sábado, 19 de agosto de 2017

Resiliência

E lá estava eu. Cantando, com meu violão. Em um palco. Pequeno, coisa boba. Poucas pessoas. E a oportunidade de se sentir espalhando pelo mundo. Transbordando. Olho para o nada, sinto o sol entrando, bem no meio de tudo. E posso olhar para as árvores, pelas janelas. E assim eu evito olhares, e mais uma vez me volto para dentro de mim.

E eu me perguntava novamente, porque estava agindo assim. Porque estava vivendo novamente assim. Não que houvesse descoberto naquele momento, na verdade já sabia há muito tempo. Mas a verdade era crua demais para ser dita. Para mim mesma. 

A verdade? Me fechei dentro de mim.
Se quis ou não quis, precisei ou não precisei, não quero ser passarinho preso em uma gaiola, quero poder voar e cantar livre. Não quero morrer na gaiola, presa dentro de mim. É cantando, voando e vendo o mundo que eu preciso seguir.

Mas quente ou frio, cheio ou lotado, eu me guardei aqui. Bem quietinha. Sem vontade de olhar para nada nem ninguém. Apenas estando comigo mesma.
Com o tempo, os olhos pesaram. E fui ouvindo os passos de todos, inclusive o meu. Fui me perturbando, estando com pessoas sem estar com ninguém. Nem mesmo comigo. 
E a solidão, aos poucos, foi batendo. Solidão no meio de um monte de gente. Solidão de quem não se importaria nada de estar só, consigo mesma. Mas solidão de quem tem medo de estar só.

E foi assim que fui vendo pessoas indo para uma direção, enquanto as placas e setas indicavam outra. E eu achei melhor seguir as placas.

Certa ou não, a seta indicou a minha própria confusão. E eu quis me aproximar. Me aproximar sem tocar, sem entrar contato. Apenas sentar ao lado. Indiferentemente. Observando, rindo. Notando a imperfeição que eu me tornei.

Imperfeição cheia de marcas, ainda que a mesma pequena garota de sempre. Que se sentava na beira da cama, e ficava lendo e cantando. A mesma garota que quando o metrô entrava no túnel escuro ouvia aquele barulho quase que de modo ensurdecedor, e se imaginava indo para o espaço, para um mundo totalmente diferente do que vive. A garota que ainda hoje não sabe diferenciar flores de plástico das naturais porque, no fim, em ambas há naturalidade, e modificações.

E sentada, comigo mesma, só deixo o tempo passar. O tempo que tem um tempo diferente daquele que dizem que o tempo é. Esse é meu novo vício: o passar do tempo.
Não porque não importa onde eu esteja e quanto tempo passe, mas porque no lugar que eu estou, excessivamente me protegendo e evitando todo o resto, não faz tanta diferença. A distinção mesmo vem do bom e do ruim. E meu peito está repleto de flores, e espirais.

Folheio as folhas brancas do caderno. Repetidas vezes. Por um longo tempo. Vejo que ainda há muito para se viver.
E como vou fazer? Sem mim?
Ou melhor, estou comigo, e até demais.
Preciso me libertar. Sair daqui.
Preciso encarar tudo o que a vida preparou para mim. E ela preparou, a minha existência.

Onde foi que pousei meu helicóptero quando me tranquei nessa ilha?
Preciso dele, para voar para longe, para fora de mim. Porque, e ainda bem, o mundo é maior que eu, e eu quero fazer parte dele. Eu quero agir. Quero transformar. Quero existir. Quero participar.
Vou voar bem alto, mais alto que os pássaros, passeando sobre as nuvens, e planejando tudo.
Olhando para longe, contemplando a vida e tudo o mais, eu solto meu riso, e com ele vou surgindo.

Se fosse fácil....
O peito dói. As tarefas despencam. Me sinto só. Desmorono. Não consigo dormir.
Mas sigo. Firme. Só vou. Pra onde precisar ir. Para quem precisar de mim. Pro que eu precisar fazer. Com quem eu sou.
Quais são os meus limites? Eu os conheço? Eu os respeito? Ou apenas sigo cegamente? Cuido de mim?
Resiliência. É sempre meu próximo passo. Aguento firme.

O meu limite sou eu mesma. O que sei de mim, o quanto posso suportar de mim, e o quanto me prendo. Dessa vez, o meu silêncio não foi de paz. Eu pude ouvir meus gritos de silêncio, juntamente com as lembranças das noites anteriores, e todos os pensamentos que saíam em fuga da minha cabeça. E eu deitada olhando para o teto. Calma, mas passivamente. Sem conseguir lutar contra essa força minha mesma que se apropriou de mim. Uma doença autoimune.

E ouvindo uma música, escrevendo tudo isso aqui, posso sentir as luzes mais forte, o corpo se arrepiar por inteiro. Não posso dizer que é o meu retorno, pois os olhos ainda pesam, o olho ainda dói, a ansiedade me percorre toda. Mas também não é o meu fim. É só cansaço, e medo do todo, das tantas coisas. Vou ficar bem.

Calma, digo para mim mesma. Respira. Não precisa chorar. Não mais uma vez. Vai ficar tudo bem, você vai ver. Tudo isso passa, menos você. Você fica. Não tenha medo, não se esconda dentro de você. Venha, se sente neste banco. Olhe ao seu redor, existe mais. E ainda bem!
Pode chorar, não precisa ter vergonha, se estão olhando, se vão saber, ou se você está desamparada. Você também não está. Há tanto amor no mundo, e em você. Deixa as lágrimas escorrerem, com tudo o que você guardou aí dentro.... Inclusive você.

Queria saber se teria sido mais fácil se eu tivesse feito diferente, se eu fosse diferente. Sem ter me fechado, teria sido menos duro do que foi, ou ao menos pareceu ser? Distorcí tudo para o muito pior? Poderia ter aproveitado mais? Mais intensamente e verdadeiramente? Mais do que viví, aqui, dentro de mim? Ou foi assim e é tudo que importa?

Não queria ter acordado em tantas noites, sonhando, sufocada, desesperada, lembrando, pensando, sentindo, ansiosa, chorando. Não queria ter pensado tanto em tudo que tem para fazer, ou para falar. Só queria que o resultado final fosse tão bom quanto foi. Sem o nervoso e desgaste.

A verdade, mesmo, é que esse frio me tornou nostálgica demais. E negativa demais. Que isso passe e voe rápido e pra bem longe, como os dentes de leão.

Uma tarde no parque fez com o grande amor da minha vida refez a minha paz. Junto com os livros que lí, os filmes que assistí, as conversas que ouví. Com os abraços e sorrisos que troquei.
Eu sou mesmo assim. Meio trancada, meio fechada, e eu gosto de ser assim. Só não completamente.

Pelo menos uma vez no dia, eu gosto de sair e olhar para o céu. Desde que te perdí, mãe, eu olho ainda mais para o céu e para o nada. E como aprendí ouvindo em uma conversa de almoço nessa semana, eu não devo focar na morte, mas nas coisas boas que fez a vida enquanto a vida foi. Mais lágrimas. E o coração se acalma, límpido.

O céu se assemelha à minha alma, e por isso eu o contemplo. Às vezes branco, vazio. Melancólico, chuvoso. Às vezes alaranjado e roxeado. Sinuoso. E tudo termina em céu azul, repleto, completo, intenso, vivo, com ou sem nuvens brancas.

Fecho os olhos, e me imagino rodando, rodando e rodando. Até ficar tonta e cair. Caio sorrindo, feliz, e levanto. Sigo a vida, parando e procurando em toda esquina uma indicação de caminho certo e uma flor para agradecer. E sento, mais uma vez, para olhar para o nada, para trocar umas poucas palavras com alguém, lembrar do que tenho para fazer e do que me faz bem, e simplesmente seguir. Aprendendo e crescendo.
E quem diria, que do momento que poderia chamar de pior, eu sorriria para a vida e veria o encanto da dor, a esperança do amor e a beleza da paz?

Versos compreensivos

Se meus pés carregassem meu coração
Se a cabeça fizesse mais uma canção
A vida me diria sim
A esperança nunca teria fim

Às vezes, mesmo sem falar
Digo coisas ao mundo, com o olhar
Chamo a atenção e me escondo, ao mesmo tempo
E assim algo me cresce muito forte, no peito

Tenho um enorme descompasso entre o dentro e o fora
Nem parece que sinto demais e na hora
Mas quem é que disse que escolhí ser assim?
E assim há tanto, dentro de mim

Respirar sem sentir o ar
Denso, de quem tanto fez
E agora deseja descansar
Mas foi assim que o mal estar ganhou sua vez

Paradoxalmente posso sentir a paz
Lentamente, passageiramente
E assim vaga a emoção
Não em uma imensidão confusa e pensante

Mas em gratidão.

Esconderia esses versos
Tão ruins, feios
Confusos e errantes
Assim como vejo que sou.

Mas eles são a finita possibilidade de me expressar
De me fazer falar
Depois que eu me tranquei
Dentro de mim.

Confortavel e desconfortavel
Bipolar
Passageiro
Toda onda que vem
É de um mesmo mar

Boa ou ruim
Fácil ou difícil
E a vida segue
Paradoxalmente

Pra variar.

E é assim que sinto
Que esses versos podem nunca acabar

E sem se limitar vão
E eu também vou.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Senti(n)do para viver

Hoje o dia me trouxe uma nova conclusão, ou confissão. Revelações de nós para nós mesmos.
Se todos somos uma casa, eu sou um ninho de passarinho. 
Desses que precisa ser reparado a todo momento, pra não ceder. Desses que se desmancham ou são desmanchados por qualquer coisinha ou pessoa. E desses que se pudesse, acolheria todos os passarinhos que precisassem.

É engraçado dizer isso, e pensar nas coisas como são, e em como a vida acontece. Depois das tormentas e tempestades, do coração que tanto bateu acelerado até quase rasgar o peito - difícil de suportar - do ninho se manter ali no galho que é a vida, fica tudo bem. Como quando o sol nasce. E eu sei que virá um dia bom.

E eu deixo esse sol me tocar. Respirar e sentí-lo na nuca traz uma leveza incrível, quase me fazendo dançar, ouvindo música.

Me faz lembrar de mais um dia em que a solidão se aproximou, melancolicamente. Como um sopro, em que tudo rapidamente desliza e conquista o controle. E fui caminhar.
Caminhei até as pedras, onde me sentei, e olhei durante muito tempo para o nada, em silêncio. Ví pessoas passando muito longe, trilhas de formigas muito perto. E esse nada, embora árvores, distantes, são também aqui dentro de mim, para onde pude me voltar. 
O vento também soprava forte nesse dia. E parecia, aos poucos, tirar de mim todo o peso ou excesso daquilo que não sou eu ou simplesmente é demais. 

Pude caminhar mais um pouco, contemplando ao redor, as diversas flores, sorrindo, sentindo a grama a cada passo dado. Sentindo eu mesma aqui, como nunca antes. Um encontro entre amigas que às vezes se perdem na multidão, de pessoas e de coisas.

Fui para o cantinho de paz. Um lugar rodeado por árvores e grama, com muitos bancos. Gosto de sentar ali para escrever, deitar, organizar tudo. E foi onde me deitei, no cantinho de paz. Me sinto completa e infinita ao olhar para o alto das árvores e para o céu, com suas nuvens, com o sol.

E foi o que também sentí, ao olhar pela janela do ônibus o céu, dividido entre duas cores, azul e bege. A visão de tais cores se misturavam com o topo das árvores e suas diversas folhas sombreadas. Sua textura de areia me fizeram mergulhar em um encanto profundo, que trazia o despertar de uma vida nova a cada dia.

Posso dizer o mesmo de quando chovia, e ouvia as folhas molhadas escorregarem pelas ruas, fazendo um som de água. E eu olho para o céu, vejo as gotas caindo, brilhantemente. Caminho bem lentamente, ouvindo meus passos.

Tem se tornado cada vez menos estranho estar comigo.
Sem medo, constrangimento, desrespeito, a ponto de estranhar estar com os outros, se não forem boas conversas, risadas, ou um maravilhoso silêncio.

Apenas me voltando para o que me traz sentido. E reduzindo estresses desnecessários, antes que eu volte as pedras e estoure minha cabeça em uma delas.

Mas mais estranho é estar no mundo. Saber de todos os problemas, injustiças e coisas dolorosas que ocorrem e olhar para o mundo como uma sonhadora, hesitante, alheia, alienada, desejando a natureza, a essência e o que houver de mais puro, sensível e profundo. Jogando as fragilidades na frente, e acreditando que as coisas podem ser diferentes.

Diferentes de que modo? Devo chamar de escapismo ou realidade? 
Foi o que me perguntei caminhando pelas ruas do centro da cidade. Pessoas à vontade, felizes, quase como em um sonho. Será ilusão, será? 
Talvez seja se esquecer dos problemas por um momento. Talvez seja um momento para se lembrar de tudo o que importa e simplesmente viver. Depende do ponto de vista.

E eu já sei o meu.
A realidade social dói, ninguém vai negar. Eu não vou. Sonhando, eu sei. E em nenhum momento, desde pequena, deixei de pensar no que eu posso fazer por ela, por todos, por mim. E sonhando, vou.

Com frequência eu viro para o lado errado da rua, mas depois de caminhar por muito tempo vejo onde estou. E volto.

Às vezes é meio difícil se regular pelas pessoas, coisas e mundo. Lágrimas, desânimo, respirações profundas, desatenção, gargalhadas, gritos, barulho, e tanto mais. E às vezes é bom demais perceber tudo assim.

Sentindo e pensando demais, é como me vejo.

Quando eu era pequena, passava quase todo o dia lendo, escrevendo e cantando. Um dia minha mãe, preocupada, parou na porta do meu quarto e me disse: menina, assim você vai ficar bitolada. 
Talvez não estivesse errada, quando paro para refletir sobre o modo como lido com a vida. 

Na realidade demais, escapando demais. E eu acho que esse escape é tão real quanto todo o resto.

Sentir o céu próximo de mim. É o estado de espírito que defino a vida quando tudo flui.
Passarinho não fica o tempo inteiro no ninho. 
E voa para longe quando o olhar se perde pela janela.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Ansiedade

Acordo assustada
Um pulo, faltam trinta minutos -
Perfeito para por toda a preocupação em dia
O que falta? O que esquecí? Onde errei?

Não quero sair
Chove
Assim como mais tarde eu venho a descobrir
Um temporal dentro de mim

No meio disso tudo
Uma mutidão
Que empurra, pressiona e sufoca
Meus sentimentos vem e vão

O estresse cresce
Eu sinto que vou cair
Tremendo
Uma dor no peito

Pareço queimar
Calor, muito quente
Tiro a roupa de mim
Tentando tirar todo o resto

O resto só aumenta
Muito, demais
Explode e sufoca
Não dá pra controlar

O coração não sabe lidar
Bate, acelera, acalma
Dispara, sem parar
Quase foge de mim

Assustada e desesperada
Não quero ficar só
Que alguém me ajude
Paralisei

As lágrimas escorrem
Dolorosamente
O hoje não foi planejado assim

O estomago também vem
Ele e o coração estão alarmados
Ataque
Queria fugir

Queria não existir
Que sentido tem essa realidade?
Um gosto tão ruim

Abaixo os olhos
É melhor não ver
Toda a realidade
Desse dia que não escolheu ser

Preciso de alguém que me abrace

Parece que assim vai passar
Com um simples toque
E acalmar todo esse vendaval

E que eu dê um tempo pra mim
Dorme, dorme
Talvez desligada
Esse coração que não para
Fuja pra outro lugar


Rápido
Antes que as lágrimas voltem a desabar

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Sobre o viver

Tem dias que você acorda e não quer viver. Acorda porque o corpo te obriga, a vida e a rotina te obrigam. Como se esperassem algo de você. Na verdade, é você quem espera.

Mas sabe que não consegue. Seria mais fácil não viver. Ao menos por um dia. Como seria não existir?

Não tentaria, não pensaria, não sentiria. Não faria nada.
Não desejaria. Não esperaria.
Não.
Nada.
Sequer respiraria.

Inquieta, inconstante. Mudando de lugar diversas vezes. Caminhando como se um rumo pudesse surgir.

Se pudesse, o que escolheria? Como seria?
Quem você seria?

Companhias voláteis. Desconhecidos pedindo informações.

Fuga, para o mato, para o sol. Silêncio. Só restam os grilos, os pássaros e as folhas que se movem com o vento. Abelhas.

É nesse nada, nesse vazio que me preenche, bem intensamente, que me escondo de mim. E me encontro.

E nesses dias em que me desencontro, tudo vem a perder. Pensamentos atormentadores surgem, para por tudo a temer. E doer.

Quieta, disfarço, finjo que está tudo bem. Deveria dizer a alguém? Adiantaria?

Parece que tenho que viver. Disseram em todos os lugares. Então me distraindo, seguindo, me obrigando, como quem muito quer, eu vou.

Atropelando, passando por cima de tudo - e de mim - vou viver. Porque a vida, embora minha, é forçada.

Por que parar? Um dia passa.

É o que dizem por aí...



Só não disseram como doeria sr você mesma a pessoa que te faz sofrer.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Desprendimento

Eu abri as feridas da vida, e esqueci de fazer o curativo pra deixar cicatrizar. Muita gente diz que eu sou forte, mas parece que eu só estou perdida, flutuando nesse mundo. Já era pra tudo ter ficado bem, e eu ter seguido com a vida, eu sei. Mas é como o metrô. A gente segue viagem, e vai parando e ficando tempo demais em algumas estações.

Não sei onde vim parar. Onde fui parar. Só sei que parei. Fiquei na tristeza, saudade e solidão. E flutuando comigo, vai o meu humor, que oscila em todos os sentimentos e pensamentos que me percorrem.

Sala da biblioteca. Branca. Silêncio. Sinto meu coração bater. Ouço os ponteiros do relógio. A dor parece fazer o tempo parar. Preciso de mais tempo para mim, para entender esse vai e vem que sempre para no bom e velho passado. E assim, as horas que pareciam não passar correm, porque o tempo nunca parece suficiente pra quem sente demais.

A caneta mancha a folha em branco, como uma série de memórias marcaram e registraram o que vivi. Culpa. Arrependimentos. Lembranças. Histórias. Sentimentos. Pensamentos. Para. Para. PARA!

Por que isso tem que me atormentar? Choro interruptamente, soluçando. Tremendo e tremores. Falta de ar. Acabo dormindo, como sempre a melhor solução. No dia seguinte, não. Não era um sonho, não voltei ao passado, nem esqueci de nada.

Os olhos grudados, não se abrem. Muito inchados após tanto choro. Me sinto acaba, destruída. A ferida dói. O filme do dia anterior dizia que às vezes destruir é um meio de recomeçar, uma segunda chance. Como se eu pudesse voltar no tempo...

Quando a coisa tem importância, tanto faz se era você do passado que você julga, ou não. Porque o valor da coisa se mantém. E a cabeça dói, dói há dias. Vai ver a dor do peito, tão destruído, precisou de mais espaço.

A semana foi horrível. Foi um existir sem existir. Viver por ter que viver, por existir um tempo, um espaço. Tudo tão acabado, parecia vazio, frio, insensível aqui dentro. Apenas suportando. Querendo tempo e espaço pra entender o que vivi até aqui.

Mas não dá. Esbarro em pessoas do dia a dia. Digo oi. Elas dizem "oi, tudo bem?". Corro, abaixo a cabeça ainda sorrindo e dizendo oi. Preciso evitar essa perguntar que queima, percorre tudo aqui dentro. Porque não tá tudo bem. Mas é só o que sei.

Ao menos os passeios do final de semana me permitiram fugir de tudo. Evitar, escapar, que é tudo o que sei fazer. Marcar um encontro comigo mesma parece ser demais.

Debates. Tentativas de argumentar sobre como o viver por viver, um viver sem querer pode se equivaler a morte, e por isso essa última é sempre uma saída a ser considerada. Não. Ninguém entenderia...

Por fim o encontro com um texto aleatório. Dizendo que para o fim, é necessária uma decisão de fim. Quis chorar. Foi difícil entender. Se consegui, é que posso eu mesma dizer: para, acabou. Não adianta. Não tem volta. Fim.

Se bem que eu nunca gostei mesmo dos créditos finais, daquele "the end", de limitações. E faz sentido por isso estar sofrendo. Mas é hora de parar. Fim. Curativo posto.

É claro que as memórias vão ficar, a saudade vai bater e sempre a tristeza vai surgir. Mas a minha história não acaba aqui. Não pode acabar. Se já não acabou...

Um tempo atrás essa dor no peito que parecia um vazio me deixava na dúvida se era o fim, ou se era paz. Acho que agora entendo que é porque eu cheguei no meu limite, eu cheguei em um fim. Acabou mesmo.

Mas se é preciso destruir pra recomeçar, e se sou eu quem decido quando por um fim, olha eu aqui. O sono até parece passar. Posto o curativo, posso seguir. Seguir, não continuar. É difícil recomeçar, quando a gente sabe e tudo o que viveu e aconteceu, que não volta, é triste e não tem solução.

Só também não dá pra viver disso.

Parece que o difícil mesmo é eu me desprender. Aceitar que o passado e tudo o mais se foi. Que você se foi. E eu tenho que deixar ir. Sem temer, porque do nosso amor e da nossa história, nada vai mudar.

Bom, leva um tempo pra cicatrizar. E a gente vai refazendo os curativos. 

Quando cicatrizar e a ferida fechar, lá fica a marca. E às vezes a gente relembra como é que tudo aconteceu...

Coração acelerado enquanto as lágrimas escorrem. Me sinto tão só. Um abraço agora faria bem.

Bora seguir, e esperar com o que a vida vem...


quinta-feira, 4 de maio de 2017

Flutuando

Será que estou flutuando
Sozinha e sem direção?
Vejo pessoas também perdidas
Inconscientes e na contramão

Tudo parece ausente
E eu so tento sobreviver
Desesperadamente, em silencio
Os olhos pesam, mas já não quero ver

Não quero entender
Não quero pensar
Só quero que tudo passe
Uma rota traçar

Me encontrar
Quando a dor passar
As lembranças esquecer
Quando tudo perecer

Dou uma volta
Respiro
O coração acelera
Nem sei como me sinto

Chorei demais
Queria pedir ajuda
Não sei mais
O que pode acontecer

Se vai mudar
Se vai passar
Já nem mesmo a morte vejo mais
Afundei.

Flutuo, presa, sem saída
Não dá mais
Acabou
Tanto faz

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Novamente sobre as partidas

Tem dias que parecem que não são pra nós. Tentamos agarrá-lo de todas as formas com nossas mãos, mas não conseguimos. E parece, inclusive, que é algo que se inicia logo ao acordarmos. Estamos alegres, nos esforçamos por realizar algo, mas não dá, não vai. E forçar, é pior. Paro e olho para a folha em branco. Perceber esse estado em que me encontro (perdida) dói. Sinto queimar o peito. E mais. Seria a noite que me traz isso? Sonhos não lembrados?

Sentada no chão, ao pé da cama. Ao lado, a mochila pra sair amanhã. Do outro, cadernos e folhas de escritos. E o violão. Cantava músicas. Melancólicas. Que dizem muito. E uma nova conclusão para este dia. Novamente sobre as partidas.

Acho que passe o tempo que for, não saberei lidar com elas. Um tempo atrás, nessas mesmas folhas, escreví sobre como me incomodava as pessoas partirem sem simplesmente dizerem nada. Como se eu não sentisse, não me importasse ou estranhasse, que alguém esteve aqui, eu interagí, me abrí, compartilhei um mundo e acreditei que a pessoa houvesse feito o mesmo. Como se a pessoa curtisse aquilo como temporária, passageiro, um momento, e depois chega, e se vai. Sem adeus, nem nada. 

Uma amiga, após ler isso tudo, me escreveu. Falou sobre nossa amizade, agradeceu por tudo. E se desculpou. Era um adeus. Atrasado, mas era. E doeu, igualmente. Por que partir? Fica mais um pouco... Mas foi sempre aqui. Desde a pré-escola. Eu me lembro. E revivo tudo com tristeza, muitas e muitas vezes.

O que eu deveria fazer? Apagar as pessoas da minha vida, não lembrar de nada e não procurá-las?
Porque pra mim teve importancia, muita e, infelizmente, não sei ser temporária, passageira, um momento.

Fone de ouvido. Melhor. Vai trazer algum sentido. A música pode, chega chutando a porta e vai preenchendo tudo. Exatamente como às vezes preciso. E eu viajo pra longe. O que me lembra ontem, quando ouvia de longe na TV algo como "amanhã nas lojas o que você sempre quis". Eu sorrí, automaticamente, e na minha cabeça respondí "sossego".

Talvez hoje tudo esteja assim também porque semana passada estive muito eufórica. Fiz coisas demais. Estava muito contente, me divertí. Acho que às vezes a própria vida acorda e me diz "para um pouco". Sossega. Vai com calma. Você pode se machucar. Fazer muito também não é bom. Ao menos passei um tempo só, equilibrada, com a cabeça no lugar, sem o passado. Até agora. Hoje.

Talvez eu esteja precisando de uma tempestade. Nada melhor que tomar chuva. Parece sempre tão esclarecedor. E depois, já em casa, ver a água na janela, e a janela abafada. Essa sou eu. Ora guardando demais, ora expondo demais. Mas o problema mesmo é que eu gosto de tomar chuva, sem guarda chuva.

Acho mesmo que sou eu. E às vezes em que eu quem partí? Porque não posso negar que não o fiz. Às vezes eu me lembro do guarda chuva, com medo do resfriado. Me protejo. Mas nas férias, em que perco o sentido do tempo, das horas, do relógio, eu bem que gosto de fugir um pouco e observar as pipas no céu. São muitas, voando, e se enroscam, brincam, se divertem, até que chega a noite, e elas partem.

Mas na verdade eu sou desperta demais para a luz do dia e cansada demais para a noite. É assim que eu caio no sono de repente, sonho e acordo depois sem saber o que aconteceu. Quem partiu, porque partiu. O que mudou. Como estou. E é assim que eu vou atrás, fico sempre tentando fazer conversa com pessoas que partiram, mesmo as que disseram adeus, e coisas assim.

Porque não faz diferença. Ficou lá atrás, pra elas tá tudo bem e aqui ficou um vazio que dói. 
Alguém deve aparecer daqui algumas horas, pra me alertar sobre como meu presente é maravilhoso e me lembrar das pessoas que ficaram. É.

Quem sabe um dia. Quando eu lembrar de não me entregar demais aos pensamentos. Ou aos momentos com determinadas pessoas. Sem toda essa nostalgia.
Quem sabe um dia. Quando eu acordar num dia meu. E menos vulnerável. 

Porque não foi hoje que chegou na minha loja o sossego.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O som do que sou. Sou de que som?

Tempo de frio, a noite choveu. Adiando e adiando escrever, com medo do tanto que tá guardado aqui pra dizer. Me faz mal guardar, aqui dentro já transborda, sinto sufocar... E dizer é difícil demais. Dizer, e dizer verdadeiramente.

Sentada na sala, o noticiário corre na TV. Saltei da cama contente, ao acordar cedo e ver o sol. Euforias internas que me ocorrem. Mal posso esperar pra sair, e ver um quadro de nuvens pintado no céu, que me inspira a pintar sempre um dia novo e diferente.

Na verdade, queria ter uma vida distante. De outro mundo. Não sei lidar com todos os prédios futurísticos que vejo na cidade. Mesmo quando o sol bate em seus vidros, imagino como é estar presa e perdida dentro dele. E eu... Prefiro os pássaros que passam voando, correndo e gritando pelo grande céu.

Um barulho insuportável de carro e alarmes do lado de fora. Pessoas falando ininterruptamente. Fecho os olhos e vejo tudo branco. Calma. Silêncio. Vazio. Encontrar muito no nada.

Procuro, na faculdade, o banco sábio. Nele estão escritas frases soltas, como os meus pensamentos, tão repletos e desorganizados. Deito nele, admiro as aranhas, penduradas em suas teias e tão indiferentes a tudo. Olho para cima, para contemplar o céu azul e as árvores verdes. A natureza em que me encontro. Não resolvo nada do que me angustia, mas saio da realidade louca em que fui levada a viver. Liberte-se daquilo que te mantém refém, é o que o banco sábio me diz.

Me preparei tanto, ao longo das férias, para garantir equilíbrio durante a rotina. Tomo café. Desce raspando e a cafeína vai lentamente despertando tudo. Muito barulho na rua, e eu sem entender o que aconteceu. Vazamento de água. E eu, pra onde foi que deixei a água da minha vida correr?

Não sei como lidar com a rotina que me arrasta, mas também não sei lidar com a realização do sonho que é meu maior desejo. Me sinto bloqueada, e choro sem parar. É quando a música me deixa triste, e por isso não esperava.

Ao menos uma noite eu cantei. E foi a noite mais feliz. Sentí dentro de mim irradiar e se espalhar por toda a cidade. Felicidade. Depois disso, não sei o que aconteceu. Quis desistir. Da música, da vida e de mim. Não é pra mim, a música e a vida.

Agora um pouco melhor, penso nas árvores e em seus galhos. Alguns quebrados e caídos, junto com os que se mantém. Nem todos os galhos duram. Como eu que me encontrei e tão logo perdí. Eu só não sei nadar no mar que é a vida.. Não deveria me entregar tanto às pessoas, aos momentos, à infinitude, à felicidade, à dor.

Por isso tento ficar silenciosa. Um pouco mais na solidão. Parece que traz mais sentido. Como se eu conhecesse outro sentido além do sentir. Sentida é como me sinto comigo, que nunca sei lidar.

Meus dedos sangram e doem. Peles consumidas de nervoso. E eu não largo o celular. É uma droga. Esse vício que parece sempre saber de tudo, traz as pessoas, o mundo, os acontecimentos... Então me deixo prender na tela, paralisada, e quem sabe ele me traga também.

Me procuro não porque eu não sou eu, mas porque não sou completamente eu. É possível ser? Ser, sou. Mas como mostrar, trazer pra fora o que acontece aqui dentro? Preciso de mais espaço, porque não cabe tudo. E também não preciso mostrar tudo, porque depois não sei lidar.

Confusão. Não me surpreende a solução ser novamente o meu velho papo de que podemos ser pares de opostos. Ser. E não ser.

Passo horas, quando não o tempo inteiro, pensando em música. Sons, notas, canções. Artistas. Sonhando comigo vivendo assim. Passo horas, também, quando não dias inteiros, brincando com a música. É quase como um passeio, com uma pessoa querida (adivinhem quem é). E assim eu gosto de passear.

E assim vou cantando. Cantarolando. Cantando como um passarinho. Quando canto, eu me encanto com o que sou. Descubro, vejo, sinto, penso e entendo tanto sobre mim. Canto e vejo entro de mim. Ao ver, e cantar, isso sai, e se espalha por onde puder. Aqui dentro fica alegre, e em paz.

Fujo pros bancos perdidos no meio do mato. Quando sinto tudo rodando, sento em um deles, e olho ao meu redor, verde, para todos os bichinhos que ali estão, e escuto o som que tem. Não é o que há dentro de mim, é maior.

E aí, tudo faz sentido, a dor encontra seu caminho e solução, graças aos barulhos da natureza. Graças ao som, e eu volto a ser.

Som. Sou. Só.

Sou. Som. Só.

Um.



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Momentos

Momentos são como dentes de leão. São repletos, espalhados por todo lugar, aparecem facilmente e são belos. Se transformam. Ele acontece com toda a força, com magia, com aquele sentimento que dá um burburinho no coração, quando se sente algo ao máximo. E vive, e fecha os olhos. E soprou. Lá se vão os momentos. Às vezes resta algo desses momentos em nossas mãos, um caule, uma lembrança, talvez. Mas o momento já foi.

Às vezes, pensando nisso, caio em perguntas. Se o eu é feito de mundo, de passado, por que o mundo não pode ser meu ou eu não posso ser o que já passou? Parece sabotagem, e sinto passar por mim uma náusea angustiante, e me sai um vômito como fala.

Engraçado. Em instantes fico em pedaços. Como dentes de leão. Parece que a minha realidade não é tão clara assim. Sinto um sufoco, como se tivessem me roubado de mim.

Roubaram? Não, eu me roubei. Me deixando roubarem. Por sorte, eu tenho os dentes de leão. Tenho os momentos. Me lembro deles e posso revivê-los. Embora eu venha repensando isso. Embora consiga revivê-los, e sentir aquilo transbordar novamente em mim, surge com uma mistura de ansiedade. Angústia. Náusea. Vômito. Pedaços. Das histórias, de mim, das pessoas, e dos momentos. Tudo alterado. Sabotagem.

Solto a caneta e limpo os óculos. Não pode ser assim. Não fui roubada e sei que estou aqui. Sei que passo por momentos. E eles passam por mim. São únicos. São meus.

Tá certo que às vezes os momentos são mais eu que instantes, e às vezes eu sou mais eles do que quem sou. No trânsito, à noite, quando passam tantos carros com suas luzes e sons, e se misturam com as luzes da cidade e com tantos prédios, ruas e lugares, me sinto mergulhada em um momento em que não consigo estar, não consigo ser. É demais, muita coisa, e ele é por mim.

Mas quando sou eu quem mergulho, e deixo a água passar pela cabeça, pelos ombros e costas, e sinto o som da água como que dentro dos meus ouvidos, sei que eu estou ali. Sou por mim, e por ele. Quando levanto, ando lentamente, pequeno passos. O tempo parece ter parado. Eu sem dúvidas estou ali. Eu sou o momento.

Boiando na água, olho o céu, com suas nuvens, e o sol. Boiando e dando mergulhos, me lembro de como boiava minha mãe, e eu a olhava de longe na praia, ela sorrindo e boiando para o fundo, indo cada vez mais longe, até hoje ela não estar mais aqui.

Estive mergulhando, e ela esteve aqui sim. Com seu modo de viver e aprendizados deixados. Parecia que seu coração irradiava vida e sua vida era coração. Momentos de compreensão.

Ouvindo a chuva e sentindo o coração pesado, transbordando, remexido, olho ao meu redor, vejo as paredes brancas e me sinto como terra molhada absorvendo água. E gosto desse cheiro, que sinto de longe, quando a chuva vem.

Muitas vezes, quis ser monotonia. Mas só posso ser se me espalhar de coisas boas, e de coisas. Ser. Estar. Fazer. Momentos. E é por isso que sempre digo que quero ter um jardim de dentes de leão.

Caminhei com os pés na grama. Ouví os pássaros, que me acordam às vezes. Preciso relaxar. Não consigo. Porque quero fazer para ser, e fazendo posso relaxar. Mas fazendo, não relaxo. Talvez eu precise do silêncio, precise ser. E depois tente organizar essa bagunça que tô dizendo que é onde eu me encontro.

Bobagem. A ansiedade já chegou. E as borboletas passeiam na barriga. Vou esperar. Esperar a madrugada pra relaxar. Nela está o meu sossego, porque eu deito e durmo.

No sono, eu mergulho nos meus momentos.

Durante o dia, procuro mais dentes de leão. Sopros da vida.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Prazer, eu mesma

Eu nunca dei notícias de mim. Foi o que disse minha vó a uma da manhã, no ano novo. Isso me transbordou de sentimentos. Sobre ela, sobre mim e sobre tantas outras coisas e pessoas. Principalmente para pessoas que gostariam de se expressar melhor e falham nessa tarefa. E não só isso. Também para pessoas que nunca se expressaram com elas mesmas.

Acredito, na verdade, que muitas pessoas não fazem isso. Não conversam com elas, se conhecem pouco. Não se conectam consigo mesmas, tem medo da solidão. Eu já tive muito também. A ponto de surtar, jogar tudo longe, chorando, e dormir na esperança de não mais existir. Mas nos últimos tempos, algo mudou.

Queria poder explicar para todos como isso se deu. Olá a todos, encontrei todas as soluções e respostas! Não. Não, ainda faltam tantos detalhes. E o que me faz bem é exatamente saber que nada pode ser perfeito nem completamente compreendido.

Passava por uns tempos difíceis. A maré estava ruim. Estava bastante confusa. Andava olhando para os pés das pessoas, e tinha vertigens. Estudava para as provas e passava mal, precisava ficar no escuro para amenizar o mal estar. Sentia, às vezes, o mundo mais vazio. Tinha sonhos repetidos toda noite, em que muitas pessoas que conheço se reuniam, e eu assistia como se estivesse na cena, mas ao mesmo tempo não. E eu me sentia triste, desesperada. Arrependida daquilo, que parecia ser minha morte, estar acontecendo.

Uma amiga me ajudou a pensar na morte e no luto. Com isso, pude pensar no futuro, em outras ideias e questões. Pude pensar. Pude sentir. Parece que lidar com uma espécie de desconhecido, confuso e estranho... Me levou ao conhecido. Me levou a mim mesma.

Essa consciência de trouxe grandes estranhamentos, e só aos poucos pude me dizer oi e como era um grande prazer me conhecer e passar momentos comigo. Acho engraçado notar como no início sentí certa angústia. Como assim estou passando um tempo comigo mesma? Sozinha? Curtindo o que é belo, a natureza? Quanta angústia diante dessas situações ambivalentes e paradoxais.

Mas passa. E vem a chuva pra lavar e levar quaisquer confusões. Uma chuva que vejo pela janela da sala de aula. Vem forte, cai sobre todas as árvores e plantas. O céu fica branco. Tudo fica embaçado. Quase não se vê mais o verde. Espetacular. Invisível.

Depois, vejo um pequeno sol que se abre, permitindo secar o verde, permitindo que ele surja novamente. Vem o silêncio, o foco. Restos de um dia bom. Um novo aprendizado. No passado, não me daria notícias de mim. Passaria diante de tudo, deslumbrada. Não me colocaria em nada. Passaria passiva. Indiferente. Distante. Angustiada. Agora não passo mais. Vejo e fico. Fico para sentir o agora, que é o instante em que vivo. Que agora vivo.

Era tão difícil de lidar com o que ia embora. Nada nunca me disse adeus. E eu também ia. É curioso notar como as pessoas só vão. E eu também ia. Sem querer. Sem precisar. Sem ser.

Sinto tudo tão leve. É uma leveza incrível. Permito, inclusive, que as coisas passem sem que eu perceba. Ou que eu me lembre. Precisava ter notado? Talvez eu não queira mais ser tão controladora. Ter o controle de tudo pode tirar meu próprio controle. Também não quero a extrema liberdade, que pode também me limitar.

E limitar a leveza e que tem sido difícil. Me deu asas. E quantas ideias, pensamentos e sentimentos me correm na mente. Me sinto eufórica, mas não quero perder isso. Nem ter medo. E o que sou. Gosto de sentir, pensar e perceber. Quero ser esse pássaro e voar por esse céu que é a vida.

Estava caminhando com meu amor no domingo, e contando para ele que nunca dei notícias de mim (e estava dando início a um noticiário). No caminho, ia notando mudanças (e novas belezas) do bairro. Me lembrei que sempre que viajava - e estou chateada por não ter viajado - na volta sempre havia diferenças: em uma árvore, em um muro, em uma pintura e em tantas outras coisas. Achava que as mudanças ocorriam quando eu não estava aqui, e só notava quando voltava de viagem. Talvez as coisas não mudem, então, só quando a gente viaja. Eu não viajei e veja só quantas novidades.

Mas talvez as coisas não mudem quando a gente viaja mesmo. É só que a viagem sempre acontece. Uma viagem que é a vida. Uma viagem que é você. Basta um pouco de asas. E certas permissões para transitar.

Deixa estar a leveza, o céu, o sol. Olhe para trás quando de levantar do ônibus. Veja o caminho. Há árvores. Muito sol. O céu azul. O vento carregando folhas. Segue por esse caminho, voa e faz teu pouso. Deixa estar a felicidade. Deixa estar a sensibilidade.

E agora dei notícias de mim.

Prazer, eu mesma.