quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Momentos

Momentos são como dentes de leão. São repletos, espalhados por todo lugar, aparecem facilmente e são belos. Se transformam. Ele acontece com toda a força, com magia, com aquele sentimento que dá um burburinho no coração, quando se sente algo ao máximo. E vive, e fecha os olhos. E soprou. Lá se vão os momentos. Às vezes resta algo desses momentos em nossas mãos, um caule, uma lembrança, talvez. Mas o momento já foi.

Às vezes, pensando nisso, caio em perguntas. Se o eu é feito de mundo, de passado, por que o mundo não pode ser meu ou eu não posso ser o que já passou? Parece sabotagem, e sinto passar por mim uma náusea angustiante, e me sai um vômito como fala.

Engraçado. Em instantes fico em pedaços. Como dentes de leão. Parece que a minha realidade não é tão clara assim. Sinto um sufoco, como se tivessem me roubado de mim.

Roubaram? Não, eu me roubei. Me deixando roubarem. Por sorte, eu tenho os dentes de leão. Tenho os momentos. Me lembro deles e posso revivê-los. Embora eu venha repensando isso. Embora consiga revivê-los, e sentir aquilo transbordar novamente em mim, surge com uma mistura de ansiedade. Angústia. Náusea. Vômito. Pedaços. Das histórias, de mim, das pessoas, e dos momentos. Tudo alterado. Sabotagem.

Solto a caneta e limpo os óculos. Não pode ser assim. Não fui roubada e sei que estou aqui. Sei que passo por momentos. E eles passam por mim. São únicos. São meus.

Tá certo que às vezes os momentos são mais eu que instantes, e às vezes eu sou mais eles do que quem sou. No trânsito, à noite, quando passam tantos carros com suas luzes e sons, e se misturam com as luzes da cidade e com tantos prédios, ruas e lugares, me sinto mergulhada em um momento em que não consigo estar, não consigo ser. É demais, muita coisa, e ele é por mim.

Mas quando sou eu quem mergulho, e deixo a água passar pela cabeça, pelos ombros e costas, e sinto o som da água como que dentro dos meus ouvidos, sei que eu estou ali. Sou por mim, e por ele. Quando levanto, ando lentamente, pequeno passos. O tempo parece ter parado. Eu sem dúvidas estou ali. Eu sou o momento.

Boiando na água, olho o céu, com suas nuvens, e o sol. Boiando e dando mergulhos, me lembro de como boiava minha mãe, e eu a olhava de longe na praia, ela sorrindo e boiando para o fundo, indo cada vez mais longe, até hoje ela não estar mais aqui.

Estive mergulhando, e ela esteve aqui sim. Com seu modo de viver e aprendizados deixados. Parecia que seu coração irradiava vida e sua vida era coração. Momentos de compreensão.

Ouvindo a chuva e sentindo o coração pesado, transbordando, remexido, olho ao meu redor, vejo as paredes brancas e me sinto como terra molhada absorvendo água. E gosto desse cheiro, que sinto de longe, quando a chuva vem.

Muitas vezes, quis ser monotonia. Mas só posso ser se me espalhar de coisas boas, e de coisas. Ser. Estar. Fazer. Momentos. E é por isso que sempre digo que quero ter um jardim de dentes de leão.

Caminhei com os pés na grama. Ouví os pássaros, que me acordam às vezes. Preciso relaxar. Não consigo. Porque quero fazer para ser, e fazendo posso relaxar. Mas fazendo, não relaxo. Talvez eu precise do silêncio, precise ser. E depois tente organizar essa bagunça que tô dizendo que é onde eu me encontro.

Bobagem. A ansiedade já chegou. E as borboletas passeiam na barriga. Vou esperar. Esperar a madrugada pra relaxar. Nela está o meu sossego, porque eu deito e durmo.

No sono, eu mergulho nos meus momentos.

Durante o dia, procuro mais dentes de leão. Sopros da vida.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Prazer, eu mesma

Eu nunca dei notícias de mim. Foi o que disse minha vó a uma da manhã, no ano novo. Isso me transbordou de sentimentos. Sobre ela, sobre mim e sobre tantas outras coisas e pessoas. Principalmente para pessoas que gostariam de se expressar melhor e falham nessa tarefa. E não só isso. Também para pessoas que nunca se expressaram com elas mesmas.

Acredito, na verdade, que muitas pessoas não fazem isso. Não conversam com elas, se conhecem pouco. Não se conectam consigo mesmas, tem medo da solidão. Eu já tive muito também. A ponto de surtar, jogar tudo longe, chorando, e dormir na esperança de não mais existir. Mas nos últimos tempos, algo mudou.

Queria poder explicar para todos como isso se deu. Olá a todos, encontrei todas as soluções e respostas! Não. Não, ainda faltam tantos detalhes. E o que me faz bem é exatamente saber que nada pode ser perfeito nem completamente compreendido.

Passava por uns tempos difíceis. A maré estava ruim. Estava bastante confusa. Andava olhando para os pés das pessoas, e tinha vertigens. Estudava para as provas e passava mal, precisava ficar no escuro para amenizar o mal estar. Sentia, às vezes, o mundo mais vazio. Tinha sonhos repetidos toda noite, em que muitas pessoas que conheço se reuniam, e eu assistia como se estivesse na cena, mas ao mesmo tempo não. E eu me sentia triste, desesperada. Arrependida daquilo, que parecia ser minha morte, estar acontecendo.

Uma amiga me ajudou a pensar na morte e no luto. Com isso, pude pensar no futuro, em outras ideias e questões. Pude pensar. Pude sentir. Parece que lidar com uma espécie de desconhecido, confuso e estranho... Me levou ao conhecido. Me levou a mim mesma.

Essa consciência de trouxe grandes estranhamentos, e só aos poucos pude me dizer oi e como era um grande prazer me conhecer e passar momentos comigo. Acho engraçado notar como no início sentí certa angústia. Como assim estou passando um tempo comigo mesma? Sozinha? Curtindo o que é belo, a natureza? Quanta angústia diante dessas situações ambivalentes e paradoxais.

Mas passa. E vem a chuva pra lavar e levar quaisquer confusões. Uma chuva que vejo pela janela da sala de aula. Vem forte, cai sobre todas as árvores e plantas. O céu fica branco. Tudo fica embaçado. Quase não se vê mais o verde. Espetacular. Invisível.

Depois, vejo um pequeno sol que se abre, permitindo secar o verde, permitindo que ele surja novamente. Vem o silêncio, o foco. Restos de um dia bom. Um novo aprendizado. No passado, não me daria notícias de mim. Passaria diante de tudo, deslumbrada. Não me colocaria em nada. Passaria passiva. Indiferente. Distante. Angustiada. Agora não passo mais. Vejo e fico. Fico para sentir o agora, que é o instante em que vivo. Que agora vivo.

Era tão difícil de lidar com o que ia embora. Nada nunca me disse adeus. E eu também ia. É curioso notar como as pessoas só vão. E eu também ia. Sem querer. Sem precisar. Sem ser.

Sinto tudo tão leve. É uma leveza incrível. Permito, inclusive, que as coisas passem sem que eu perceba. Ou que eu me lembre. Precisava ter notado? Talvez eu não queira mais ser tão controladora. Ter o controle de tudo pode tirar meu próprio controle. Também não quero a extrema liberdade, que pode também me limitar.

E limitar a leveza e que tem sido difícil. Me deu asas. E quantas ideias, pensamentos e sentimentos me correm na mente. Me sinto eufórica, mas não quero perder isso. Nem ter medo. E o que sou. Gosto de sentir, pensar e perceber. Quero ser esse pássaro e voar por esse céu que é a vida.

Estava caminhando com meu amor no domingo, e contando para ele que nunca dei notícias de mim (e estava dando início a um noticiário). No caminho, ia notando mudanças (e novas belezas) do bairro. Me lembrei que sempre que viajava - e estou chateada por não ter viajado - na volta sempre havia diferenças: em uma árvore, em um muro, em uma pintura e em tantas outras coisas. Achava que as mudanças ocorriam quando eu não estava aqui, e só notava quando voltava de viagem. Talvez as coisas não mudem, então, só quando a gente viaja. Eu não viajei e veja só quantas novidades.

Mas talvez as coisas não mudem quando a gente viaja mesmo. É só que a viagem sempre acontece. Uma viagem que é a vida. Uma viagem que é você. Basta um pouco de asas. E certas permissões para transitar.

Deixa estar a leveza, o céu, o sol. Olhe para trás quando de levantar do ônibus. Veja o caminho. Há árvores. Muito sol. O céu azul. O vento carregando folhas. Segue por esse caminho, voa e faz teu pouso. Deixa estar a felicidade. Deixa estar a sensibilidade.

E agora dei notícias de mim.

Prazer, eu mesma.