segunda-feira, 24 de abril de 2017

Novamente sobre as partidas

Tem dias que parecem que não são pra nós. Tentamos agarrá-lo de todas as formas com nossas mãos, mas não conseguimos. E parece, inclusive, que é algo que se inicia logo ao acordarmos. Estamos alegres, nos esforçamos por realizar algo, mas não dá, não vai. E forçar, é pior. Paro e olho para a folha em branco. Perceber esse estado em que me encontro (perdida) dói. Sinto queimar o peito. E mais. Seria a noite que me traz isso? Sonhos não lembrados?

Sentada no chão, ao pé da cama. Ao lado, a mochila pra sair amanhã. Do outro, cadernos e folhas de escritos. E o violão. Cantava músicas. Melancólicas. Que dizem muito. E uma nova conclusão para este dia. Novamente sobre as partidas.

Acho que passe o tempo que for, não saberei lidar com elas. Um tempo atrás, nessas mesmas folhas, escreví sobre como me incomodava as pessoas partirem sem simplesmente dizerem nada. Como se eu não sentisse, não me importasse ou estranhasse, que alguém esteve aqui, eu interagí, me abrí, compartilhei um mundo e acreditei que a pessoa houvesse feito o mesmo. Como se a pessoa curtisse aquilo como temporária, passageiro, um momento, e depois chega, e se vai. Sem adeus, nem nada. 

Uma amiga, após ler isso tudo, me escreveu. Falou sobre nossa amizade, agradeceu por tudo. E se desculpou. Era um adeus. Atrasado, mas era. E doeu, igualmente. Por que partir? Fica mais um pouco... Mas foi sempre aqui. Desde a pré-escola. Eu me lembro. E revivo tudo com tristeza, muitas e muitas vezes.

O que eu deveria fazer? Apagar as pessoas da minha vida, não lembrar de nada e não procurá-las?
Porque pra mim teve importancia, muita e, infelizmente, não sei ser temporária, passageira, um momento.

Fone de ouvido. Melhor. Vai trazer algum sentido. A música pode, chega chutando a porta e vai preenchendo tudo. Exatamente como às vezes preciso. E eu viajo pra longe. O que me lembra ontem, quando ouvia de longe na TV algo como "amanhã nas lojas o que você sempre quis". Eu sorrí, automaticamente, e na minha cabeça respondí "sossego".

Talvez hoje tudo esteja assim também porque semana passada estive muito eufórica. Fiz coisas demais. Estava muito contente, me divertí. Acho que às vezes a própria vida acorda e me diz "para um pouco". Sossega. Vai com calma. Você pode se machucar. Fazer muito também não é bom. Ao menos passei um tempo só, equilibrada, com a cabeça no lugar, sem o passado. Até agora. Hoje.

Talvez eu esteja precisando de uma tempestade. Nada melhor que tomar chuva. Parece sempre tão esclarecedor. E depois, já em casa, ver a água na janela, e a janela abafada. Essa sou eu. Ora guardando demais, ora expondo demais. Mas o problema mesmo é que eu gosto de tomar chuva, sem guarda chuva.

Acho mesmo que sou eu. E às vezes em que eu quem partí? Porque não posso negar que não o fiz. Às vezes eu me lembro do guarda chuva, com medo do resfriado. Me protejo. Mas nas férias, em que perco o sentido do tempo, das horas, do relógio, eu bem que gosto de fugir um pouco e observar as pipas no céu. São muitas, voando, e se enroscam, brincam, se divertem, até que chega a noite, e elas partem.

Mas na verdade eu sou desperta demais para a luz do dia e cansada demais para a noite. É assim que eu caio no sono de repente, sonho e acordo depois sem saber o que aconteceu. Quem partiu, porque partiu. O que mudou. Como estou. E é assim que eu vou atrás, fico sempre tentando fazer conversa com pessoas que partiram, mesmo as que disseram adeus, e coisas assim.

Porque não faz diferença. Ficou lá atrás, pra elas tá tudo bem e aqui ficou um vazio que dói. 
Alguém deve aparecer daqui algumas horas, pra me alertar sobre como meu presente é maravilhoso e me lembrar das pessoas que ficaram. É.

Quem sabe um dia. Quando eu lembrar de não me entregar demais aos pensamentos. Ou aos momentos com determinadas pessoas. Sem toda essa nostalgia.
Quem sabe um dia. Quando eu acordar num dia meu. E menos vulnerável. 

Porque não foi hoje que chegou na minha loja o sossego.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O som do que sou. Sou de que som?

Tempo de frio, a noite choveu. Adiando e adiando escrever, com medo do tanto que tá guardado aqui pra dizer. Me faz mal guardar, aqui dentro já transborda, sinto sufocar... E dizer é difícil demais. Dizer, e dizer verdadeiramente.

Sentada na sala, o noticiário corre na TV. Saltei da cama contente, ao acordar cedo e ver o sol. Euforias internas que me ocorrem. Mal posso esperar pra sair, e ver um quadro de nuvens pintado no céu, que me inspira a pintar sempre um dia novo e diferente.

Na verdade, queria ter uma vida distante. De outro mundo. Não sei lidar com todos os prédios futurísticos que vejo na cidade. Mesmo quando o sol bate em seus vidros, imagino como é estar presa e perdida dentro dele. E eu... Prefiro os pássaros que passam voando, correndo e gritando pelo grande céu.

Um barulho insuportável de carro e alarmes do lado de fora. Pessoas falando ininterruptamente. Fecho os olhos e vejo tudo branco. Calma. Silêncio. Vazio. Encontrar muito no nada.

Procuro, na faculdade, o banco sábio. Nele estão escritas frases soltas, como os meus pensamentos, tão repletos e desorganizados. Deito nele, admiro as aranhas, penduradas em suas teias e tão indiferentes a tudo. Olho para cima, para contemplar o céu azul e as árvores verdes. A natureza em que me encontro. Não resolvo nada do que me angustia, mas saio da realidade louca em que fui levada a viver. Liberte-se daquilo que te mantém refém, é o que o banco sábio me diz.

Me preparei tanto, ao longo das férias, para garantir equilíbrio durante a rotina. Tomo café. Desce raspando e a cafeína vai lentamente despertando tudo. Muito barulho na rua, e eu sem entender o que aconteceu. Vazamento de água. E eu, pra onde foi que deixei a água da minha vida correr?

Não sei como lidar com a rotina que me arrasta, mas também não sei lidar com a realização do sonho que é meu maior desejo. Me sinto bloqueada, e choro sem parar. É quando a música me deixa triste, e por isso não esperava.

Ao menos uma noite eu cantei. E foi a noite mais feliz. Sentí dentro de mim irradiar e se espalhar por toda a cidade. Felicidade. Depois disso, não sei o que aconteceu. Quis desistir. Da música, da vida e de mim. Não é pra mim, a música e a vida.

Agora um pouco melhor, penso nas árvores e em seus galhos. Alguns quebrados e caídos, junto com os que se mantém. Nem todos os galhos duram. Como eu que me encontrei e tão logo perdí. Eu só não sei nadar no mar que é a vida.. Não deveria me entregar tanto às pessoas, aos momentos, à infinitude, à felicidade, à dor.

Por isso tento ficar silenciosa. Um pouco mais na solidão. Parece que traz mais sentido. Como se eu conhecesse outro sentido além do sentir. Sentida é como me sinto comigo, que nunca sei lidar.

Meus dedos sangram e doem. Peles consumidas de nervoso. E eu não largo o celular. É uma droga. Esse vício que parece sempre saber de tudo, traz as pessoas, o mundo, os acontecimentos... Então me deixo prender na tela, paralisada, e quem sabe ele me traga também.

Me procuro não porque eu não sou eu, mas porque não sou completamente eu. É possível ser? Ser, sou. Mas como mostrar, trazer pra fora o que acontece aqui dentro? Preciso de mais espaço, porque não cabe tudo. E também não preciso mostrar tudo, porque depois não sei lidar.

Confusão. Não me surpreende a solução ser novamente o meu velho papo de que podemos ser pares de opostos. Ser. E não ser.

Passo horas, quando não o tempo inteiro, pensando em música. Sons, notas, canções. Artistas. Sonhando comigo vivendo assim. Passo horas, também, quando não dias inteiros, brincando com a música. É quase como um passeio, com uma pessoa querida (adivinhem quem é). E assim eu gosto de passear.

E assim vou cantando. Cantarolando. Cantando como um passarinho. Quando canto, eu me encanto com o que sou. Descubro, vejo, sinto, penso e entendo tanto sobre mim. Canto e vejo entro de mim. Ao ver, e cantar, isso sai, e se espalha por onde puder. Aqui dentro fica alegre, e em paz.

Fujo pros bancos perdidos no meio do mato. Quando sinto tudo rodando, sento em um deles, e olho ao meu redor, verde, para todos os bichinhos que ali estão, e escuto o som que tem. Não é o que há dentro de mim, é maior.

E aí, tudo faz sentido, a dor encontra seu caminho e solução, graças aos barulhos da natureza. Graças ao som, e eu volto a ser.

Som. Sou. Só.

Sou. Som. Só.

Um.