí, e meio que nem nunca quis.

Vou dizendo que é mesmo esse o meu conflito. É bom saber. Mas como vou lidar ou vou lidando, é que não sei. Não queria toda essa ansiedade, toda essa turbulência pra viver. Posso mudar? O que é que eu posso fazer? São coisas que se deram há muito tempo atrás, que me acompanham, embora só me dê conta agora. E é bom saber: isso não é meu, não faz parte de mim.

Nem sei pra onde isso vai, pra onde a vida vai me levar, pra onde vou levar esse escrito aqui. Talvez para o lugar, que contempla sentido; talvez pra qualquer lugar; talvez pra lugar nenhum. E a vida vai correndo um bocado engraçada.

Ainda restam uns dias, mas o ano acabou. E aconteceu muita coisa, mesmo. Que eu até perdí a noção do tempo. Que eu até perdí a noção de mim.

O que é que vou querer, o que poderia ser diferente... Meio que fica pro ano que vem. Talvez seja tempo de aproveitar um pouco mais o que rolou, processar esse tanto que aconteceu. É bom também. Deixar fluir, sentir a beleza as coisas, navegar. Senão, de que valeu? Às vezes é bom fechar uma coisa antes de olhar pra outra. Não sei se consigo, mas eu quero mesmo é tentar.

Talvez seja por isso que eu esteja sentada aqui, no banco sábio, no lugar em que passei a maior parte do tempo. Ou passo, há alguns poucos anos já. Não vou voltar aqui ainda este ano (que eu saiba) e não será (ou não precisa ser, uma despedida. Mas parece que é bom marcar esse momento, que marca tantos outros, que dá tanto significado. E acho mesmo que acredito mais em até logo do que em adeus.

Até logo, banco sábio.


Post scriptum de enlaçamentos e afetamentos:

E foi com você, meu amor, que ví o por do sol, você que me faz sentir espontaneamente todo o amor que existe em mim. Entardecer que me faz ver, no horizonte, luz. Esperança.
E encontro a plena paz, silêncio, calmaria, que habitam em mim e compõem quem sou.

Fui, mesmo, costurando todas as coisas que existem em mim. Com agulha e tantos barbantes, vou produzindo um trançado, que é a vida.
E pensar, mãe, que essa era sua atividade preferida.

É bom ir assim, tecendo alguma coisa, que pode se transformar em beleza ao final, ou pode ser desmanchada e refeita tantas vezes. Tendo a linha, que sou, tranço uma vida que puder sentir.

E faz sim, sentido, falar em amor e em quem se ama, quando se fala em adeus. Me faz pensar em todas às vezes em que ao final de uma ligação disse "tchau" e poderia quase ter sido ouvido um "te amo". Porque talvez fosse mesmo. Ligações que a gente faz pros outros, queridos. Pra gente mesmo. Pra vida.

Olhos banais

São coisas banais da vida, que passam despercebidas por nós, mas que vez ou outra a gente repara nessas coisas e elas acabam fazendo diferença em nossas vidas. Da última vez, eu estava entediada quando reparei em um lindo par de olhos - com certeza os mais lindo que já havia visto. Fiquei encantada, por mais que não soubesse exatamente porque. Todos diziam que eu estava louca, que eram olhos quaisquer... Mas eu sabia que não.

No fim, deixei passar, não me permitiria fazer nada muito fora do normal, não via graça. Contudo, nunca conseguí esquecer aqueles olhos que sempre pareciam caminhar comigo desde então. Olhos profundos, intensos, que brilhavam, que muito escondiam. Olhos belos onde me perdia. onde me achava... Tudo de uma vez.

E ainda bem que esse par de olhos também me viu, e o dono quis me presentear com eles. Olhos que mudaram a minha vida, que vieram para ficar durante um bom tempo. Olhos que me olham, que me sorriem, que me abraçam, que andam de mãos dadas comigo e que hoje cuidam de mim.

São olhos que me dão um novo sentido para as coisas.

Um aviso: cuidado com as coisas banais, que de repente podem te pegar distraído e te virar do avesso.

- 2012

Às vezes você tem a sensação de que tudo vai chegar ao fim, de que não há mais nada a ser feito na vida: nenhum plano, sonho, vontade... Nada. Mas existem coisas e pessoas que podem, também, em um instante, fazer tudo mudar. Um sorriso bobo, uma pessoa, boas risadas com alguém, um abraço, o céu ou qualquer outro pequeno detalhe pode fazer a diferença. O modo como se vê e se está aberto para as coisas também influencia... O mais importante é você, como se sente, o quanto se gosta, o quanto seu jeito pode contagiar alguém.

A vida é realmente feita de momentos: alguns bons, alguns sem sentido, outros ruins... Mas a essência é que pode te trazer força. Como você vê o mundo hoje? Sendo pouco materialista, o que importa é minha relação com as pessoas e com a natureza. E assim, posso me sentir privilegiada: sou apaixonada pela vida pelo que ela é de verdade. Uma doce ilusão.

Gosto de viver voando, mas é com muita frequência que não consigo manter vôo. As coisas às vezes parecem ser mais difíceis por eu meio que não me encaixar naquilo que a sociedade diz ter se transformado. Mas vou aprendendo, me mantenho em silêncio ou falo somente quando necessário... E logo as pessoas e a natureza vem ao meu encontro. Hoje, já me conformo melhor de que não vou viver em um mundo perfeito, onde posso mudar as pessoas e fazê-las acreditar naquilo que eu vejo com o certo, mas posso me tornar uma peça de suas vidas, bem como elas podem na minha.... E assim, vou daqui de cima do céu, vivendo o que é belo, fazendo o que eu gosto, e sendo como sou.

- 2012
Olho para o céu e vejo que as nuvens escondem o sol, que consegue aparecer muito pouco... Bem como eu escondo as coisas que sinto. Será por medo, será por motivo algum? Não sei explicar o que acontece, mas há algo automático em mim que faz com que eu me feche, prenda e guarde isso, como se fosse somente meu. E eu acho injusto fazer isso comigo, com as pessoas... Não deveria ser um direito sorrir tendo a beleza que é o espetáculo que ocorre quase todos os dias no céu, quando o sol surge no meio das nuvens?

E, com isso, o céu fica vazio. Tudo vai embora... Bem como os sentimentos e pessoas que eu deixo passar. Às vezes sinto um tanto, mas às vezes não sinto nada, como se fosse uma consequência. E eu sinto que, se eu não fizer nada, não me esforçar para mudar isso, continuará a acontecer. E o meu grande receio, mais do que demonstrar e confiar nas pessoas, é perdê-las... Um pouco contraditório, ao que me parece.


Todos somos como um céu, com um coração representado por nuvens, cheios de sentimentos, como um sol. Mas o sol nem sempre espera... A função dele é te fazer feliz, porém se você demonstra não o querer e não se importar, tende a acabar como um céu sem nuvens e sem sol, que aos olhos das pessoas são tristes e feios, e poucos querem se aproximar.


Um fato sobre os céus vazios, que poucas pessoas sabem: pessoas são capazes de enchê-los novamente de sentimentos e alegrias, basta que fiquem por perto.

E que o céu desta vez venha diferente.

- 2012

Uma descrição

Parece que passa tão rápido.
O dia.
As horas.
Os pássaros.
A vida.

Parece que demora passar.
O frio.
O calor.
A tristeza.
O sabor de chocolate na boca.
O amor - quando a gente pede pra que ele fique.

Parece que há momentos em que vou desabar.
Quando sonho.
Perto de você.
Quando durmo sem dormir.

Parece que só faz sentido quando eu acredito.
O tempo.
Deus.

Parece fazer diferença em minha vida.
Lembranças.
Amigos.
Família.
Música.
Abraços.
Sorrisos.

Parece ser a minha fuga nesse mundo.
Andar e cantar sem destino.
Conversar sozinha.
Estudar.
Olhar o céu.
Escrever.

Parece ser meu destino.
A morte.
Imaginar aquilo que eu queria viver.

Parece que sempre vai tirar lágrimas minhas.
Um filme.
Falta de consideração.
Patadas.
Ver alguém chorar.

Parece me deixar com mais saúde.
Sorrir sem motivo.
Estar perto de quem amo.
Ir bem nas coisas que faço.
Ajudar as pessoas.
Ler.

Parece que passa pra não ficar.
Detalhes vistos pela janela de um ônibus.
Pessoas desconhecidas.
Saudades de você.
O sabor de uma comida.
Irritações.
Todo e qualquer momento.

Parece fazer sentido sem fazer sentido algum.
Esse texto.
Eu.
Você.
O mundo.

- 2012

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O marasmo do sentido

Eu queria poder esperar até amanhã para escrever. Mas eu não sei esperar. E até amanhã ainda correrá muito tempo. Tempo que não sei se posso suportar. Me suportar.
E por falar em tempo, a primavera nunca vem, a primavera só durou uma semana. Primavera, o que aconteceu com você?

Não sei de primavera, não sei de um sentido para a vida. Só sei do grande nada que sou. E do grande vazio que sinto.
Também não sei se sei como estou, estou num grande oceano. Sinto as águas se moverem para todos os lados e eu, de algum modo, consigo boiar, e manter a cabeça pra fora. Talvez o que me mantenha ainda seja o amor que, guardado em mim, é potência de vida. Inspiração. E todas essas palavras que a essa altura seriam tardias, não fosse também o seu amor, que caminha ao meu lado e me abraça bem forte.

Mas as lágrimas escorrem quando você se vai. 

É triste mesmo, quando a gente se sente só e sem sentido na vida. E eu sinto medo. Como uma criança indefesa. Ou uma criança é o que gostaria de ser? 
E eu poderia, mesmo, criar uma porção de coisas, e viver. Mas ao criar um sentido, eu também o vejo como um sentido vazio, porque sei como as coisas são e fico querendo que sejam de outro modo.
E eu posso criar um sentido? Há algum sentido?

Talvez o problema seja querer olhar pra frente sem viver o agora e olhando para trás. Me encontrei pensando nisso porque uma tecla ré do meu teclado, uma das mais altas, não funciona. Porque eu não posso querer voltar querendo seguir. Não posso. 

E também não posso querer seguir com algo que não seja o que realmente importa...
Ah, sim, o amor.

O amor é aquilo que habita em mim, embora não consiga se expressar, porque eu sou apenas uma flor murcha. 

Eu mesma nem sei se nada. 
Talvez porque seja tudo meio diferente, e mudanças são difíceis. A gente fica meio desprotegido, desamparado. E eu só quero acreditar que é isso, que é cansaço, e que não é o fim. É...

Mas eu sinto tudo rodando, muita coisa e tudo intenso, e meu corpo cedendo, só sendo demais. Às vezes, é demais. E a vontade é de bater a cabeça bem forte contra a parede, ou quem sabe pular da passarela, porque simplesmente sentar em um banco, em silêncio, não tem sido suficiente. Porque estar só tem sido sem de fato ser um grande marasmo. Eu queria querer gritar bem alto, ao invés de enfiar a cabeça no travesseiro e chorar até faltar ar. Eu queria sofrer um grande apagão e esquecer de tudo por algum tempo, como sempre fiz. Mas tenho sido incapaz mesmo disso, e tenho que me levantar todas as manhãs e me deparar com uma grande bagunça nos lençóis de quem revirou na cama sem dormir a noite inteira.

Às vezes, parece que a vida é só um grande caminhão que passa sem me ver e me atropela. Eu sobrevivo, mas não sei lidar, eu fico paralisada, observando tudo passar, tudo que passou e sem saber se algo novo há de passar. Como se tivesse morrido para mim mesma neste atropelamento, mas estranhamente estivesse viva. O corpo se manteve, mas a alma é só um fantasma.

Invisível. Buscando a travessia, a passagem, que leve pra qualquer lugar que não seja ficar e estar aqui. 

Mas estou aqui.

E mesmo escrevendo, não encontro nenhum sentido, só vejo um monte de palavras agrupadas e perdidas, no fim formando um grande nada. O grande nada que sou.

E mesmo assim, eu também não paro de seguir. E só paro quando o amor deixar de existir em mim. E isso, eu sei que não vai. De criança, eu digo que não vai. Pode até doer, posso até sofrer, mas eu não posso deixar de acreditar no amor. É o que sinto. É talvez o que faça sentido. Amar.


A verdade mesmo, mãe, é que amanhã é seu aniversário. E eu queria que pudesse ser real. A sua presença aqui. Bem como as respostas que sonho para as cartas que te escreví todo esse tempo. 
Se ao menos a correnteza desse mar me levasse até você, seria um pouco menos pior. E eu vou tentando me agarrar a outras pequenas coisas, até que esse dia chegue...

Mas a gente vai se falando. Porque eu vou te escrever. Não vou te esquecer. E eu vou te amar, e vou amar com esse amor que você me ensinou.


E pra quem me ver sorrir, não esquece de olhar nos meus olhos, esses que eu escondo, e carregam o peso de um grande marasmo, a tristeza nos olhos de alguém que gostaria de existir na primavera que há....

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Mais sobre dentes de leão (ou quem sabe de mim mesma)

Dia desses, minha vó me contou que quando eu era pequena, no caminho para a escola, eu gostava de pegar flores e levar para as professoras. Eu colhia a Taraxacum, a florzinha amarela que dá em todo lugar, que ao final se torna o famoso dente de leão, que a gente assopra, e voa, dando mais flores por aì, às vezes pra bem longe. 

Pensando bem, humanos são como dentes de leão. Empesteiam por todo lugar, são florzinhas, que se fazem jardim na vida um do outro, e podem ser soprados e voar, às vezes pra bem longe, às vezes mais de perto. Mas são belos, e sempre trazem novas florzinhas.

E, é claro, dentes de leão são diferentes entre si. Alguns voam mais rápido, outros sequer voam ao serem soprados. Alguns se espalham, outro caem nos pés, no chão.

Alguns, a gente só avista de longe. Outros, a gente quer se aproximar, quem sabe mesmo soprar e fazer voar. Aquela sensação boa de se ter.

E pensando mais, eu também sou um dente de leão? Pois é, de alguma forma não estou de fora de nada disso.

Engraçado mesmo, é que às vezes a gente mesmo se faz soprar e voar, pra qualquer direção, em disparada, dispersa. Deixa qualquer ventinho fazer a gente levantar voo, ou a chuva nos molhar até não dar mais. Quando a gente se dá conta, vê que perdeu o controle, que não dá pra parar, mas quer parar e não sabe o que fazer.

Buscar calmaria entre outros dentes de leão? Fugir de todos eles? Ceder e deixar murchar? Manter-se ali, mesmo sem aguentar? Ir descansar? Parar ali mesmo?

Ultimamente, eu bem tenho preferido o meu cantinho. Mais reservada, aquele dente de leão sozinho, longe, tentando me proteger. De mim, de todo o resto. Meio em vão, meio que melhor. Na verdade, buscando algum tipo de cuidado.

Na verdade, eu gosto de chocolate meio amargo, e procuro sempre um meio termo pras coisas. A intensidade costuma me ganhar, mas-meio-tento-que.

Aquela coisa confusa, que passa sem passar, tipo um sol de fim de tarde, também chuvosa, com um arco iris para os que param para refletir. 

Cansada, esgotada, eu encosto a cabeça no banco do onibus, parado no transito, e me deixo dormir. Diferentes músicas que tocam em minha mente, o tempo inteiro, não me deixam. E depois, eu sei que teria que enfrentar a chuva lá fora. Mas com calma, sem pressa, devagar. Buscando desacelerar. 

Abro o guarda chuva, embora nessa abertura, mesmo que sendo pra me proteger, eu acabe me molhando. E vou. No fim, saio toda molhada. É uma coisa bem do que é a vida mesmo. Não importa o quanto se tente fugir, ou acabar encarando demais, a vida está simplesmente lá. Às vezes para ser vivida intensamente, com um milhão de tarefas ou pessoas. Às vezes mais calma, embora também intensa, para se deitar na grama e olhar o topo das árvores, ou sentar em um banco, em silêncio, ler um bom livro, cantar músicas melodiosas. 

Eu prefiro uma mistura de tudo. E por isso, às vezes sinto que... Nada. Como os dentes de leão, que em um momento são singulares e, noutro segundo, com um ligeiro sopro, se torna várias partes soltas. 

É, e a chuva me molhou. Protegí a cabeça, mas os pés se molharam. E o que seria da cabeça sem os pés? Dizem que a gente sai na chuva pra se molhar, mas nem sempre, nem mesmo eu que não gosto de guarda chuva penso isso. Às vezes a gente até tenta não se molhar muito, mas vai molhar, ou não. E pode até ser bom, aquela história de lavar tudo, é verdade, embora a gente possa vir a preferir estar sentado na cama, olhando pela janela a chuva cair lá fora. 

Em casa, sem energia, sem luz. Eu queria desacelerar, mas eu também tinha muito a fazer. No que velas podem me ajudar, se já me desfiz mais do que cera derretida? 

Quando eu era pequena, eu tinha muito medo do escuro. Tinha medo de não ver, medo do que não poderia ver, medo de estar só. Imagino os dentes de leão que tem medo de voar. E agora, nesse estado de sei lá o que, eu ainda encontro isso em mim. Mas eu também penso no quanto estar em um quarto escuro, livre de qualquer estímulo, pode ser maravilhoso, quando eu só preciso dessaturar, quando há em mim mais do mundo do que de mim, um novelo embolado que só, mais do que eu possa aguentar.

E de novo, eu me pergunto: por que vou sem freio? Por que me levo até o limite? Temos que encarar tudo? Viver assim?

Mais calma, eu só penso no dente de leão que sou, em um campo verde aberto, que espera ser apanhado pelo sopro mais leve, que faça voar como que de braços abertos, sentindo o ar, e todo espaço, com um sorriso singelo e terno. Não sempre assim, às vezes criancinhas esperançosas podem querer colher, também sorridentes e singelas. Mas o importante é lembrar que é possível voar e semear mais longe, um pouco de amor e bondade (ou quem sabe esperança) por aí, e um pouco de calmaria e completude aqui.

Só quem sabe num próximo voo eu me deixe um lembrete, uma carta, um e-mail, seja lá o que for, desde que diga: cuide-se; para lembrar de não me esquecer.

domingo, 19 de novembro de 2017

Julio
Era um bem-te-vi
Bem sensivel

Todo curioso
Passeava
Por todo o corredor

Saltitava
Aqui e acolá
Até subia nos bancos

Olhava
Pra todos
Por todos

Com um interesse todo desinteressado

O que Julio
Nao sabia
É que quando o vi

Bem-te-vi.

sábado, 11 de novembro de 2017

A vida
Nem sempre pode ser suportada
Impossível ser vivida

Uma sensação de não caber em mim
Misturada com pleno vazio
É o que hoje sou

Não estranhe se caminho devagar
Se passo em silêncio
Se evito olhares
Se estou ausente:

Também estou assim pra mim.

Turbulência
Pane no meu sistema
Me sinto correndo dentro de mim
Tentando fugir
Desse lugar que estou

E no meio de todo o silêncio
Posso ouvir meus gritos
Que fazem eco no meu peito
E na minha mente

Tente ter cuidado comigo
Porque eu mesma não tenho

Também sou sensível
Também caio
Também gosto de ser ouvida

Se sorrio o tempo inteiro
É porque sou assim

Mas não significa que estou sempre bem
Que sou forte
Que não posso desmoronar

E por isso agora estou em silêncio
Olhando para o longe
E me perdendo aqui dentro

Não quero ser notada
Mas existo também
Se não for assim
Eu mesma ponho um fim pra mim

Afinal, dentes de leão às vezes gostam de simplesmente estar
Antes de voarem num único sopro

Talvez
Não seja a vida
A questão
Pode ser
A compreensão

Qual é a intenção de toda a intensidade?
O correto e o bem também demandam demais

E pra que
Se pra ninguém importa?

E se no fim
Não estou em lugar algum?

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Sobre crises existenciais e outros envolvimentos

O mundo não é o conto de fadas que sonhei, vivo sonhando, achando que vivo ou que posso viver. Mais uma das duras afirmações que digo para mim mesma, enquanto vou cambaleando e desmoronando, segurando as lágrimas. Remoendo eventos e preocupada em produzir, resolver tarefas, dar o meu melhor e estar presente e ajudando as pessoas, eu me levo ao limite. 

Chegar ao limite, que eu me refiro mais a uma estafa mental e emocional, do que física, embora ambas estejam presentes, é como as cenas daqueles desenhos, em que personagens entravam em uma canoa, em um pequeno barco e desciam o rio, mas não esperavam que ao final dele houvesse uma queda d'agua. É como sair correndo e cair de um precipício. É estar na janela do ônibus e ver o espaço entre ele e o caminhão se fechando e deixando de existir, como se fossem bater. É como atravessar uma rua correndo e o carro frear com você parado bem na frente dele, num dia de chuva, com todas as luzes e buzinas da noite. É como nadar, mas por um momento se afogar, engolir água, perder a respiração, ser incapaz de abrir os olhos. É como simplesmente não conseguir subir uma rua, para mais uma aula, com o horário apertado e corrido, sentindo as pernas cedendo, as lágrimas surgindo nos olhos, a respiração ofegante e o coração angustiado, como se fosse sofrer um apagão, e sendo incapaz de me sentir viva, existindo de verdade. Não encontrar paz dentro de si, não encontrar a si mesmo, é pior do que encontrar fantasmas ou encarar monstros, é não enxergar uma luz no fim do túnel, um caminho para seguir, porque não há sequer estrada.

Há um inferno angustiante dentro de mim. Deixo a música tocando e vejo, fora, o céu mais magnífico. Deito a cabeça no banco, o ônibus sobe a estrada e as árvores vão passando. Fecho os olhos, e o sol vai entrando. Lembro das luzes da antiga casa, que fui apagando uma a uma, e fui me deixando no escuro. Parecia o anoitecer que trazia o vazio, para dele criar novas esperanças. Mas na verdade, era só eu levando meu emocional mais e mais ao limite. Como agora, que tenho sentido uma enorme vertigem. Tontura, tudo roda, a visão quer apagar. E giro, giro, em torno de mim mesma. De quem?

Às vezes, a frieza e insensibilidade que vejo ao meu redor, nas pessoas durante o dia a dia, nas coisas, nas tarefas a serem realizadas que não trazem sentido ou motivação, no modo de viver do dia a dia. Por que é que tudo precisa ser tão rápido sem haver tempo para parar e processar? E de que adianta ser tanta coisa e em tanto tempo e tão veloz se não marca, simplesmente passa? Onde está a intensidade das coisas? Onde está o simples, o belo, o puro, o natural?
Bem, costuma estar aqui, dentro de mim. 
Pois é, eu sei que deveria ser suficiente, para manter, mas eu convivo num mundo, com uma humanidade. Há relações, compartilhamentos. Há influências, marcas, interferências. 

E assim, eu me encontro em uma profunda solidão. No meio de um monte de gente, na ausência do meu eu, que já não consegue mais gritar, e meu corpo grita de extremidade a extremidade, desesperadamente, procurando-o. Não é exatamente uma solidão de sentir só, mas de se sentir vazio, ausente, fraco, fragilizado, vulnerável, desamparado. Porque às vezes, não é que falta um ombro amigo, mas falta um significado. 
Num próximo encontro de corredor ou de ônibus, vão me dizer que posso seguir e construir vivendo todo o sentido que eu quiser. Mas eu posso mesmo? Na próxima sala que eu entrar, vão me lembrar de algo que precisa ser feito, vão me dar uma nova tarefa, e a minha lista vai aumentando, sem que eu seja capaz de fazê-la com qualidade: vou seguindo, completamente multitarefa, desfocada, correndo pra terminar no prazo. E vão dizer: você faz muita coisa, você sempre diz estar sobrecarregada, você dá conta de tudo. E olha só, eu havia seguido antes toda a ideia de "siga a vida sem medo e realize mais". 

Respeito? Autocuidado? Passo a maior parte do tempo pensando, em coisas e pessoas, e a outra parte do tempo... Também. E eu nunca encontro uma forma de estar bem encontrada, de encontrar um nivelamento entre o fora e o dentro, entre o que sou e o mundo.
Tempo. Preciso de mais tempo. Para processar, entender tudo em cada detalhe, pra entender tudo de um jeito mais complexo e completo. Mas se você atrasar, esperar, diminuir o passo... O relógio corre. O trem não espera. Ou melhor, o ônibus passa e você o assiste indo embora pela passarela. O ônibus é a vida, e a passageira tem tanto medo e preocupação de não perder o próximo ônibus que ela esquece as bagagens, esquece as passagens. Esquece a própria passageira. E paralisa. Ciclo vicioso de um ônibus que nem é circular.

Segundo um e-mail que recebí, estou em um local chamado "área de sombra", cujas árvores e prédios altos interferem na chegada do sinal da rede. Ah, tá, agora entendí. Tem um monte de coisas que me impedem de enxergar o sentido, o que realmente importa ou sei lá, são simplesmente barreiras que não me permitem ser quem eu sou. Quem as trouxe, se o universo, os outros, eu mesma, tanto faz. 
Me guardei em uma caixinha, fechada e escura, para ninguém ver nem ouvir. Nem mesmo eu. Mas eu sei, eu acredito, que é uma caixinha daquelas em que se dá corda, se levanta a tampa e pronto, a bailarina dança enquanto a música toca. 

E logo eu que sempre gostei de um paradoxo, não ia perder a vez. Foi caminhando pelo mato, após encontrar algo como um jardim de dentes de leão, com que há tanto tempo sonho, que eu pensei sobre envolvimento, palavra que explica bem mais coisas que a dicotomia superficial e profundo. Às vezes, a gente se envolve em tantas coisas, tarefas e preocupações, que a gente esquece do crucial, que é se envolver na gente e com a gente mesmo. Parece até uma grande bobeira, mas eu não sei quando foi que me abracei, me apeguei e me defendí, não me deixei levar. Quando foi que me envolví comigo mesma? Na primeira chance que surge, eu me deixo levar pelo que têm a dizer. Eu me desprezo, me ignoro, me esqueço, me apago. Me risco do desenho da vida.
Estou em um local chamado área de sombra para mim mesma. Sempre me fechei, para os outros e para mim. Na caixinha, me escondí. Porque, não sei. Talvez medo da vida, de encontrar demais a beleza dela, mas de me perder do simples, me tornando individualista e voltada demais para mim, esquecendo o que é altruísmo e a contemplação da vida.

Acho que eu só preciso de sossego. Paz, quietude, calma, tranquilidade, repouso. E aconchego: me aninhar em mim, ficar bem, fazer do meu corpo lar para meu eu, ao invés de uma velha caixa. É chegar a outro limite, que não é risco, é não é aprisionamento; é compreensão, definição. Elucidação, expressão.
Vou debilitada, um pouco melhor. Preferindo ir um pouco mais fechada e só, mas muito mais presente e plenamente. Não vou evitando as multidões, mas vou tentando compreendê-las melhor. E pensar demais, nunca será demais para mim. É como sentir sem saber colocar em palavras. Faz parte de mim. Afinal, a gente sempre fica um pouco na área de sombra, o sol ou a chuva às vezes são meio fortes e sentar embaixo da árvore é sempre bom.
Repito interruptamente para ir com calma, sem me exceder. A gente pode não ter tempo, porque ele passa rápido demais, mas a gente tem que ir tempo ao tempo. É preciso, no mínimo, se recompor, encontrar forças, simplesmente ficar bem. "E tá tudo bem", repassou a amiga a sabedoria que aprendeu. Tá tudo bem. Mesmo que venha a próxima onda. Eu só não quero ser arrastada, porque não sei se conseguiria respirar e nadar. Simplesmente poderia me afogar e afundar. E aí, não tá tudo bem. A bailarina quer sair da caixa e dançar. A passageira arrumou as malas para entrar no ônibus e viajar. E a vida vai, vai. Respirando. 

Respira mesmo. É a crise existencial que me envolve para me lembrar que eu existo sim, e posso me acalmar, porque só se desequilibra quem se envolve e se empenha na caminhada pela corda bamba da existência do viver. E tá tudo bem.
Cada passo
Descompasso
Sinto meu peito aberto e exposto
A todo esse frio.

Gelo
Vazio
Insensivel
Os olhos pesam: não vou suportar.

Estou no limite
A vida perdeu o sentido
Só há desanimo
E a perda de mim mesma.

Me sinto só.
A caminhada parece cada vez maior
Preciso chegar ao destino final
Preciso chegar ao meu fim.

Não suporto a dor
Nem o desprezo do mundo
Sobre as minhas emoções

Perdi a vida
Da minha própria vida
Não há energia
Não há sentido

Sinto meus pés cederem
Junto ao peso dos olhos
Que se transformam
Em lagrimas:

Vou cair.

Agora
Estou em algum lugar
Que não é meu lugar
Não é lugar nenhum

Não é nessa sala
Não é no mundo
Não é no universo
Não é dentro de mim.

Me perdi
E não estou aqui
Existindo
Perdi minha própria existência.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Mudanças

Caminho na beirada da calçada, me equilibrando. Me imagino caminhando nos trilhos e o trem simplesmente vindo e passando sobre tudo o que sou.

Não consigo mais assistir aos filmes, porque eles são sempre a mesma coisa, uma mesma coisa que eu já sei, e não quero saber. Talvez como a história da minha vida.

Eu vou mudar de casa, de endereço. de bairro, de cidade. E o quanto tudo vai mudar? Toda a minha história continua a mesma, intacta. E de vez em quando, eu posso guardá-la em caixas e sacos, e levá-la para outros ares.

Os pés, já nem sinto mais. E a minha bagagem emocional é muito maior do que tudo o que tenho para carregar.
Essa marcação espacial tem mexido com tudo. E eu, sou um guarda chuva molhado, num temporal, cujas percepções e sensações são como as gotas da chuva de um grande temporal, que pelo guarda chuva vão pingando e pingando. Mas o temporal pode, às vezes, ser devastador, ainda mais em uma subida, em que a água vai contra você, e você pode se molhar ainda mais.

Dizem que a chuva, quando molha, é pra lavar tudo. E eu espero mesmo que depois fique aquele tempinho bom. Mas acontece que as poças de água também ficam, e elas demoram pra sumir, o que me preocupa. Toda essa desregulação emocional cansa demais. E eu só quero paz. Um silencinho interno e externo bem bom.

No momento, não o encontro. Só uma grande bagunça. Uma grande confusão. Mas eu espero encontrar, numa próxima esquina, ou no próximo abraço seu e no seu lindo par de olhos quando te ver de novo, todo conforto e paz que tenho em algum lugar dentro de mim.

Inquietações. Toda a segurança, todo o comum ficando mais longe. Mudanças pra algumas coisas boas, mas desconhecidas. Difícil. As histórias ficam, bem como suas marcas, mas quando foi que eu disse estar pronta pra me distanciar ainda mais desse lugar onde cresci? Desse lugar em que compartilhei tantos momentos que guardo com a pessoa mais importante da minha vida?

É, mãe, você se foi, e a cada ano vou tendo que me desprender. Mas já guardei, mais uma vez, pra levar, um monte de coisas que me lembrem você. Não só aquela blusinha preta surrada sua que eu uso quase todos os dias, mas também o frasco do seu perfume, o saco das suas cinzas que joguei no mar, as suas fotos mais bonitas, e histórias.... Sem saber que tenho que aceitar, que não vou perder o que já perdí, mas que não perdí porque vou sempre amar e ter comigo.

Entrou um cisco no meu olho. E esse vai demorar sair, e correm lágrimas e mais lágrimas, mais do que a água da chuva corre.

Fecho os olhos e me imagino em seus braços, meu amor. As coisas às vezes são difíceis, mas a gente vai junto, de mãos dadas, em silêncio, adaptando tudo. Não há distancia que supere nosso amor. Eu acredito, e fim. E vamos bem juntinhos, seja como for.

Na estação Liberdade, muitos e muitos e muitos pássaros voam. Que será que isso quer dizer?
Não sei exatamente, mas às vezes eu ando e busco mexer os braços como se pudesse levantar vôo. Vai que acontece. Mas a liberdade é tão traçoeirinha quanto a felicidade, e é preciso estar atento para os poucos segundos em que elas vão passar pela gente.

Eu já nem sei mais, se toda essa confusão sou eu, se vem de fora, ou se dá na mesma. É tudo muito rápido, não sou capaz de acompanhar, e bum. Assim como esse texto muda de direção, dispersa e associa, sem saber pra onde vai, se é que tinha planos de chegar a algum lugar.

Pra falar a verdade, esses últimos dias foram mais difíceis. Muita ansiedade e tristeza, tudo misturado, num bolo só, com pequenas alegrias e novas esperanças. Mas eu me senti muito só, e simplesmente incapaz de me achar boa o suficiente e achar as coisas boas em qualquer medida.
O choro ia explodindo, e eu só não queria existir. Mas essa não é uma opção, nunca é.

Correta ou imaturamente, queria sumir. Quem sabe fugir para o nada? Para bem longe de toda esta cultura do provisório? É, mas não é uma opção. Nunca é. Será? Eu também não sei.

Eu só me sinto dando voltas até parar e sentir que continuo rodando. E tudo vai girando pra mim, ainda que tudo esteja no mesmo lugar. Ou não.

Mas vou, pensando no equilíbrio como a melhor solução.

Os cômodos vão ficando vazios e repletos de eco. Bem como dentro de mim, que as mesmas questões, pensamentos, emoções e conversas vão acontecendo, repetidamente.

E lá longe, numa caixinha bem pequenininha, que poderia ser esquecida na mudança, uma voz ecoa: não tenho medo de morrer, tenho medo mesmo é de viver.

E é.

Desde garotinha eu tive esse medo, e por isso me trancava sozinha e quietinha, apenas escrevendo todos os meus devaneios. Com o passar do tempo, a gente vai tendo que sair, e o lagarto vira borboleta (mais ou menos isso né?) e todas essas coisas. Mas quem é que disse que a gente quis ou aprendeu a lidar? Aconteceu, aconteceu. E agora vou sendo ser humano mais em crise que o mundo, embora vá girando no mesmo padrão.

Quem sabe esse medo não pudesse cessar aos poucos se eu fosse com você?
E quem sabe toda essa chuva não se transformasse numa lindo espetáculo de chuva de folhas?

Eu não sei. Cansada, vou simplesmente dormir. E vou sempre seguindo assim, sem nunca saber lidar...
E quem sabe uma mudança não surja e torne a vida um jardim ainda mais vívido, após tantos desafios, inseguranças e adaptações?

(Perdoem a confusão, tudo isso foi uma multidão de coisas, uma imensidão que acontece aqui, em mim.)

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A primavera chegou


Era dia, e eu só decidí ir até a natureza. Com o sol que nasce, indo e vindo, alternando com o vento gostoso que bate na nuca. E todas as árvores, flores e insetos que fazem seu movimento ali. O que fiz foi me juntar a tudo isso, só pra encontrar um cantinho de paz no meu peito também.

Se eu pudesse, eu seria um pássaro. Cantor, e que voa o mais longe que pode. 

Mas eu não sou, e talvez nem nunca venha a ser.

E foi assim, que eu fiquei admirando as borboletas que voavam, tão faceiras, por ali.
Então, pequenas esperanças pousaram bem perto de mim. Em forma de borboleta. Uma borboleta muito leve, que voava muito, e muito rápido. E que decidiu pousar em mim. Várias vezes. 

Será que eu poderia ser uma borboleta? Afinal, eu ainda assim poderia voar.

A essa borboleta, que se tornou uma amiga especial no dia em que decidí estudar na natureza, falta uma parte da asa. Ela perdeu em algum momento, de alguma forma. E eu disse que ela estava ferida. Estava mesmo?

Ela, eu não sei. Mas eu estou. Ferida por mim mesma. Que muitas vezes, simplesmente não respeito quem sou e até onde posso, devo, quero ou preciso ir.
E o corpo, psicossomatiza. Ele se destrói, como eu costumo fazer com todo o bem que tenho em mim. Autoimune.

Remédio. Acordar e tomar. Seguir.
Quem sabe com mais energia, com mais vida, mais alegre?

Na semana anterior, eu caminhava feliz, sorrindo e cantando, pegando flores e admirando o que quer que fosse pequeno e simples. Onde posso encontrar o belo. E a minha grande emoção era, na verdade, por estar viva. Ter sobrevivido. Chegado até aqui. Não ter desistido. Persistido. Exatamente há um ano atrás, eu me sentia totalmente sem saída e sufocada por tudo e todos ao meu redor. E não suportando, chorando, e passando pelos mesmos lugares, eu tinha pensamentos e desejos seguidos de como dar um fim nisso tudo. Que sou eu mesma. Que estou aqui.

Na volta dessa caminhada, eu olhei acima do telhado do corredor, e admirei as árvores que só se pode ver olhando para bem alto. Se eu pudesse, seria um pássaro (ou quem sabe uma borboleta?) só para poder ver esse espetáculo bem de perto. Para olhar as coisas mais de alto. Poder ser pequena, mas contemplar a imensidão das coisas. 

E é nesse mesmo corredor que está o banco sábio. Em que acabo gastando muitas horas do meu dia. Vendo passar tantas coisas, tanta gente, tantas pessoas. E eu, quando é que vou ter minha chance de passar?

Esse incômodo que cresce, que vem em forma de vazio, que angustia é disso. Necessidade de fazer algo que faça a diferença. Já que existo, o que é que eu posso fazer?

É uma alegria muito grande, ver as realizações, se sentir útil, colher as coisas boas. 

Por isso, eu roubei uma flor de primavera seca e uma que acabou de cair. 
Porque algumas coisas precisam secar para outras ainda melhores poderem florescer.

Ainda bem que a primavera chegou, pra florir não só o mundo, mas também o que há dentro de nós, e deixar irradiar as coisas boas que a gente esconde dos outros, e da gente mesmo. 
E quem sabe ela também não faça o favor de preencher com flores, das mais coloridas e alegres, todo o espaço que a ansiedade costuma encontrar e me dominar? Seria ótimo, e eu não precisaria, no caminho, sozinha, parar para eu mesma me abraçar.

Quero mais é fazer em mim um jardim de dentes de leão. E poder passear, sorrindo e achando graça na vida, muitas e muitas vezes ao dia.

Sabe o que é toda essa bobeira de insegurança? É o que já não cabe mais em mim. 
Por que é que sou assim? Pra que tanto medo? 
Encara a vida, faz dela sua também, uma parte sua, que já deveria ser, já que está aqui.
Não precisa evitar, fugir, chorar. Fica aqui. Pode ser quietinha, na sua. Mas fica.

É, eu sei. Eu aprendí a ficar. Precisei de uns anos pra me convencerem e me convencer, mas eu entendí partir cedo seria pouco, pra quem gosta de sentir demais. E eu fiquei. To ficando. Bem. Dou um sorriso pra quem me vê. Um sorriso pra vida. 

Bom mesmo é olhar pela janela. Tudo se move. Eu me movo. Uns chamam de paralaxe. Eu, de viver. E eu vejo o dia se transformando em noite. Uma noite danada de tranquila. Um cansaçozinho de um dia cheio, mas bonito. Floriu, floriu. E a lua bem sob a minha cabeça. Logo eu, toda meio lunática. 

Mas eu também gosto do sol. Que surge e vai embora tão grande, tão lindo, tão brilhante, mas escondido. Como é que pode, essa estrela, iluminar todo um mundo, mas se esconder, ficar tão na dele, e tudo bem? Talvez seja só isso... Ficar aqui, quietinha, fazer umas coisinhas boas por aí e tudo bem. 

Perto da minha casa, limparam um terreno. Nele, tinha muita sujeira e lixo. Mas tinha também muitas flores, folhas e dentes de leão. Quem sabe a gente não precise dar um fim em tudo, mas procurar ver o que há de melhor e cultivar?

E assim eu encontrei a minha missão: inspirar, seja como for. Ser luz, propagar amor. Gerar felicidade.

Ainda bem que a primavera chegou. É tempo de primavera, pro reflorescimento acontecer. De onde a gente vive, das pessoas próximas. Ou pelo menos da gente mesmo. Fazer florescer fora, e principalmente aqui dentro. Que floresça sempre aqui dentro, e faça transbordar até o mundo inteiro fora contagiar e florescer também. Não como um projeto de grandeza, mas quietinha, só mais alguém por aí afora vivendo. Eu, aqui.

E que a primavera chegue, mas não seja só mais uma estação que a gente vê passar. Que seja uma estação que a gente faça parar. Ou que a gente pare nela. Ou, ainda, que a gente siga nela e com ela. Pra florir. Flor. Rir. Ir. 

Já fui, porque eu quero flores-ser também, no meu próprio jardim. Ser dente de leão, sopro na vida. E voar, voar, como aquela borboleta, que um dia pousou e voou. Essa quero ser eu na vida: pouso e voô. Bem feliz.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Como você vai?

Se fosse possível representar em um filme o que acontece dentro de mim, seria um filme em preto em branco, em um quarto vazio e escuro, com uma garotinha sentada em um canto da parede, silenciosa, fechada, cabisbaixa. E seu único desejo, de tão frágil, é poder tornar-se pequenina, pra mais do que se esconder, poder sumir.

Como você vai?
Eu diria que não vou, se de algum modo não estivesse simplesmente indo. Como quem não quer ir, mas simplesmente vai. Porque é melhor. Ou a famosa resiliência. Resistência. Existência.

São dias difíceis, é certo. E a gente não quer existir. Não quer sair de casa, não quer fazer nada. Não quer sequer respirar. No entanto, sabe, ah se sabe, que se ficar só, é pior. A existência vai atormentar.

Julga tudo o que faz, tudo o que pensa e sente. Seu aspecto e aparência. Não vê sentido em nada do que tenta lhe estimular. Nada mais parece afetar. Não consegue sentir nada. E nem pensar. A mente, voa longe. Mas para o nada, para o vazio. No meio de tanta gente, de conhecidos, sozinha, sentada, olho longe. Nada.

Às vezes a natureza é capaz de trazer alguma ligação. Os pássaros que passam voando e cantando, o sol que toca as árvores, pequenos insetos passeando entre as plantas. E o meu coração perdido, entre uma canção melancólica e uma folha em branco. E só fica a contínua sensação de crise, pessimismo, negativo. Vazio. Simplesmente nada.

E esse nada, é tão cheio, tão carregado, que eu me sinto oscilar entre meu ser nem estar aqui e estar até demais. Como se eu me procurasse e ao mesmo tempo me sentisse como um fardo pesado demais pra carregar.

Me sinto banal, ridícula.

Uma perda de tempo. De um tempo que corre e eu nem vejo passar. Porque estou indiferente, a tudo. Desinteressada. 
Essa confusão é tanta, que a cabeça dói. Me sinto tonta. E eu sinto sono. Só queria dormir. Pra toda a eternidade.

Parece que falta aquela pontinha de esperança. Eu deixei de acreditar no bem?

Nada me anima, e eu quero fugir, esconder, sumir, chorar. Não sinto vontade de me mover. De andar, ou de falar. Parece que nem mesmo os cacos quebrados eu tenho para juntar.

Desvio das pessoas, para não esbarrar nelas. Quase que num sentido de não incomodá-las, num desejo de passar despercebida. 

Às vezes, a menininha se levanta do chão, anda em círculos no quarto. Ela sente medo e angústia. Não quer que os medos e fraquezas a dominem, toda essa estranha fragilidade e amargura. E ela às vezes até grita, erguendo os braços e correndo, mas parece que não pode ser ouvida. 

Até consegue escapar, em alguns momentos. Sorri e tenta interagir por aí. As pessoas perguntam: como você vai? E essa pergunta não encontra resposta, em lugar nenhum. E a menininha logo volta, dominada por essa falta de presença. E mil respirações pesadas e profundas. Falta o ar para preencher o peito ou o peito está cheio demais?

A menininha continua, no quarto escuro e vazio.

E então, fora, apenas me sento, em silêncio, e olha para o nada.

Tento dar um tempo. Em um lugar mais afastado. Até que de longe, muito longe, um dente de leão.

Uma nova missão, um sentido: buscá-lo.

Capturo-o, e retiro dele algumas sujeiras e bichinhos. Vou caminhando.

Como você vai?

Passeando, sem muito rumo. 
E vou tirando pequenas folhinhas brancas do dente de leão e vou assoprando, vendo elas voarem. Isso me faz, de algum modo, sorrir. 
Eu poderia achar que o sopro fazia voar, para bem longe, todos os meus sonhos, toda a paz que eu gostaria de ter. Mas talvez seja um sopro que leva toda essa coisa ruim, e traz, em troca, um pouco mais de amor. Pra uma vida mais leve. Uma vida que possa ser sentida como um sopro, ou vários deles, bem delicadamente.

Talvez não tão rapidamente. Se nem as pequenas partes do dente de leão podem voar tão rapidamente para tão longe, por que eu conseguiria encontrar equilíbrio tão rapidamente?

Encosto a cabeça no apoio da janela do metrô. Deita, deita. Já já passa. 
Fecha o olho, ou olha pra longe. Como você vai, Elo?

Vou, vou. 
Só vou. Só voo.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Relatos de um coração descontrolado

Tenho regras que nunca vou viver. É o que penso, enquanto viro em uma rua, pensando em completar tarefas chatas mais rapidamente pra depois ter todo o tempo do mundo pra descansar e fazer todas as coisas legais que planejei. E que tempo é esse que eu não ví? Só ví passarem um monte de lapsos de memórias e de tarefas, ao longo de todo o dia.

Caminhando pelas ruas e sentindo coisas, vou olhando ao redor e não consigo acreditar que sou desse tempo, que sou desse mundo, que sou dessa vida. Sou?

Me sinto perturbada, louca, fora do normal. Muitas coisas tem se passado pela minha mente. Coisas demais. Todos estes pensamentos tem drenado, roubado, sugado todas as minhas energias. Não pareço suportar. Nada. Nem o mundo aqui de dentro. E menos ainda o de fora. Parece que são coisas demais, para uma pessoa só. Para pouco tempo. Pra um único corpo. Pra uma cabeça só.

O meu corpo só tem cedido. Tem se entregado, pouco a pouco. Feito, tomado, domado e dominado. Pelo estresse. E quem é que aguenta, sabe lidar?

Eu choro, meu coração descontrola, me faltar o ar, o corpo dói. 
Coração, estômago, tontura, mal estar. 

Me desespero. Sustos. Pânico.
Lágrimas. E o olhar longe, ultrapassando a janela, o trem, a viagem.

Aparelho e fios captam as batidas do meu coração, mas meus pés já seguem o mesmo ritmo desordenado há tempos. E com isso tudo, eu mesma posso sentir meu coração bater muito forte, quase saltando pra fora da pele, rasgando tudo. 

Talvez meu coração exploda por ser demais?

Paralisa. Tudo paralisa. Menos a cabeça. A cabeça vem, eu me vejo presa dentro dela, tudo em torno dela. Tento me organizar, me acalmar, relaxar, tudo em vão. Vejo novamente o descompasso dentro-fora.

Paraliso. 
Já era. Vou cair.
Crises. Culpa. Cobrança.
Choro e choro. Não consigo dormir.

No meio de tudo isso, um momento bom. A música. Eu e meu violão. Canto. O céu e a lua linda, enorme. Cercada de pessoas queridas. Me sinto infinita. Me sinto plena. Posso me encontrar. Posso sonhar novamente. Não preciso de mais nada.
Fico agitada, atenta, alerta. Muito feliz. Tudo parece no lugar, harmônico, em equilíbrio. Sei quem sou, onde estou, para onde vou. 

É como me sinto quando vejo as árvores, e as abraço, um abraço longo. Ou quando o vento entra por debaixo da roupa e sol toca a minha pele, me aquecendo, me enchendo de vida. 

Eu vou e volto, vejo a vida passar, como as paisagens passam na janela do trem.

Ando muito confusa, me perguntando sobre o que realmente importa. Entro em crise. Me sinto desamparada. O que realmente importa?

Há coisas boas aqui, mas o conflito se mantém, porque minha cabeça permanece aérea, porque sou de outros ares, de outros ventos, de alturas que não permitem que os pés toquem o chão, mas que fazem com que a alma voe.

Como solucionar este conflito? Posso solucioná-lo? O conflito da minha existência?

Eu me sinto como aqueles bichinhos que voam desesperadamente, impacientemente, sobre as luzes, no calor.

Quero abraçar o mundo. Não dá. É grande demais. E eu me sinto pequenininha.
É muito difícil não desmoronar. Eu quero abraçar o mundo. Eu envolvo nele e ele me envolve. E assim vou. Vou e volto.

Tudo bem. Me sinto ótima. Fôlego. Tudo certo. Motivação e emoção.
E então o cansaço, o desânimo, a fuga.

O coração.
A frieza de todo o resto.

As pessoas olham fixamente para o aparelho e os fios. Querem saber como bate meu coração? Acham que não estou bem? Depende do referencial, e desse jeito eu me pergunto se eu tenho algum.

Poucos me notam. Os que notam, é desinteressadamente, procurando o que não vão encontrar. Mais um alguém. Ou ficam em choque, porque talvez suspeitem que não sou normal, que não sou daqui.

A dor aguda que sinto ao tirar os fios é a mesma que percorre todo o meu corpo. Eu corro, mas sinto o chão puxando e segurando os meus pés.

O mundo me assusta. Me encolho e retraio. Os olhos se entregam. Queria me esconder.

Me sinto como uma joaninha que faz de tudo para se segurar na ponta da folha de uma palmeira, enquanto o vento vem, com todas as forças.

Me sinto de um jeito em que não me sinto. 
É bom, porque tudo parece um pouco mais calmo aqui dentro. Mas é desesperador.

Não me sinto aqui. Alguém pode me amparar para eu me sentir aqui?

Deito. Não quero nada.
Queria um colo, um carinho, um abraço. Me sentir envolvida. Pra saber que eu estou aqui.

Pra saber que estou aqui sem ressentimento. Sem ódio.

Pra saber que estou aqui. Que existo. Que estou viva.

Todos os meus pedaços, que me fazem alguém, estão espalhados, dentro de mim, por aí afora, como a paina que se espalha por todo o chão da praça. Sento em um banco afastado da multidão. Recolho algumas flores e folhas.

E eu acabo sentada na plataforma, escrevendo ou lendo, vendo os trens e as pessoas passarem. Em algum momento eu me levanto, tomo um café. E vou e volto novamente. Quem sabe mais eu, como de vez em quando posso sentir tão integralmente. 

Mas sabendo que, independentemente de como o coração bate ou de que universo sou, a única regra que preciso pra seguir a vida bem é inspirar paz e expirar amor. 

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Pass(e)ar

Não gosto de dias em que o tempo está assim, confuso. Fresco, escuro, frio, nublado. Me faz sentir a frieza em mim, não só na externalidade e aparência do meu corpo. Não sinto o frio tocar delicadamente a minha pele. Sinto a frieza e insensibilidade tocar a minha alma, o mais profundo do meu ser. O interno, a minha intimidade. Não gosto. Sinto medo, insegurança, irritabilidade. Tédio, ausência de vontade de viver.

Sentada, agora, olhando pela janela do ônibus que me leva para novos ares, sinto rapidamente a luz perturbar meus olhos, que se esforçam para se manterem abertos. Mas eles logo cedem, e ficam só semiabertos, domados por essa frieza.

Me sinto calada e vazia. Ví pessoas se juntarem, aglomerarem, conversarem e rirem. Muitas vozes e movimentos. Diferentes mundos e preocupações. Onde eu estava? Sentada, distante, silenciosa. Pensando sem pensar. Olhando para o horizonte para olhar pra dentro de mim. E é com nada que me deparo. Onde estou? Onde está quem eu sou? Me sinto pequena, frágil, perdí o universo que me constitui. Vejo, então, fugindo daquela multidão, passando e atravessando a sala uma formiguinha, que é como me sinto nesse mundo, nesse dia.

Quem me dera poder contar as estrelas do céu! Ou contar às multidões o que se passa em mim. Verdade, verdade. Mas passa, passa.

Caminhei pela natureza. Também sem encontrar algo dentro de mim que pudesse expressar o que é que há. Me definí então pelo som dos pássaros, que voavam em bando logo pela manhã. Deixei aquele único som preencher tudo em mim. Depois, me sentei no bom, velho e sábio banco, e deixei todo o silêncio me invadir. Ao menos por cinco minutos. Sem pensar. Calma. Um respiro.
Nesses dias assim, tudo parece estar parado. O universo às vezes estaciona, é? E quem é que disse que os desvairados estavam prontos para pousar na lua?

Essa sensação de falta de brilho e energia na vida é percebida quando olho para dentro de mim e não encontro meus artifícios e artimanhas, o que tenho de maior e mais puro, que mantenho desde pequena e temo perder. É a esperança, o bem, o amor. A vontade de olhar para cima, de continuar respirando, de existir.

Nâo encontrar nada disso é desesperador. E vou me sentindo diminuir, sufocar, afogar, perder. Esvair e ceder. Desfalecer, alcançar as ruínas, chegar a ares insuportáveis de viver.
Mas passeio novamente, tento encontrar essa beleza por aí. Afinal, o que são todas as flores e folhas que coletei, os abraços e sorrisos que troquei? E todos os olhos que observei e o longe na estrada que percorrí?

Calma, lembra que no final do dia de ontem o céu, embora começasse a escurecer, tinha rastros, um grande traço vermelho. E como era belo! Portanto, se te faltar coragem, lembra do que já foi bom, resgasta essa velha força em você, de você para você. Ou por aí.

Parte de tudo isso é do estranhamento de não mais me lembrar como é não me sentir cansada. E de não me perder no meio de tantas realizações. Por que quem foi que disse que a felicidade é só boa? Bobeira. Passageira.

Caminho. Passo por debaixo das árvores, vejo as mesmas flores que roubei mais cedo. Silêncio, somente eu caminhando por ali. E sequer vejo pra onde essa estrada vai. Mas sigo, porque o importante é persistir, mesmo sem nada. Uma hora a estrada chega a algum lugar.

Lembro dos seus olhos, seu sono pela manhã, seu cheiro. Suas mão tocando as minhas, e o seu abraço que é meu aconchego. E o toque do seu beijo. Sorrio. Um pouco de luz me preenche. Ando mais um pouco, ando me equilibrando pela beirada da calçada, bobinha, mais leve.

Nessa semana, tudo o que eu mais queria era um dente de leão, pra pegar, assoprar, fazer voar para bem longe. Voar para longe com os pássaros. E quem sabe me levar. Ou ao menos fazer espalhar um pouco da esperança que guardei em mim pelo universo.

Não achei nenhum dente de leão. As flores ainda estão muito amarelas, ou os avisto de muito longe, de modo que não posso alcançá-los. Mais perto do meu destino, vejo novamente muitos, e sou incapaz de pegá-los.

O caminho que percorrí nessa estrada foi importante. Não posso me culpar por isso e nem esquecer, arrancando isso de mim. Aceitar. Aconteceu, passou. E tudo bem. Eu passei também, por várias coisas, momentos, pessoas, lugares. Travessias e passagens. Tudo passageiro. Pois bem, e o que não é?

Esse infinito é finito tanto quanto o finito infinito é. A estrada que não vejo o fim é uma passagem que leva a algum lugar, e passa. Não há nada que não passe.

Inclusive esse dia. É só mais um dia que passa, como uma semana que passa, um ano que passa, um milênio que passa. Como uma hora que passa, uma minuto que passa, um segundo que voa.

Eu quero passar nessa vida agora, pra voar bem alto sem temer um dia sequer.

Passou? Passou, já voei já por essa estrada que passa, passa, e só não passa mais que o que já passou. Porque a vida é no aqui e agora, e eu não tenho medo de sonhar. Cada vez mais forte. Longe desse pequeno espaço que o mundo nos fornece. Voando. Lá no alto. No universo.

Até pousar e tocar a lua.

E pass(e)ar novamente.

Lembrando sempre que na vida tudo passa e nada passa. Assim como a felicidade, bobalhona que é.
Tudo passa e nada passa. Assim como o amor, que simplesmente existe. Simplesmente é. Força maior.

E ao final do dia, estico o braço o máximo possível acima do mato, puxo um dente de leão. Assopro. Voa de uma vez. Fecho os olhos. Lágrimas.


Voa num sopro de um segundo. Tal qual a felicidade. Que passa e passa, passa tantas vezes que até marca e fica.