quinta-feira, 13 de abril de 2017

O som do que sou. Sou de que som?

Tempo de frio, a noite choveu. Adiando e adiando escrever, com medo do tanto que tá guardado aqui pra dizer. Me faz mal guardar, aqui dentro já transborda, sinto sufocar... E dizer é difícil demais. Dizer, e dizer verdadeiramente.

Sentada na sala, o noticiário corre na TV. Saltei da cama contente, ao acordar cedo e ver o sol. Euforias internas que me ocorrem. Mal posso esperar pra sair, e ver um quadro de nuvens pintado no céu, que me inspira a pintar sempre um dia novo e diferente.

Na verdade, queria ter uma vida distante. De outro mundo. Não sei lidar com todos os prédios futurísticos que vejo na cidade. Mesmo quando o sol bate em seus vidros, imagino como é estar presa e perdida dentro dele. E eu... Prefiro os pássaros que passam voando, correndo e gritando pelo grande céu.

Um barulho insuportável de carro e alarmes do lado de fora. Pessoas falando ininterruptamente. Fecho os olhos e vejo tudo branco. Calma. Silêncio. Vazio. Encontrar muito no nada.

Procuro, na faculdade, o banco sábio. Nele estão escritas frases soltas, como os meus pensamentos, tão repletos e desorganizados. Deito nele, admiro as aranhas, penduradas em suas teias e tão indiferentes a tudo. Olho para cima, para contemplar o céu azul e as árvores verdes. A natureza em que me encontro. Não resolvo nada do que me angustia, mas saio da realidade louca em que fui levada a viver. Liberte-se daquilo que te mantém refém, é o que o banco sábio me diz.

Me preparei tanto, ao longo das férias, para garantir equilíbrio durante a rotina. Tomo café. Desce raspando e a cafeína vai lentamente despertando tudo. Muito barulho na rua, e eu sem entender o que aconteceu. Vazamento de água. E eu, pra onde foi que deixei a água da minha vida correr?

Não sei como lidar com a rotina que me arrasta, mas também não sei lidar com a realização do sonho que é meu maior desejo. Me sinto bloqueada, e choro sem parar. É quando a música me deixa triste, e por isso não esperava.

Ao menos uma noite eu cantei. E foi a noite mais feliz. Sentí dentro de mim irradiar e se espalhar por toda a cidade. Felicidade. Depois disso, não sei o que aconteceu. Quis desistir. Da música, da vida e de mim. Não é pra mim, a música e a vida.

Agora um pouco melhor, penso nas árvores e em seus galhos. Alguns quebrados e caídos, junto com os que se mantém. Nem todos os galhos duram. Como eu que me encontrei e tão logo perdí. Eu só não sei nadar no mar que é a vida.. Não deveria me entregar tanto às pessoas, aos momentos, à infinitude, à felicidade, à dor.

Por isso tento ficar silenciosa. Um pouco mais na solidão. Parece que traz mais sentido. Como se eu conhecesse outro sentido além do sentir. Sentida é como me sinto comigo, que nunca sei lidar.

Meus dedos sangram e doem. Peles consumidas de nervoso. E eu não largo o celular. É uma droga. Esse vício que parece sempre saber de tudo, traz as pessoas, o mundo, os acontecimentos... Então me deixo prender na tela, paralisada, e quem sabe ele me traga também.

Me procuro não porque eu não sou eu, mas porque não sou completamente eu. É possível ser? Ser, sou. Mas como mostrar, trazer pra fora o que acontece aqui dentro? Preciso de mais espaço, porque não cabe tudo. E também não preciso mostrar tudo, porque depois não sei lidar.

Confusão. Não me surpreende a solução ser novamente o meu velho papo de que podemos ser pares de opostos. Ser. E não ser.

Passo horas, quando não o tempo inteiro, pensando em música. Sons, notas, canções. Artistas. Sonhando comigo vivendo assim. Passo horas, também, quando não dias inteiros, brincando com a música. É quase como um passeio, com uma pessoa querida (adivinhem quem é). E assim eu gosto de passear.

E assim vou cantando. Cantarolando. Cantando como um passarinho. Quando canto, eu me encanto com o que sou. Descubro, vejo, sinto, penso e entendo tanto sobre mim. Canto e vejo entro de mim. Ao ver, e cantar, isso sai, e se espalha por onde puder. Aqui dentro fica alegre, e em paz.

Fujo pros bancos perdidos no meio do mato. Quando sinto tudo rodando, sento em um deles, e olho ao meu redor, verde, para todos os bichinhos que ali estão, e escuto o som que tem. Não é o que há dentro de mim, é maior.

E aí, tudo faz sentido, a dor encontra seu caminho e solução, graças aos barulhos da natureza. Graças ao som, e eu volto a ser.

Som. Sou. Só.

Sou. Som. Só.

Um.



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